Segundo dados da ANA (Agencia Nacional das Águas) de 2010, no relatório de conjuntura de recursos hídricos, 61% da água disponível para a população são hoje utilizados na agricultura. Sendo os outros 12% na indústria e 27% pelo consumo humano.
Devido à publicação desta informação de forma isolada, o uso da irrigação na produção agrícola tem sofrido sérias críticas ultimamente, sendo considerada uma das responsáveis pelo problema de escassez de água e de energia no país, imputando a esta como vilã do desperdício de água.
As críticas sobre o uso desta técnica baseadas simplesmente nos aspectos mencionados, não tomando em consideração a importância da irrigação para a produção de alimentos e, portanto, para a economia agrícola brasileira devem ser consideradas improcedentes ou irracionais.
Um dos aspectos não observados nestes números é sobre o uso consuntivo da água pelos sistemas de irrigação. Todos se lembram da celebre frase de Lavoisier que diz “ na natureza nada se perde e nada se cria, tudo se transforma” , isto quer dizer que a água que usamos hoje é a mesma que os dinossauros usaram para se refrescar no passado. Pois assim funciona o “ciclo da água”, matéria do ensino fundamental, em que os alunos aprendem que a água apenas muda de estado – sólido, líquido e gasoso-, mantendo a mesma quantidade existente no planeta terra.
Neste aspecto deve ser observado que a agricultura usa a água que passa pelo sistema de produção, uma diminuta parte é usada pelas plantas em seus processos bioquímicos e o restante retorna ao sistema em forma de água, novamente disponível para ser usada pela população. Mesmo onde se adota técnicas de fertirrigação usada de maneira racional, a água ao passar pelo solo sofre um processo de filtragem e retorna ao lençol sem qualquer contaminação.
Mas os 39% usados pela indústria e pela população retornam em sua grande maioria sobre a forma de esgotos ou contaminadas com resíduos tóxicos impossíveis de serem removidos a ponto de permitir a reutilização desta água pela população.
Estes aspectos a população precisa entender evitando assim consequências que podem advir se o radicalismo de uma única visão prevalecer, principalmente na visão dos planejadores e legisladores capixabas.
Tecnicamente podemos afirmar que dentre os recursos tecnológicos disponíveis, a técnica de irrigação, sempre que utilizada de forma racional, tanto nos aspectos técnicos quanto econômicos, pode contribuir de forma importante para o eficiente desempenho da agricultura capixaba, garantindo a produção e redução dos riscos na produção de alimentos para a população.
Por entendermos a importância da irrigação no cenário socioeconômico do agronegócio estadual, e que o seu fortalecimento pode contribuir indubitavelmente para que a agricultura participe mais efetivamente para o desenvolvimento do país, considera-se imprescindível discutir alguns elementos essenciais em defesa da irrigação e os principais benefícios originados pela sua adoção.
Neste contexto, o presente documento tem o objetivo de, a partir de informações técnicas, econômicas e sociais, apresentar um panorama real acerca do uso e da importância da irrigação para o agronegócio capixaba.
Os tópicos que discutiremos são os seguintes:
- Eficiência do uso da água pelos diferentes sistemas de irrigação;
- Adaptabilidade agronômica dos diferentes sistemas;
- Sugestões de ações para minimizar os efeitos do déficit hídrico;
a – Eficiência do uso da água pelos diferentes sistemas de irrigação:
Os diferentes sistemas de irrigação largamente utilizados atualmente pelos produtores capixabas são: aspersão convencional, aspersão via pivô central, microaspersão e gotejamento.
A avaliação técnica dos diferentes sistemas apontam os seguintes resultados:
|
Sistemas de Irrigação |
PAM (**) |
Eficiência (***) |
Consumo de água -l/s/há |
Relação (%) |
|
Aspersão Convencional |
100% |
77.00% |
1.92 |
100.00% |
|
Pivô Central com Pendural |
100% |
91.46% |
1.75 |
91.15% |
|
Micoraspersão |
100% |
89.00% |
1.45 |
75.52% |
|
Gotejamento (*) |
65% |
95.00% |
0.99 |
51.56% |
(*) PAM medida em lavoura de café de 05 anos;
(**) Porcentagem de área molhada;
|
(***) Referencias de Eficiência: |
Autores |
|
Aspersão Convencional |
SALASSIER, MANTOVANI., 2006 |
|
Pivô Central com Pendural |
ZOCOLER et all.,2012 |
|
Micoraspersão |
NETAFIM |
|
Gotejamento |
NETAFIM |
b – Adaptabilidade agronômica dos diferentes sistemas:
Alem da eficiência do uso da água devemos analisar a adaptação do sistema de irrigação às necessidades de cultura, aos investimentos necessários para sua implantação.
Apresentamos abaixo em forma de tópicos todas as considerações agronômicas a serem observadas na seleção do sistema de irrigação a ser adotado:
– Culturas como feijão, milho, hortaliças, pastagens, entre outras de uma maneira geral cuja quantidade de plantas / há é bastante elevada (acima de 35.000 plantas) não apresentam viabilidade econômica de serem irrigadas via gotejamento e tem o uso da microaspersão inviabilizado pelo efeito guarda chuva que a presença das plantas exerce no campo;
– O uso de cultura intercalar (milho, feijão, curcubitaceas, mandioca e etc..) em consorcio com lavouras perenes no período de formação da lavoura, pratica muito comum entre agricultores de nosso estado, é inviabilizado pelo uso de irrigação localizada;
– O plantio de banana, que tem em seu perfilhamento a continuidade da lavoura, requer o uso de irrigação com PAM – Porcentagem de área molhada igual a 100%;
– O sistema de irrigação do tipo Pivô Central pode ser intercambiado em ate 03 áreas de mesmas características com investimentos em apenas 01 (um) equipamento de irrigação e bombeamento.
– Custos médios de investimentos necessários para implantação dos diferentes sistemas de irrigação:
– Aspersão convencional – de R$ 2.570,00 a R$ 4.500,00/há
– Pivô Central – de R$ 4.500,00 a R$ 6.000,00/há
– Microaspersão – de R$ 6.500,00 a R$ 8.000,00/há
– Gotejamento – de R$ 7.000,00 a 8.000,00/há
c – Sugestões de ações para minimizar os efeitos do déficit hídrico:
Considerando a importância fundamental da água para a sobrevivência da raça humana, algumas medidas precisam ser adotadas pelo poder publico estadual e municipal, sindicatos de produtores e empresas voltadas para o setor de irrigação, tais como:
– Implementar maior oferta de infraestrutura hídrica, tais como armazenamento e redistribuição dos recursos hídricos.
– Elaboração de um cadastro de todos os sistemas de irrigação no estado. Este cadastramento seria efetuadas por micro bacias hidrográficas e seria levantado as seguintes informações:
Sistema de irrigação utilizado;
Cultura: (se perene, que idade);
Área irrigada;
Conjunto motobomba- modelo,marca, vazão e potencia do motor elétrico;
Coordenadas UTM do ponto de captação
Outorgado ou não;
– Elaboração de um cadastro de barragens existentes nos córregos/rios levantados. As informações a serem levantadas já constam no trabalho de cadastramento que o IDAF/AGERH já esta realizando em todos os barramentos existentes no estado.
– Treinamentos de usuários, técnicos elaboradores de projetos e responsáveis pela fiscalização, onde sugerimos alguns temas:
– técnicas de manejo de irrigação;
– calculo dos coeficientes de uniformidade dos projetos;
– técnicas de elaboração de projetos;
– manejo do sistema de irrigação visando evitar o entupimento de gotejadores
– elaboração de balanço hídrico, e muitos outros que com certeza surgirão.
Geraldo Fereguetti, engenheiro agrônomo e presidente da SEEA – Sociedade Espiritosantense de Engenheiros Agrônomos

