Consideremos uma pessoa que quer investir numa propriedade para produzir 500 litros de leite por dia (182.500 l/ano), com uma produtividade de 10.000 l/ha/ano e 500 litros/funcionário/dia, 17 l/dia vaca em lactação e 80% do rebanho produzindo.
Nessas condições só pode ter pode ter um funcionário, que terá que ser ele mesmo em função de folgas, férias e horas extras previstas na legislação trabalhista.
Ele vai precisar de 18,25 ha uteis, o que considerando 20% para o conjunto APP e reserva legal, representa uma área total de 22,81 há.
Considerando a compra da terra, compra do gado, benfeitorias, máquinas e equipamentos, ele vai investir algo da ordem de R$ 700.000,00 no empreendimento. Considerando uma remuneração do investimento de 0.3% ao mês, ele precisaria receber R$ 2.100,00/mês ou R$ R$ 25.200,00/ ano.
Suponhamos que ele se contente em receber pelo seu trabalho na propriedade R$ 1.200,00/mês ( sem encargos , sem 13º e sem hora extra, pois é ele mesmo que trabalha ), o que representa R$ 14.400/ano.
Dessa forma essa pessoa deveria receber como empresário e trabalhador um mínimo de R$ 39.600/ano, que para a produção de 182.500 litros/ano representa R$ 0,2170/litro.
Se o seu custo de produção, excluída a mão de obra, for de R$ 0,8600 /litro, o que me parece que será bastante difícil, para produzir um leite de qualidade e de forma sustentável ele terá que receber pelo menos R$ 1,077/litro.
Vejamos o que está acontecendo na NZ, onde no último leilão GDT o preço do leite em pó integral despencou para US$ 2.446,00/tonelada (FOB) , o que representa, considerando para a NZ um equivalente de 8.200 l/t, US$ 0,2983/litro (FOB). Esse preço não é sustentável na NZ, sendo que muitas fazendas leiteiras e outras estão mandando vacas para o gancho para virar hambúrguer nos USA para poder sobreviver.
Se considerarmos os leilões GDt realizados de agosto de 2011 a abril de 2014, vemos que os preços do leite em pó integral variaram entre US$ 2.250,00/t (FOB ) a US$ 5.500,00/t ( FOB ), caracterizando uma média de US$ 3.875,00/t (FOB), que representa um equivalente de US$ 0,4726/litro (FOB). Para um câmbio de R$ 3,20/US$ isso representa R$ 1,512/l (FOB) e mesmo que o câmbio despenque para R$ 2,40/US$ ( o que é muito improvável ), representa R$ 1,1342/l ( FOB ).
Como esses preços são FOB, mesmo que trazer esse leite para o Brasil sem qualquer custo adicional, ele não chegará a menos de R$ 1,13/l, sem contar que a que estaria disponível para ser importado para o mercado brasileiro é limitado e não permite atender as necessidades do mercado interno.
Essas considerações me levam a crer que o preço pago pela indústria para o produtor brasileiro em 2015 deveria ficar em torno de R$ 1,10/l, um pouco mais baixo no primeiro semestre e um pouco mais alto no segundo semestre.
Um preço médio menor só é razoável se a demanda por leite e lácteos no mercado interno cair muito, e nesse caso, considerando o preço alto da carne, muita vaca de leite irá para o gancho para que os produtores possam sobreviver e implicando em uma perspectiva de preços muito elevados para 2016.
Marcello de Moura Campos Filho

