Mamão brasileiro: entre climas e fronteiras, a estratégia que transformou a produção sem pausa

Uma cultura sensível, depender de uma única região produtora foi um risco que o setor aprendeu a evitar

por Portal Campo Vivo
A empresa opera em três frentes estratégicas de packing house: no Espírito Santo, em Minas Gerais e no Nordeste. Foto: AGC Frutas

O mamão não tolera extremos. Chuva em excesso pode comprometer a qualidade da fruta. Temperaturas mais baixas reduzem produtividade. Ventos fortes marcam a casca, prejudicam o padrão comercial e afetam diretamente o valor de mercado. Em uma cultura altamente sensível ao clima, depender de uma única região produtora é um risco que o setor aprendeu a evitar.

Foi justamente dessa necessidade de equilíbrio que nasceu uma das principais estratégias da moderna cadeia do mamão brasileiro: espalhar a produção por diferentes regiões do país para garantir fruta o ano inteiro -independentemente das oscilações do clima.

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A AGC Frutas é uma empresa que traduz bem essa lógica. O grupo começou em 2002, em Linhares e cresceu acompanhando os diferentes cinturões produtivos do Brasil. Hoje, a empresa opera três frentes estratégicas de packing house: no Espírito Santo, em Minas Gerais e no Nordeste, formando uma rede capaz de cobrir praticamente todo o mapa nacional da fruta.

“Um dos motivos de estarmos em três regiões diferentes é justamente ter fruta em climas distintos. Se uma região sofre com excesso de chuva ou seca, outros cinturões produtivos conseguem acobertar a operação”, resume o Ceo e fundador do grupo, Altenis Galavotti Carraretto.

 A lógica é simples, mas decisiva: enquanto uma região enfrenta adversidades climáticas, outra pode estar no auge produtivo. Isso garante regularidade no abastecimento, preserva contratos nacionais e internacionais e evita rupturas em mercados cada vez mais exigentes.

Ceo e fundador do grupo, Altenis Galavotti Carraretto. Foto: divulgação

Espírito Santo, referência em papaya

A unidade que deu origem ao grupo continua sendo um dos pilares da operação. Instalada em Linhares, no norte capixaba, a AGC Frutas, fundada em 2002, atende toda a produção do Espírito Santo e parte do sul da Bahia – regiões consideradas referência nacional no cultivo papaya, conhecido comercialmente pela variedade Aliança.

Em solo capixaba, o clima tropical quente e úmido, combinado à luminosidade e às características do solo, criou condições ideais para o desenvolvimento da fruta. Não por acaso, cerca de 80% do volume processado na unidade é de mamão Aliança, destinado tanto ao mercado interno quanto às exportações para Europa e Canadá.

A estrutura conta com três linhas de produção e capacidade para processar até 20 caminhões por dia. Mais do que escala, a operação simboliza a força histórica do Espírito Santo na cadeia do mamão brasileiro.

“O Espírito Santo e o sul da Bahia são os lugares mais adequados do Brasil para produzir mamão papaia”, destaca Altenis.

A empresa foi instalada em Linhares, no norte capixaba, em 2002. Foto: AGC Frutas

Minas Gerais: formosa de coloração intensa

A expansão da AGC Frutas seguiu o avanço natural da produção nacional. Em Lassance, no norte mineiro, nasceu o Grupo Imperial, que estruturou a operação voltada exclusivamente ao mamão formosa.

A região está conectada ao cinturão produtivo do Vale do São Francisco e parte da Bahia e reúne características climáticas muito diferentes do litoral capixaba. Com clima mais definido e altitude próxima de 500 metros, o ambiente favorece frutas de coloração mais alaranjada e características valorizadas pelo mercado consumidor.

A unidade mineira processa até 13 caminhões por dia e abastece principalmente o mercado interno, embora também mantenha presença nas exportações para a Europa.

Nordeste: o polo da fruta premium para exportação

No semiárido de Baraúna, localizado em Rio Grande do Norte, a AGC Nordeste representa outro capítulo dessa geografia estratégica da produção. Lá, o foco é voltado somente ao mercado internacional.

A operação trabalha exclusivamente com mamão formosa e aposta em um diferencial decisivo: o clima seco, que favorece frutas mais padronizadas, com maior teor de açúcar (brix elevado) e qualidade altamente valorizada pelos importadores. até oito caminhões processados diariamente em uma estrutura especializada em atender os rigorosos padrões do mercado externo. O grupo processa no Nordeste até oito caminhões por dia da fruta.

Engrenagem nacional da fruta

A estratégia da AGC Frutas vai além das fazendas próprias. O grupo mantém parcerias com produtores em diferentes regiões, captando frutas para abastecer seus packing houses e ampliando a capacidade operacional.

O resultado é uma engrenagem que transformou a empresa em um dos maiores processadores de mamão do mundo.

“Nos tornamos um dos maiores processadores de mamão do mundo. Um dos motivos da estratégia de estar com três frentes de trabalho é ter frutas em vários lugares, em várias regiões e em climas diferentes”, relatou o CEO da empresa.

Hoje, o grupo reúne mais de 800 colaboradores e atua em diversas frentes da cadeia logística e comercial. Além das unidades produtivas e beneficiadoras, controla operações de transporte por meio da Doce Vida, responsável pela movimentação da maior parte da fruta do grupo.

A distribuição também é nacional. A empresa mantém presença em centrais estratégicas como a Ceasa de Vitória, a Ceagesp, em São Paulo, e centros de distribuição no Rio Grande do Sul, permitindo atender praticamente todo o território brasileiro.

O desafio invisível da fruticultura

Por trás da expansão e da modernização da cadeia do mamão existe um desafio silencioso: a mão de obra. A AGC Frutas afirma viver um processo intenso de transformação e profissionalização, com investimentos em governança, com auditorias e certificações para tornar a operação mais preparada para o mercado global. Mas o principal gargalo continua sendo formar e manter trabalhadores especializados em uma atividade que ainda depende fortemente do trabalho humano.

“O grande desafio hoje é profissionalizar pessoas. Existe escassez de mão de obra, e o mamão ainda depende muito disso”, aponta Altenis Galavotti Carraretto.

A reportagem integra à série “Mamão brasileiro: produção, mercado e futuro”, apresentada pela Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Papaya (Brapex).

Valda Ravani, Redação Campo Vivo

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