Antes
considerada um luxo, a irrigação artificial cobre área cada vez maior na
agricultura brasileira, incluindo lavouras destinadas à produção de grãos. As
mudanças climáticas – que ampliam as incertezas em relação ao tempo – e a alta
nos preços das commodities ajudam a ampliar os investimentos dos produtores
rurais em redes capazes de molhar terreno equivalente a 200 campos de futebol.
Os números da Agência Nacional de Águas (ANA), responsável pela outorga do uso
da água de rios interestaduais, registram essa expansão. De acordo com o último
levantamento, realizado em 2010, 5,4 milhões de hectares são irrigados no país.
Essa área é 23% maior que a aferida em 2006 (4,4 milhões de hectares). Desse
total, 2,6 milhões de hectares são usados na produção de grãos, principalmente
arroz (1,13 milhão), soja (624 mil), milho (559 mil), feijão (315 mil) e trigo
(58 mil).
“Os pedidos [para uso de irrigação] têm aumentado bastante. Por conta das
mudanças climáticas, os produtores estão conscientes de que se não irrigarem
não vão produzir tanto quanto gostariam”, ressalta Demetrios Christofidis,
coordenador de Infraestrutura rural, logística da produção e agropecuária
irrigada do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).
Potencial
Apesar do crescimento significativo dos últimos anos, o país está longe de
atingir a sua capacidade de área irrigada. A ANA projeta que o sistema de uso
de água de rios tem potencial para ocupar 30 milhões de hectares.
“A
média de áreas irrigadas no Brasil cresce entre 120 e 200 mil hectares/ano. O
ideal é que a taxa fosse o dobro para aumentar a oferta de alimentos sem
precisar ocupar outras regiões”, diz Antônio Felix Domingues, coordenador de articulação
e comunicação da ANA. “Neste ritmo, o Brasil terá 15 milhões de hectares
irrigados em 2035. Temos potencial para crescer mais rápido”, projeta
Christofidis.
Expansão
Nas principais culturas, as áreas irrigadas são pequenas. No caso da soja, fica
2,3% e no milho, 7,1%. Nessas áreas, no entanto, a produtividade ultrapassa em
até 50% as médias regionais. Produtores baianos como Ricardo Basso alcançam até
80 sacas de soja por hectare. Ele planta soja irrigada neste ano pela primeira
vez, depois de ter alcançado R$ 81 por saca em média em 2011/12.
“Via
de regra, a produção de grãos no Brasil não é sob irrigação. O pessoal opta por
utilizar o sistema em culturas de alto risco como frutos, verduras, legumes e
flores. Nestes casos, 99% da produção é irrigada”, relata Domingues,
coordenador na ANA . Segundo dados da Agência Nacional de Aguas, a
cana-de-açúcar e o arroz são os principais cultivos que utilizam o sistema com
3,8 milhões e 1,2 milhões de hectares, respectivamente.
“Se
houver incentivo, é possível dar um impulso de ordem de grandeza semelhante a
quanto a irrigação melhora o rendimento”, diz Christofidis, executivo do
Ministério da Agricultura. Com o sistema, é possível elevar a produtividade em
até três vezes.
Burocracia impede
novas instalações
O
tamanho da área irrigada no Brasil poderia ser ainda maior se os tramites para
obtenção da liberação não fossem tão burocráticos. O Ministério da Agricultura
(Mapa) reconhece que o processo de outorga atrasa os projetos de muitos
agricultores.
“O procedimento de outorga é recente – consta na Constituição Federal de 1988,
mas só virou lei federal em 1997. Ainda temos muitos gargalos, inclusive a
falta de pessoal especializado para analisar os pedidos de licença”, diz
Demetrios Christofidis, coordenador de infraestrutura rural do Mapa. “Estamos
formando grupo de trabalho conjunto com a Agência Nacional de Águas (ANA) para
apresentar alternativas”, complementa.
O
produtor Paulo Ambiel sente na própria lavoura os efeitos da burocracia e da
falta de infraestrutura para começar a irrigação. Com uma área de 1,3 mil
hectares em Brianorte, distrito de Nova Maringá, no Centro-Norte de Mato
Grosso, ele vê os R$ 950 mil investidos na aquisição de um pivô ficarem
imobilizados no campo.
A
estrutura está pronta para funcionar desde junho do ano passado, mas a demora
na liberação da licença ambiental e a falta de carga na rede elétrica impedem
seu funcionamento. “Se estivesse em uso, poderia ter pago a estrutura nesta
safra, graças aos preços bons das commodities”, lamenta.
Gazeta do Povo Online
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