O Governo Federal lançou o Programa ABC (Agricultura de Baixo Carbono), como uma novidade impar no contexto das políticas públicas para o agronegócio. Pois bem, não seria esta a agricultura que emite menos metano, monóxido de carbono e outros gases muito mais maléficos? Por que se foca somente o carbono? O carbono é a base da vida. O correto não seria agricultura de menor impacto ambiental danoso?
Esta questão é pertinente porquanto no processo de fotossíntese (sinterização de açúcares) que ocorre nas plantas, o CARBONO é de fundamental importância para o desenvolvimento e formação da biomassa vegetal. Sem ele, não teríamos alimentos, o que pode ser observado na equação abaixo:
Veja a equação da FOTOSSÍNTESE: 6CO2 +6 H20 + LUZ ===è C6H12O6.
Ora, é simples concluir que faltando o carbono, não haverá PROCESSO FOTOSSINTÉTICO e não haverá vida.
Logicamente, tudo tem limite, pois se sabe que todo veneno é remédio e todo remédio é veneno, a depender da dose. Portanto, o carbono tem sua importância sim, precisando apenas de se definir os seus limites adequados para todos os seres vivos. Neste aspecto, fundamental é nos posicionarmos quanto à necessidade de redução dos níveis de metano que é 23 (vinte e três) vezes mais poluente do que o carbono, e de outros gases que são emitidos nas mais diversas atividades agroindustriais de efeitos somente maléficos.
O GOVERNO, com seus profissionais, vem implantando a política de crédito rural para agricultura. Dentre as linhas de financiamento comtempla-se “a agricultura ABC” (AGRICULTURA DE BAIXO CARBONO). Sinceramente, constata-se uma enorme frustração ao avaliar-se a operacionalização desta linha de crédito. Por incrível que pareça, não há diferença substantiva entre os processos preconizados para a tecnologia ABC e outra que não seja da ABC: não se encontra outra linha de crédito que, por exemplo, subtraia incentivos pelo fato de não obedecer as normas de BAIXO CARBONO ou, visto de outro ângulo, concede mais incentivos pela adoção dos novos paradigmas tecnológicos da ABC.
Neste diapasão, a linha de crédito para AGRICULTURA DE BAIXO CARBONO deveria incentivar, por exemplo, o cultivo mínimo; o controle biológico de pragas; o controle genético de doenças; manejo integrado no controle de pragas e doenças; suspensão da queima; consorciação de culturas; adubação orgânica para melhorar a fertilidade do solo, etc. Absolutamente, nada disto vem ocorrendo. A política de crédito continua desprovida de análise da realidade do caso concreto, e também da assistência técnica. Perdeu-se a valorização do conhecimento técnico, estampado nos pr0ojetos de financiamento e não se privilegia a Assistência Técnica. Há agricultores que realmente praticam esta AGRICULTURA DE BAIXO CARBONO; contudo, a política de crédito para atender à ABC está genérica e sem critério algum – é mais uma forma inconseqüente de banalizar tecnologias já testadas, uma atitude grave e inconsequente para os profissionais do agronegócio e para a humanidade.
O crédito deveria ser uma ferramenta para incentivar menores índices de poluição, impulsionar processos tecnológicos sustentáveis e não praticando a malversação do uso, banalizando a ciência. Poucos agentes financeiros dispõem de equipe capacitada na área agronômica para analisar adequadamente os projetos de credito rural – há mais financistas, aqueles que trabalham bem na calculadora financeira e no computador, mas nada sabem sobre tecnologias agropecuárias, e muito menos sobre a verdadeira ABC. Não existe incentivos verdadeiros para quem pratica as tecnologias sustentáveis, tampouco para os produtores que estejam cumprindo com a regulação ambiental, dentre elas: APP, ARL, PROTEÇÃO DE NASCENTES etc. Essa conta não é só do produtor, mas é também dos Governos que historicamente patrocinou e exigiu a vasta ocupação do solo para expropriação da renda rural, via tributação, confiscos e preços administrados.
O crédito rural é um instrumento poderosíssimo para implantar tecnologias adequadas e adotar práticas associadas às ações sustentáveis. Da forma como vem sendo conduzida a ABC, sinceramente, não se progride. Ao contrário, banaliza-se a ciência e o conhecimento, tão necessários para o crescimento e o desenvolvimento sustentável dos povos e das nações.
Eng. Agr. Nelson Élio Zanotti
Especialista em cana; planejamento e meio ambiente
Eng. Agr. Wolmar Roque Loss
Ms em Economia Rural e Desenvolvimento Regional. Superintendente do Crea-ES

