
Tem uma pergunta que eu escuto praticamente toda semana dentro das lavouras de pimenta-do-reino: “Erasmo, o que eu aplico?”
A planta começa a amarelar, perde vigor, para de desenvolver, cai a produção ou começa a morrer. A primeira reação do produtor é querer resolver. Qual produto usar, qual aplicação fazer, o que colocar naquela planta para ela reagir.
Eu entendo essa preocupação. O problema é que, muitas vezes, a gente começa pelo final.
Quando olhamos uma planta com problema na parte aérea, estamos vendo um sintoma. A causa pode estar ali, mas também pode estar embaixo do solo e ter começado muito tempo antes.
Uma planta com pouco vigor pode estar com problema nutricional, mas também pode estar com a raiz comprometida. Uma planta amarelando pode indicar deficiência de algum nutriente. Só que não adianta colocar mais adubo se aquela raiz está em um solo compactado, encharcado ou com baixa oxigenação e não consegue trabalhar.
Na mortalidade isso acontece o tempo todo. É comum chegar a uma lavoura com plantas morrendo e a primeira conclusão já estar pronta: é Fusarium.
O Fusarium é, sim, um dos grandes problemas da cultura. Mas colocar toda mortalidade na conta dele é encerrar a investigação cedo demais.
No campo eu encontro coisas muito diferentes: drenagem ruim, excesso de água, compactação, baixa oxigenação, nematoides, desequilíbrio nutricional, muda de origem duvidosa, raiz comprometida e erro de irrigação. E raramente existe um fator só. Existe um conjunto de coisas acontecendo ao mesmo tempo.
O exemplo mais claro disso é a relação entre nematoide e fungo. O Meloidogyne abre a porta, machuca a raiz, e o Fusarium entra e leva a culpa sozinho. Quem trata só o fungo está tratando o segundo capítulo da história.
Porque quando uma planta morre, na maioria das vezes estamos vendo o último capítulo de algo que começou muito antes.
Este ano eu acompanhei uma área que estava travada. As plantas não brotavam, o desenvolvimento não vinha, e a conversa na propriedade já girava em torno de doença de solo. Quando começamos a olhar o conjunto, o padrão não fechava: o problema aparecia nas bordas dos quadros, não em reboleira. A causa era deriva de herbicida, vinda de uma falha mecânica no equipamento de pulverização. Se tivéssemos aplicado defensivo, teríamos gasto dinheiro tratando o sintoma errado, e a planta continuaria travada.
Por isso eu tenho tanta dificuldade com receita pronta.
O que funcionou na propriedade do vizinho não necessariamente vai funcionar na sua. Duas plantas podem estar visualmente muito parecidas e, quando você investiga, os problemas são completamente diferentes. Se a causa é diferente, a decisão precisa ser diferente.
Antes de decidir o que aplicar, eu faço sempre as mesmas perguntas. Onde estão as plantas afetadas: espalhadas ou concentradas? Existe padrão de baixada, de tipo de solo, de linha, de borda? Como está a raiz quando você arranca a planta? Como está o solo quando você abre o perfil? Quanto está irrigando e como essa água se distribui? De onde vieram as mudas? Como aquela área foi preparada? O que já aconteceu naquele talhão antes?
Quando essas respostas começam a se juntar, o diagnóstico aparece quase sozinho.
Hoje temos muito mais tecnologia disponível do que tínhamos alguns anos atrás. Irrigação, nutrição, biológicos, equipamentos, informação. Isso é excelente. Mas tecnologia nenhuma corrige uma decisão mal tomada.
Não adianta colocar um ótimo biológico em um ambiente onde aquele microrganismo não consegue trabalhar. Não adianta aumentar a adubação em uma planta com o sistema radicular comprometido. E não adianta colocar mais água achando que falta, quando o problema daquela área é justamente excesso.
Antes de mudar o produto, quase sempre precisamos mudar a forma de pensar.
Para mim, esse é um dos próximos passos da profissionalização da pimenta-do-reino: observar mais, entender melhor, decidir com mais segurança e voltar naquela lavoura para conferir se a decisão funcionou. Isso vale para doença, mas vale também para nutrição, irrigação, implantação de área nova, preparo de solo e produtividade.
Solo, raiz, água, nutrição, clima, sanidade e manejo estão ligados. Dificilmente conseguimos analisar a pimenta-do-reino olhando uma coisa isolada.
É por isso que eu acredito tanto em colocar a botina dentro da lavoura, arrancar planta, abrir solo, olhar raiz, conversar com quem está ali todos os dias e entender o histórico da área.
Produto é ferramenta. Tecnologia é ferramenta. Quem decide somos nós.
A planta mostra que existe um problema. Nem sempre mostra onde ele começou. Aprender a enxergar essa diferença talvez seja uma das coisas mais importantes para quem quer produzir pimenta-do-reino em alto nível.
Nos próximos artigos, quero descer para dentro desse diagnóstico: o que a raiz conta, o que o perfil do solo mostra e por que tanta lavoura boa perde produtividade sem ninguém entender o motivo.

Erasmo Fernandes
Eng° Agrônomo, produtor rural, especialista em pimenta-do-reino e pós-graduado em bioinsumos
A Campo Vivo não se responsabiliza por conceitos emitidos nos artigos

