Volta e meia a mídia bate na tecla da escassez de engenheiros, fazendo coro ao pensamento das lideranças nacionais da indústria, do agronegócio e da infraestrutura, alardeando, inclusive, um apagão generalizado de mão de obra em todas as modalidades da engenharia.
O confronto entre salários e demanda de profissionais de engenharia não confirma o desequilíbrio, especialmente porque, no setor público e em vários segmentos do setor privado, os salários são muito inferiores, sobretudo em alguns municípios, chegando a ser indecorosos em determinados casos. A Presidência do Crea-ES, inclusive, vem realizando uma intensa mobilização junto aos órgãos públicos em defesa do cumprimento do Salário Mínimo Profissional. Reconhece-se, inclusive, a necessidade de um período de transição nos municípios, com ajuste gradual até alcançar o Mínimo Profissional, em vista da deterioração das finanças públicas que se estabeleceu com o fim do FUNDAP, e pelas ameaças que pairam com a nova legislação dos royalties do petróleo e com a reforma tributária.
Uma rápida busca às informações sobre salários dos profissionais da engenharia mostra que a remuneração dos executivos engenheiros teve crescimento substantivo nesses últimos anos, situando-se acima de R$20.000,00 (vinte mil reais), porém os profissionais em início de carreira (cerca de R$2.000,00), ou na posição mediana (entre R$6.000,00 e R$8.000,00), não obtiveram reajustes salariais significativos.
Certamente, numa conjuntura de desequilíbrios localizados, como nas áreas de engenharia de petróleo, engenharia naval, tecnologia da informação, infraestrutura e logística, ocorrem dois efeitos que se acumulam: os poucos engenheiros com experiência nessas áreas são galgados a cargos executivos, com salários muito atrativos, e não se verifica quadros de reposição, para cobrir os promovidos. Para esses setores, inclusive, observada a legislação de migração de profissionais, o Confea e os Creas são favoráveis ao ingresso de profissionais do exterior, com reservas quanto à necessidade de justificação, a ser apresentada pela empresa contratante.
De outro lado, as recentes inflexões na curva do crescimento do PIB e no nível de emprego industrial, em especial, não corroboram a decantada escassez de profissionais da engenharia, para todas as modalidades.
Ainda tem-se que considerar o hiato que naturalmente existe entre os anúncios dos investimentos em infraestrutura, feitos pelo Governo Federal, a maioria deles contando com recursos privados, e a possibilidade de sua realização, uma vez que os empresários visam retornos econômicos e qualquer fato que eleve riscos ou deprima retornos, tendem a recuar.
Há também o grave problema do engessamento da grade curricular dos cursos de engenharia e a acentuada proliferação de modalidades na profissão, o que revela, no mínimo, a sua fragmentação. No Brasil, são mais de 300 títulos de engenharia, contra não mais que 60 na maioria dos países desenvolvidos. Estamos fazendo um milagre que é uma farsa: criando sempre mais cursos de engenharia, com uma grade curricular engessada. Isto significa fragilidade na formação específica e superposição de atribuições, destoando do foco objetivo e cartesiano que historicamente marcou a formação acadêmica dos profissionais desta área.
Por tudo isso, não é possível afirmar que ocorre grave crise no mercado, provocada pela escassez de engenheiros. No máximo, em alguns casos, particularmente pela pulverização das engenharias, vem ocorrendo inadequações entre a necessidade do mercado e o conteúdo das disciplinas cursadas, pela farsa do milagre.
Não bastassem os desafios que se nos apresentam, o Governo Federal está propondo a construção de uma legislação específica à remuneração de profissionais da área tecnológica, segregando os que trabalham no setor público daqueles da iniciativa privada. O apartheid estará estabelecido, com salários diferenciados: de um lado, os profissionais do setor privado, lutando, no dia a dia, para que seus salários reflitam sua contribuição à empresa e à sociedade, como promotores do desenvolvimento; de outro, os renegados do setor público ganhando pouco, indignados com os governos e desmotivados profissionalmente. Será mais um gargalo ao desenvolvimento mais dinâmico e mais bem equilibrado do País.
Ressalte-se, ainda, que a criação de vários cursos públicos de engenharia, anunciados pelo Governo do Estado, deve ser vista com reservas. Primeiro, porque não há infraestrutura (prédios, laboratórios, equipamentos etc.) para tanto, e muito menos disponibilização de quadro de professores qualificados para isso (com especialização em nível de mestrado e/ou doutorado e conhecimentos consolidados em pedagogia). Até mesmo os cursos técnicos oferecidos pelo Estado carecem de mais investimentos e de professores com experiência no âmbito das tecnologias aplicáveis. Essa iniciativa, numa análise mais aprofundada, poderá trazer mais dificuldades ao reconhecido imbróglio da pulverização de cursos, e de títulos e mais títulos de engenheiros, que nada acrescenta à matriz de conhecimentos, à pesquisa e inovação, e ao desenvolvimento capixaba. Mais prudente será continuar com a oferta de bolsas para custear a sobrevivência dos estudantes pobres, para terem condições de frequentar os cursos técnicos e superiores e numa outra linha, subvencionar os estudantes carentes, com concessão de bolsas de estudos para bancar as prestações das Instituições particulares de ensino.
Helder Paulo Carnielli
Presidente do Crea-ES
Wolmar Roque Loss
Superintendente do Crea-ES

