No início dos anos 90, uma praga desconhecida deixou um rastro de devastação nas lavouras de cacau cultivadas na Bahia. A praga, que posteriormente foi batizada de vassoura de bruxa, causou perdas imensas aos produtores do estado. Como resultado, a produção cacaueira do Brasil, que respondia por cerca de 15% da mundial, foi reduzida a míseros 4% e até hoje não se recuperou, tamanho prejuízo causado pela doença. Para se ter uma ideia, a produção que em 1989 foi de 390 mil toneladas, no ano 2000 não passou de 123 mil toneladas.
Pragas como essa rondam as lavouras brasileiras, vindas de diversas partes do mundo. Algumas, como a Helicoverpa armigera, que vem tirando o sono dos produtores do sudoeste baiano, Goiás, Mato Grosso e do Paraná, nem se sabe ao certo como chegaram aqui. Atentos a essa ameaça constante, a Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef) e a Sociedade Brasileira de Defesa Agropecuária (SBDA), em parceria com pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), desenvolveram um estudo que aponta quais são as 150 pragas e doenças que podem atingir as lavouras brasileiras nos próximos anos. Entre elas, dez oferecem maior risco por estarem em áreas próximas ou em países com importantes relações comerciais com o Brasil.
“Esse estudo deixa claro quais são os desafios que o Brasil tem para evitar que essas ameaças se concretizem. Precisamos reduzir a burocracia na aprovação de novos agroquímicos e melhorar a fiscalização das nossas fronteiras”, explica Eduardo Daher, presidente da Andef.
Entre as dez mais ameaçadoras, Daher destaca a Striga, uma planta daninha que chega silenciosa e se instala junto à raiz de vários tipos de outras plantas. “Ela mata literalmente pela raiz, sugando todos os nutrientes de que a planta precisa para se desenvolver. É perigosa porque não é visível como a ferrugem, que você identifica as manchas nas folhas”, explica o executivo.
Para se ter uma ideia dos prejuízos que tais doenças causam nas lavouras, em duas safras, a Helicoverpa já causou danos de R$ 2 bilhões à agricultura brasileira. “A ferrugem da soja, que chegou ao Brasil em 2003, já causou prejuízos da ordem de R$ 25 bilhões ao agronegócio”, ressalta Daher.
Fronteiras
Um dos principais veículos para a expansão desse tipo de praga no mundo é o ser humano. Por isso, Daher chama a atenção para os cuidados que o Brasil precisa ter com suas fronteiras, especialmente durante eventos internacionais, como foi o caso da Copa das Confederações, da Jornada Mundial da Juventude e, no próximo ano, com a Copa do Mundo. “Às vezes as pessoas trazem vírus e bactérias na sola do sapato, dependendo do local por onde passam antes de viajar”, explica.
Para Regina Sugayama, consultora da Agropec e uma das pesquisadoras que participam do trabalho, não há como blindar o Brasil da entrada de pragas, pois toda fronteira tem suas falhas. O problema, segundo ela, é que “a vigilância brasileira está focada nos portos e aeroportos que historicamente têm mais entrada de material agropecuário. Mas no Norte do Brasil, a situação é de insuficiência, com poucos postos de vigilância, poucos fiscais”, alerta.
Assim, Daher considera fundamental o reforço da comunicação com o público urbano, sobre os cuidados que devem ser tomados, inclusive com os itens da bagagem durante viagens nacionais e internacionais. “Trazer alimentos não industrializados ou amostras de plantas e sementes do exterior, por exemplo, é proibido, mas muita gente não sabe disso”, explica. Ele afirma ainda que boa parte dessas pragas são trazidas sobretudo pela América Central, em movimentos terrestres. “E para piorar, não temos controle da fronteira seca do País; as doenças entram pelo sapato e pelo vento”, diz.
Ela explica ainda que, em um recente levantamento feito pelos pesquisadores que participam do estudo foi constatado que, nos últimos 20 anos, ao menos 20 pragas exóticas foram detectadas no Brasil. “É um a por ano. Será que a gente vai dar conta de oferecer tecnologia para lidar com tantos problemas emergentes?”, questiona.
Novas tecnologias
Regina revela que sua maior preocupação é pensar em um futuro onde mais pragas terão entrado no País, enquanto o sistema nacional de registro de tecnologias para o controle das mesmas não avança na mesma velocidade. “Muitas moléculas têm tido seu uso banido ou estão em processo de reavaliação. Ou seja, teremos mais pragas e menos tecnologia. O tempo para desenvolver e registrar uma tecnologia é muito mais longo do que a velocidade com que as pragas têm entrado”, explica.
Atualmente, um defensivo para ser aprovado no Brasil precisa obter laudos e aprovações junto ao Ibama, Anvisa e ao Ministério da Agricultura, o que pode levar anos. “Não é possível esperar de quatro a cinco anos para que uma nova molécula seja aprovada para ser comercializada no Brasil, quando muitas vezes ela já usada em larga escala em outros países. A praga não espera”, critica.
Diante desse cenário desafiador, o Ministério da Agricultura (Mapa) vem se reunindo com as principais entidades do setor para discutir o assunto e estudar a criação de um centro estratégico de política fitossanitária. O levantamento sobre as pragas que ameaçam o Brasil, inclusive, tiveram início com iniciativa do Dr. Odilson Ribeiro, então diretor do departamento de Sanidade Vegetal do Mapa. Mas, para Daher, o governo precisa também desburocratizar a aprovação de novas moléculas e produtos para o mercado.
Segundo ele, o Brasil costuma reagir ao problema e não buscar maneiras de preveni-lo, o que acaba complicando o quadro. “É muito mais barato e inteligente prevenir um problema dessa magnitude do que combater quando ele já estiver se alastrando e causando prejuízos”, pondera.

