Espírito Santo x Itália: forte laço cooperativista

por admin_ideale

Consolidado e desenvolvido há mais tempo no continente europeu, o movimento cooperativista nasceu a partir das ideias formuladas pelos precursores dos princípios cooperativistas. A primeira cooperativa foi organizada na Inglaterra em 1844, na localidade de Rochdale, inicialmente, por um grupo de  apenas 28 trabalhadores braçais, quase todos do ramo têxtil, com recursos muito escassos. Começava ali uma das mais extraordinárias experiências de cooperação e solidariedade registrada na História.

Nas décadas seguintes, o trabalho em conjunto através de sistemas cooperativistas foi ganhando força e expandindo-se mundo afora.  No Estado do Espírito Santo, as primeiras Cooperativas nasceram no meio rural entre 1930 e 1940. Entre 1950 e 1958 foram criadas duas cooperativas de consumo e algumas cooperativas agrárias. A partir da década de 60 a criação de cooperativas foi impulsionada e entre as principais condições que contribuíram para a evolução das cooperativas, principalmente no meio rural, a imigração europeia (alemães e italianos). Os imigrantes trouxeram para o Espírito Santo uma forte herança cultural dos seus países de origem.

Na cidade de BagnaCavalo, na região da Emgilia Romagna, o produtor Maurizio possui uma propriedade rural com 70 hectares sendo que em 28 ele cultiva kiwi, pera, pêssego e maçã, frutas tradicionais da agricultura italiana. Essa região é uma das pioneiras nos com produção integrada, iniciados há mais de 35 anos na Alemanha, Suíça e posteriormente na Itália. Na região da Emiglia Romagna, atualmente, cerca de 95% da produção de frutas e hortaliças é integrada, com rastreabilidade, sendo referência mundial nesse quesito.

Caminhando pelas lavouras, o produtor mostra alguns problemas de doenças que estão afetando a produção de kiwi e também um sistema de monitoramento que conseguem saber o momento ideal de colheita de maçã. Em poucos minutos de conversa é possível observar a relação entre o produtor e a cooperativa local. Domenico é técnico da Cooperativa Agrintensa e acompanha a produção de Maurizio. “Tem alguns frutos que estão prontos para colheita”, observa o técnico que é prontamente respondido. “Só estou esperando vocês falarem que está na hora”, diz o produtor. A confiança nos técnicos das cooperativas é muito comum na região italiana com os produtores seguindo as recomendações. Toda produção de Maurizio é comercializada para a cooperativa.

Domenico e Maurizio: sintonia entre técnico e produtor para resultados positivos no campo

 

A Agrintensa surgiu de várias outras cooperativas e hoje é uma das principais da Europa com cinco unidades na região e cerca de 5.000 associados entre produtores de frutas e de uvas para fabricação de vinhos. De toda produção, 55% vai para o mercado externo e 45% fica na Itália para o consumo interno. “Exportamos maça para o Brasil e para Argentina”, diz Elisa Emiliani, gestora de qualidade da cooperativa. Para dar suporte aos produtores cooperados, a Agrintensa possui 45 agrônomos com especializações nas culturas agrícolas mais trabalhadas na região e produtor segue o planejamento que é construído pelos profissionais em parceria com os próprios produtores. “Diferente do Brasil, o agricultor aqui na Itália quando recebe a visita de um vendedor de insumos pede para ele esperar o técnico da cooperativa chegar para discutirem juntos a melhor solução para sua necessidade. Há uma cultura dos agricultores locais seguirem as recomendações dos técnicos. Não fazem nada se não for recomendado” diz o agrônomo e professor de Universidade de Bologna, Gianni Bertone.

 

Elisa (esquerda), da Agrintensa, coordena a qualidade dos produtos que chegam do campo; e Professor Gianni (direita), coordena trabalhos de produção integrada na universidade

 

Na Itália, assim como em toda União Europeia, a fiscalização em relação aos resíduos químicos nos alimentos é intensa. Segundo Gianni, todo produtor deve realizar uma análise anual de seus produtos para poder comercializar. Os próprios produtores já realizam e entregam à fiscalização federal.  Muitas vezes, os compradores também fazem outra análise para verificar tais índices. Na Agrintensa, além do acompanhamento no campo, são realizadas 1.200 análises por ano para conferir todos resíduos no produto que vem do campo.

Pátio da cooperativa Agrintensa: diariamente chegam frutas que passam por cerca de 1.200 análises por ano para conferir o nível de resíduos

 

Na cidade de Bologna encontra-se a plataforma de distribuição de hortifruti do Consorcio Agribologna, uma cooperativa com 16 anos de atuação e com 450 associados aproximadamente em quatro regiões da Itália. A entidade entrega a produção para locais que abastecem restaurantes e empresas que abastecem escolas e hospitais. A lealdade dos produtores com essa cooperativa reforça a relação existente no país do sistema cooperativista.

Segundo o diretor Lauro Guidi, 100% da produção dos agricultores associados são comercializadas para a cooperativa, caso contrário não participa. A preferência da cooperativa é no trabalho de parceria com pequenos produtores, mas também compra de médios e grandes. A área média dos produtores associados é de oito hectares, um pouco acima da média nacional que é de seis hectares. “Não tem limite de compra de produção por produtor, mas temos uma programação da safra”, diz.


Com média de seis hectares, as propriedades rurais italianas são referências no cultivo de frutas temperadas e hortaliças

 

Na Agribologna, para ser cooperado, o produtor rural precisa pagar uma ‘luva’ de 250 euros (cerca de R$ 750,00) e 0,33% do valor da sua produção comercializada fica com a cooperativa. Além do maior poder de negociação na venda do produto elevando o preço para o produtor, a cooperativa também presta assistência técnica com engenheiros agrônomos, realiza compra coletiva de insumos diminuindo o custo, entre outras ações.  Segundo Guidi, o modelo cooperativista é uma antiga tradição na Itália e essa força da cultura regional está ligada diretamente também a capacidade de funcionamento de uma cooperativa. “Precisamos trazer confiança para o cooperado e sempre buscar novidades e renda para ele. Se conseguirmos os resultados esperados teremos sempre uma entidade forte”, afirma o diretor.

Outro fator que valoriza o sistema cooperativista e incentiva o agricultor italiano é a disponibilidade de recursos governamentais para investimento na produção rural. Na Itália, os produtores utilizam recursos da União Europeia desde que sejam membros de cooperativas. Quando o agricultor quer fazer um investimento, 40% do recurso vêm da Comunidade Europeia e 60% de recursos próprios ou financiamentos. Com um projeto consistente há verba do governo. Geralmente, os financiamentos em bancos possuem taxas de 2,5% a 4% ao ano podendo chegar até 8% de acordo com as análises das instituições bancárias. As cooperativas também apoiam os associados com financiamentos com taxas de 1% ano.

A experiência e a trajetória do cooperativismo italiano chegaram ao Estado do Espírito Santo trazidas pelos imigrantes que vieram desbravar as terras capixabas. O estado é o resultado de mistura de raças, principalmente de imigrantes de lugares da Europa como Alemanha e Itália, que estão presentes com mais força na cultura de municípios como Santa Maria de Jetibá, Santa Teresa, Santa Leopoldina, Domingos Martins, Marechal Floriano, Venda Nova do Imigrante, Castelo, Iconha, Alfredo Chaves, além de municípios do norte do estado. 

A cultura europeia está enraizada no povo capixaba e influenciou na culinária, dança, arquitetura e muitos outros aspectos, inclusive na agricultura e no cooperativismo. “Predominantemente do meio rural, a doutrina cooperativista baseada na cultura do trabalho associativo e a experiência de atividades familiares comunitárias motivaram a população do Espírito Santo organizar-se em cooperativas”, diz o  presidente da Organização das Cooperativas do Brasil / Espírito Santo (OCB/ES), Estherio Colnago

 

Presidente da OCB/ES destaca influência da imigração europeia no cooperativismo do Espírito Santo

 

No município de Santa Maria de Jetibá, por exemplo, na Cooperativa Agropecuaria Centro Serrana (Coopeavi), a maioria de seus cooperados é de origem pomerana e muitos deles falam a língua até hoje, o que leva a cooperativa a possuir profissionais treinados para se comunicar bem com os associados. A Escola Cooperação, também no município, carrega a cultura alemã em sua essência, assim como a Coopeavi. 

Segundo Estherio Colnago, outro local onde a cultura europeia está muito presente é em Venda Nova do Imigrante, dessa vez com o povo vindo da Itália. Em diversas festas e reuniões promovidas pelas cooperativas locais, há comida típica e danças que não deixam a história morrer. “Mas é essa cultura do trabalho em conjunto, da divisão de tarefas bem elaborada e da cooperação entre os membros, o que aparece mais forte no cooperativismo, não só capixaba, como do Brasil. Acredito que no Espírito Santo, a aceitação do cooperativismo, assim como em alguns locais do sul do país, é maior, por termos um povo que ainda vive fortemente as influências de seus imigrantes. Estamos um passo à frente de outros locais do Brasil no que diz respeito ao cooperativismo”, afirma o presidente da OCB/ES.

 

 

Redação Campo Vivo

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