ARTIGO – “Quo Vadis Dominus”, por Wolmar Roque Loss

por admin_ideale

Pedro, fugindo de Roma para não ser preso e crucificado, encontrou Jesus e Pedro lhe perguntou: Aonde Vai Senhor? Jesus lhe respondeu: a Roma, para ser crucificado pela segunda vez. Pedro logo entendeu o recado, voltou para Roma, deu continuidade à pregação do evangelho, foi preso e crucificado como Jesus.

Recorro à história bíblica e ao latim, usando a expressão “Dominus” para me referir a Senhor, patrão, dono, que pode ser aplicada tanto ao tratamento de Governadores (praefecti), como ao de proprietários (donos) da terra, ou produtor rural (aquele que tem o domínio da terra).

Com essa expressão latina, centralizemos a atenção ao grave problema hídrico que vivenciamos, para dizer que o que é dito, planejado e escrito por técnicos raramente é feito, no âmbito do setor publico, e pouco considerado no segmento privado. Os problemas decorrentes da seca em pleno verão, que deveria ser presumivelmente mais chuvoso, remetem-nos ao que fora produzido e planejado nas últimas quatro décadas, para ficarmos circunscritos ao período de menos cobertura florestal de florestas primárias e os esforços de redução dos efeitos das secas na agricultura, com o uso da irrigação.

De fato, o uso mais intenso e disseminado da irrigação deu-se a partir de meados da década de 70, quando também se evidenciava o esgotamento da base de recursos naturais, especialmente as florestas nativas e a fertilidade natural do solo. Desde aquela época, os estudos e pesquisas já apontavam a necessidade de decidir sobre tecnologias mais apropriadas para o estabelecimento de culturas e pastagens alienígenas em áreas declivosas, e o uso de irrigação para as culturas menos tolerantes a períodos secos prolongados, especialmente as culturas anuais como o feijão e o milho, sendo, no caso do arroz, estimulado o uso de áreas úmidas sistematizadas do PROVÁRZEAS.

A escassez transitória de água, intercalada por calamidades das intensas chuvas, e o empobrecimento contínuo do solo, levaram os profissionais da agricultura a propor diversos programas de manejo e conservação do solo, proteção de áreas degradadas, construção de barragens, reflorestamento conservacionista, uso mais eficiente da água na agricultura etc. O PRODAC – Programa de Desenvolvimento da Agricultura Capixaba, proposto e escrito no Governo Albuíno Azeredo, representou um esforço concentrado de um grupo de técnicos para dar sistematicidade e alcance a uma ação integrada que conjugava várias componentes voltadas ao que se chama hoje de boas práticas agrícolas.

Não raro, os Governos, de ontem e de hoje, fizeram ouvidos de mercador. Inclusive propusemos, à época, captar recursos externos para o Programa, mas preferiram esgotar a capacidade de endividamento do Estado com vários outros programas que atendessem à infraestrutura urbana e de transporte, desconsiderando a extrema necessidade de preservação e recuperação dos recursos naturais. Chegamos com a crise onde estamos hoje.

Também, os Planos Estratégicos Pedeag e Novo Pedeag tratavam a questão com muita propriedade, mas pouco ou nada sistematicamente foi feito. Particularmente, o Novo Pedeag propunha tanto a melhoria da infraestrutura hídrica, como a criação de incentivos creditícios para a adoção de sistema de baixo consumo de água, como a microaspersão e o gotejamento. Descontinuidades na gestão da SEAG e vinculadas comprometeram os resultados. Nem a barragem de Pinheiros está funcionando. Uma lástima, pois ela custou aos cofres públicos mais de 30 milhões de reais, a preços de hoje.

A crise gera necessidades e reafirma as oportunidades. A escassez de água não é fato raro. Seu recrudescimento faz surgir proposições que não são inovadoras. Ao contrario, simplesmente remexe-se no venho baú, para suscitar soluções já postas.  Mas será sempre melhor aprender quando não ha crise: Não custa nada ouvir mais os técnicos porque os políticos, não raro, são ofuscados pelo oportunismo e deixam de visualizar o futuro um pouco mais distante. Não vamos longe com o imediatismo. É por isso que não se tem mais estadistas, como no passado.

 

 

Artigo publicado na Revista Campo Vivo – edição 25 – Mar/Abr/Mai 2015

 

Wolmar Roque Loss

Eng. Agrônomo, Ms em Economia Rural e Desenvolvimento Econômico.

Superintendente do Crea-ES

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