Entre julho de 1929 e junho de 1930, notícias de jornais da época chamam a atenção pelas referências sobre a qualidade de xícara do café Conilon, que se tornou, mais de seis décadas depois, a principal atividade agrícola do Espírito Santo.
Em julho de 1929, o Jornal O Malho, de São Paulo, registrou que “quem se habituou ao seu uso, não suporta os demais. Este café exportado para a Europa para consumidores escolhidos, entre os quais algumas casas imperiais“. Essa matéria afirmava que “se a produção fosse grande, e se pudesse criar um tipo especial para o Conilon, como extra ou finíssimo, teria um melhor acolhimento, pois seu sabor é delicado, excelente”.
Alguns meses depois, em novembro, o Jornal Diário da Manhã, de Vitória, noticiou a inauguração da Casa Modelo, um posto de degustação de cafés, em nossa capital, controlado pelo Governo, e com o objetivo de testar e difundir a qualidade dos nossos cafés, incluindo-se aí o Conilon.
O mesmo Diário da Manhã, em 7 de junho de 1930, veiculou matéria sobre a grande aceitação do café Conilon pelo público de Vitória, que se tornou bebida popular na Casa Modelo. Por isso, o Serviço do Café do Estado do Espírito Santo resolveu equipar o Conilon, a partir de 15 de junho de 1930, aos cafés finos, para efeito de isenção da retenção na Praça de Vitória, uma política pública da época. Esse foi o primeiro ato oficial de reconhecimento da qualidade do café Conilon que se tem notícia.
Poucos dias após, ainda em junho de 1930, o mesmo jornal divulgou a realização de um curso sobre produção de café, que abordou sobre manejo e qualidade, cujo público era formado por imigrantes poloneses, que ficaram interessados com o cultivo do Conilon, ocasião que receberam inclusive até cartilhas dos instrutores.
Não por coincidência, observemos que bem mais tarde, no fim da década de 1960, foi um descendente polonês, Eduardo Glazar, então prefeito de São Gabriel, que criou um programa de fomento ao cultivo de café Conilon, numa reação à política da erradicação dos cafezais, que deixou muitas regiões do nosso Estado na miséria, tamanha era a dependência econômica e social da cafeicultura, naquele momento.
Hoje são vários concursos municipais de qualidade do Conilon, dois regionais e um estadual. O último realizado em 2014 teve cerca de 400 amostras inscritas nas categorias natural e cereja descascado. Grande parte das amostras atingiu pontuação acima 80 pontos, escala que coloca o nosso Conilon, no grupo dos cafés finos, como preconizavam as fontes do Jornal O Malho, lá em 1929.
O arranjo produtivo do café Conilon no Espírito Santo já está presente 63 municípios, envolve 250 mil pessoas no setor rural, além de ser responsável por 30% do Valor Bruto da Produção Agropecuária. Contudo, mais do que a quantidade, será esse caminho sem volta da qualidade que vai garantir renda e mercado para as mais de 40 mil propriedades cafeeiras do Espirito Santo, que produzem 3 a cada 4 sacas colhidas em nosso país. Um brinde ao Conilon capixaba, o Robusta de Qualidade!
Artigo publicado na Revista Campo Vivo – edição 24 – Dez 2014/Jan/Fev 2015
por Enio Bergoli, ex-Secretário de Agricultura do Estado e Engenheiro Agrônomo do Incaper

