ESPECIAL – O ‘mato’ como aliado do produtor

por Portal Campo Vivo

Corredores dos cafezais limpos, como sempre desejado pelos produtores, não é prática adequada para conservação do solo; cafeicultores têm apostado, por exemplo, no cultivo de braquiária manejado tornando a produção mais sustentável

Já foi o tempo em que o mato que cresce nas lavouras era inimigo da produção. A invasão dessas plantas indesejáveis em meio às plantações já deu dor de cabeça para muitos produtores. Antes, a maioria fazia o controle com herbicidas que era aplicado várias vezes durante o ano. Mas, essa prática tem sido deixada de lado e muitos produtores tem visto o mato como um aliado da produção agrícola ao invés de vilão.

Na região norte do Espírito Santo, cafeicultores estão sendo incentivados a cultivar braquiária nos corredores dos cafezais. A planta é muito utilizada por pecuaristas como alimento para o gado e tem ajudado a tornar a produção de café cada vez mais sustentável.

A prática faz parte do programa 4C da Nestlé Nespresso, em que produtores de café precisam cumprir protocolos de qualidade para fornecer os grãos produzidos para a indústria. A ação de incentivo acontece em 25 municípios capixabas e os resultados são animadores.

Segundo o gerente de agricultura da Nestlé, Pedro Malta, além de aumentar a produtividade das plantas e promover a sustentabilidade alinhada à produção, o objetivo desse trabalho é prolongar a vida do solo e garantir que gerações futuras usufruam da mesma terra onde hoje se cultiva café. “O grande objetivo é aumentar a lucratividade da região. Se a gente tem um solo bem preservado ele se torna mais fértil e o que nós imaginamos é que, a longo prazo, a planta produza mais. A gente se preocupa com a cultura e principalmente com o solo. Se não estimularmos a perpetuação desse solo, talvez não seria possível cultivar a cafeicultura nos mesmos locais de hoje”, disse.

O cultivo de braquiárias nos cafezais começa com o plantio de sementes nos corredores. Com o tempo, a planta irá crescer até atingir o ponto certo para a poda, que deve ser feita antes da fase de floração. Toda a matéria orgânica gerada com a poda ou roçagem do mato pode ser depositada embaixo dos pés de café ou deixada nos corredores. A vegetação protege o solo tanto da radiação solar, quando da chuva. Isso evita a evaporação de água do solo e o aumento de temperatura em dias quentes, além da erosão em dias de chuva.

O produtor também pode utilizar outras espécies de mato ou aproveitar a vegetação espontânea que aparece nas lavouras. No entanto, especialistas recomendam o uso da braquiária devido a facilidade do manejo que a espécie proporciona. “As outras espécies possuem um sistema radicular mais agressivo e a vegetação espontânea pode florar e soltar sementes em diferentes épocas do ano, dificultando o controle”, disse o extensionista do Incaper, Luiz Barbosa, que também coordena o Centro Regional de Desenvolvimento Rural da região Noroeste.

O produtor Tiago Camiletti, que produz café no município de Sooretama, tem feito o cultivo da braquiária em sua propriedade há pouco mais de um ano. Ele conta que além de proteger o solo contra as altas temperaturas, a prática tem ajudado na redução de custos de produção, já que não é mais necessário aplicar herbicidas para o controle do mato na propriedade. Com isso, ele já sente diferença nas características dos grãos colhidos e beneficiados. “Antigamente quando eu usava muito produto para controlar o mato, a palha do café vivia sapecada e o grão amarelado. Hoje em dia eu não percebo muito isso. Nós estamos acostumados a viver numa anormalidade com o uso desses produtos e acabamos não percebendo que a planta está intoxicada. Quando implantamos outro manejo para o mato é que percebemos a diferença e o bem que isso faz para a planta”, relata.

Na propriedade de Tiago, que tem 6 hectares ocupados com café, 60% da área tem braquiária em meio a produção. O produtor vai ampliar o cultivo da espécie no final da colheita deste ano. Com a prática, ele pretende aumentar a quantidade de matéria orgânica do solo, de 1,5% para 3%.

O manejo adequado do mato também pode beneficiar as lavouras com o resgate de nutrientes. O sistema radicular das espécies faz com que os nutrientes que penetraram o solo e não foram absorvidos pelas plantas, retornem para as camadas superiores.

Segundo o extensionista do Incaper, Nilson Barbosa, ao cultivar o mato junto do café o produtor também evitar a presença de pragas nas lavouras, principalmente as da família da cochonilha. “O cultivo da braquiária atrai inimigos naturais de possíveis pragas que atacam o café, principalmente os insetos da família das cochonilhas, que a longo prazo provoca a queda de produção e é de difícil controle. Tendo uma segunda opção de planta para esses insetos não anula a incidência de pragas no café, mas o produtor vai sentir a diferença”, disse Nilson.

Em Linhares, na Fazenda Chapadão, onde também há produção de café, o plantio de braquiária na lavoura também foi iniciado há cerca de um ano. Luiz Queiroz, gerente da fazenda conta que a área total em que tem braquiária junto do café passa dos 70 hectares. “Nós temos áreas diferentes que estão passando por experimentos. Em alguns locais continuamos aplicando o glifosato para o controle do mato e outras não aplicamos nada, apenas a roçagem nas entrelinhas. Na área onde só fazemos a roçagem já houve melhoras e nos surpreendemos com o peso do grão colhido que foi maior que o das outras áreas”, afirma o gerente da propriedade. A Fazenda possui mais de 200 hectares ocupados por café. O cultivo da braquiária em meio a produção também deve ser ampliado a partir do término da colheita.

Matéria publicada na Revista Campo Vivo – Edição 38 – Junho/Julho/Agosto 2018

Redação Campo Vivo

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