por Franco Fiorot Ele é um apaixonado pela cultura do cacau. Com cinco minutos de conversa, você já percebe no semblante e nas palavras do baiano, de Juazeiro, Paulo Roberto Siqueira a sua paixão e preocupação com a cacauicultura. O entusiasmo com que fala do cacau, talvez seja devido aos seus 32 anos trabalhando no órgão responsável pela atividade, a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac). Agrônomo pela Faculdade do Médio São Francisco, hoje Universidade São Francisco, pós-graduado em irrigação e drenagem no México e com pós-doutorado em irrigação pela Universidade Hebraica de Jerusalém, Israel, Paulo Siqueira começou sua carreira trabalhando na Fundação Nacional dos Índios (Funai) no estado do Rio Grande do Sul, de 1970 a 1974. Em 1975, foi convidado para lecionar na Faculdade de Agronomia do Médio São Francisco, e no mesmo ano entrou para a equipe da Ceplac, onde está até hoje. Atualmente, Siqueira é o gerente regional do órgão no Espírito Santo, estado pelo qual foi homenageado com o Título de Cidadão Espírito-Santense, e luta com fervor para reanimar a cultura do cacau no estado. Em entrevista exclusiva para o Campo Vivo, Siqueira fala das dificuldades enfrentadas pelos produtores e pela Ceplac, da qualidade do chocolate brasileiro, da vassoura-de-bruxa, de políticas publicas para a cacauicultura e do futuro da atividade na região. CV -Quais as principais mudanças que aconteceram na forma de trabalho com os produtores de cacau do estado depois que a Ceplac virou uma gerência regional aqui no Espírito Santo, em abril de 2005? PS – Linhares era um escritório especial da Ceplac, ligado a superintendência da Bahia. Quando o Gustavo Moura assumiu a direção geral da Ceplac, ele achou melhor tornar o estado do Espírito Santo independente, ou seja, ligado administrativamente e financeiramente a Brasília. Por isso se tornou uma gerência regional. Assim, torna-se mais ágil os trabalhos aqui da região, já que antes dependíamos da Bahia. O produtor ficou mais ligado com a Ceplac? Não tenha a menor dúvida. O produtor sempre ficou muito ligado com a Ceplac, mesmo quando era escritório especial. Agora, com a gerência, fica mais fácil administrar e atender os produtores. Segundo dados do IBGE de 2005, temos aproximadamente 19.668 hectares de área plantada de cacau em Linhares, e a produção municipal chega a ser responsável por 92% da produção do estado. A estrutura da Ceplac, e de outros órgãos públicos do setor agrícola como as secretarias municipais de agricultura, é adequada para atender as necessidades dos produtores de cacau? Já foi. Hoje estamos muito deficientes. A Ceplac não contrata há mais de 30 anos. Como nós estamos institucionalizando o órgão, então nós vamos ter possibilidade de contratar os técnicos necessários para atender a demanda. Nosso quadro aqui é altamente resumido. Hoje, na Estação Experimental Filogônio Peixoto temos trabalhadores com 60 anos. Todo ano se aposenta dois ou três funcionários lá. E como é um trabalho de campo, a idade pesa. Mas estamos estruturando a Ceplac. Por isso, estamos fazendo uma parceria formidável com outras instituições, capitaneadas pelo secretário da agricultura do estado do Espírito Santo, César Colnago. A secretaria está elaborando, junto com a Associação dos Cacauicultores de Linhares (Acal), com a Ceplac, com as instituições financeiras e com a secretaria de agricultura de Linhares, um convênio para poder desenvolver uma política para a cultura do cacau no estado. Esse programa de recuperação da lavoura cacaueira que está sendo discutido pode ser uma saída para a crise que a cultura enfrenta atualmente? Já está sendo. Para ter uma idéia, já estamos com dois pesquisadores da Bahia ajudando o nosso pessoal, junto com o Instituto Capixaba de Pesquisa e Extensão Rural (Incaper), que colocou dois técnicos a disposição da Ceplac, a prefeitura de Linhares, que vai disponibilizar mais um técnico, e o Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal (Idaf), que vai destinar um fiscal para acompanhar o grupo. Nós vamos fazer um diagnóstico, vamos atualizar o mapa da cacauicultura do estado para que nós possamos solucionar os problemas. Estamos a pleno vapor. A Biofábrica (empresa baiana) vai produzir as mudas clonais e hastes resistentes e tolerantes à vassoura de bruxa para que os produtores possam adquirir um material com procedência e a custos subsidiados, através da parceria com a Acal. Hoje, temos vários fatores que estão prejudicando a cacauicultura capixaba. Nos últimos 15 anos, a produção e produtividade do cacau no Espírito Santo vêm decrescendo a uma taxa de aproximadamente 4%. O que você considera o principal problema que afetou significativamente a cultura? O Clima. O clima e o preço. Porque quando o preço está baixo, o produtor não aplica o pacote tecnológico. Se o preço sobe, aí eles aplicam mais insumos na lavoura, aumentando a produção e a produtividade. E o clima. A característica do clima em Linhares, de abril a setembro, é seco e frio. Então tem que irrigar. Cacau, em Linhares, só produz quem irriga. São esses os dois fatores que determinaram essa queda na cultura. Quando o preço chegou na casa dos R$500,00/saca, nós chegamos a produzir 14 mil toneladas aqui, mas, esse ano, devemos produzir sete mil toneladas. Essa diferença é em função do clima e do pacote tecnológico ser aplicado ou não. E a vassoura-de-bruxa… A vassoura de bruxa ainda não está causando prejuízo econômico, porque a quantidade de frutos que estão podres ainda é pouca. E as amêndoas estão sendo aproveitadas. Não estou dizendo que ela (vassoura-de-bruxa) não vá chegar às condições que chegou na Bahia. Mas naquela época na Bahia, não se tinha tecnologia e materiais genéticos resistentes à doença e os produtores não tinham recursos federais para atacar o problema. Aqui é totalmente diferente. O produtor é outro nível, a rede bancária está facilitando o crédito, com 20 anos de prazo e oito de carência, e juros de 5% a 9% ao ano. Então, nós temos todas as condições para conviver com a vassoura de bruxa. Isso não é o problema. O problema se chama seca, clima e preço. Se o mercado estivesse melhor, você acredita que seria mais fácil combater a vassoura de bruxa? Não tenho a menor dúvida. Hoje a saca de cacau está sendo vendida por R$240, 00. Com uma produtividade acima de 60 arrobas por hectare, você consegue um lucro de 20% a 30% liquido. Mas existem algumas tecnologias, como de irrigação, que permite você chegar a uma produtividade de 100 arrobas por hectare. E é esse patamar que temos que alcançar, porque a vassoura de bruxa não vai acabar nunca. Nós vamos minimizar a sua ação, aumentando a produtividade e a qualidade do cacau. Com qualidade vamos ter um preço melhor. Temos uma indústria de chocolate se instalando em Linhares e ela vai querer produto de altíssima qualidade para exportar o líquor produzido para os chocolateiros internacionais. A Ceplac tem tecnologia para produzir o cacau fino para essas indústrias. Agora, temos que capacitar o produtor. Depois de passar uma experiência negativa na Bahia, hoje a Ceplac possui tecnologia suficiente para conviver com a vassoura-de-bruxa aqui no Espírito Santo? Eu passei a fase da vassoura-de-bruxa na Bahia, em 1989, e quando eu vim pra Linhares, em 1995, eu sabia que a vassoura ia atacar. Vimos os erros que cometemos na Bahia e não estamos praticando eles aqui. A Bahia é um exemplo benéfico para o estado. Esse plano tem vários órgãos envolvidos cada um com sua função. Qual deve ser o papel do produtor nessa luta, que muitas vezes até quer renovar a lavoura e continuar no negócio, mas não consegue devido à falta de capital? O papel dele é procurar a Ceplac para que possamos diagnosticar a situação da sua fazenda, porque sem o diagnostico não podemos receitar o remédio. Olhamos a situação e encaminhamos para uma instituição financeira. Recurso não é problema. Agora, ele precisa querer. Quando o doente quer morrer ele não toma o remédio, mesmo que o remédio esteja do lado. Não é o caso dos produtores aqui. O produtor de cacau do Espírito Santo não tem só cacau. A Bahia quebrou porque só tinha cacau, mas aqui é diferente. Aqui, eles têm café, mamão, coco, seringueira, maracujá, etc, quando não são comerciantes, médicos, advogados, engenheiros. Acho que o cacau aqui é uma diversificação e não o cultivo principal. Existem agricultores no estado que só tem café, mas o cacau não é assim. Com seus 32 anos na Ceplac e toda sua experiência na cacauicultura, como você vê o futuro da atividade? Tranqüilo. A Ceplac está pensando em desenvolver os sistemas agroflorestais. O cacau está no meio da mata, que é um sistema agroflorestal. É impossível que o produtor não queira fazer esse trabalho lá dentro, porque o Idaf não vai permitir que ele (produtor) destrua essa área maravilhosa para plantar capim, cana e eucalipto. O cacau já está saindo da mata e indo para dentro do café, do mamão, do coco, da seringueira. Isso se chama sistemas agroflorestais. Não podemos ficar no monocultivo. Estamos caminhando para isso. Temos produtor que já tem quatro produtos na mesma área, com a mesma irrigação, com a mesma mão-de-obra, com a mesma estrutura. É assim que se ganha dinheiro. Agora, temos que procurar qualidade, como aconteceu com o café, com a cachaça, com o vinho. Se não procurarmos qualidade não dá. E tem mais: existe um apelo ambiental, temos que ter responsabilidade com o meio ambiente e o social. A mão-de-obra do cacau é fixa, o trabalhador tem que ter uma casa para morar, escola para os filhos, o que não acontece com outras culturas que tem mão de obra flutuante. O cacau fixa o homem no campo. E quando o produto chega no mercado europeu, eles querem saber quantas pessoas esse produto emprega, se a mão-de-obra é escrava, se o cacau é orgânico, tudo isso eles exigem. Então é isso que temos que buscar, esse produto responsável. O que interessa é a qualidade. Se for bom o preço chega. Vou dar o exemplo do Equador. Eles produziam 90 mil toneladas de cacau, caiu para 10 mil com a presença da vassoura-de-bruxa e da monilia, que é uma doença pior que a vassoura lá. Hoje, eles produzem 200 arrobas por hectare, mas eles perdem 40% da produção com o ataque dessas doenças. Com 60% eles fazem a qualidade e chegam a vender o cacau por 1.200 dólares acima do mercado, por causa da qualidade. O chocolate que nós (Brasil) produzimos é a pior porcaria que existe. É só açúcar, de cacau mesmo só tem de 5% a 10 %. O chocolate bom é aquele com no mínimo 70% de cacau. É isso que o consumidor quer. Temos que ir atrás de qualidade com esses apelos sociais e ambientais. Ainda é possível que a cacauicultura seja uma atividade rentável e os produtores sintam o sabor doce do chocolate? Sempre foi rentável o cacau, porque o cacau sempre foi um cultivo que permite extrativismo. Se você não fizer nada dentro da mata, a produtividade cai, mas os frutos estão lá, você vai e pega. A única coisa que pode acontecer é a vassoura-de-bruxa apodrecer os frutos, e aí as amêndoas ficam imprestáveis. Mas o problema é que o preço do cacau é cíclico. Se você observar durante cem anos vai perceber isso. Quando tem estoque ninguém compra, quando acaba eles começam a comprar e o preço sobe. Não somos nós que determinamos o preço. Por isso, que não podemos mais fabricar matéria prima, temos que agregar valor. Ao invés de vender a amêndoa, vamos vender a massa do cacau com a certificação e a qualidade da nossa região. Assim, a atividade vai ser bem mais rentável.
Paulo Roberto Siqueira
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