ARTIGO – Bolsa Floresta

por admin_ideale

“Fazer a floresta
valer mais em pé do que derrubada” – o lema move a Bolsa Floresta, uma
pioneira experiência de desenvolvimento sustentável no Amazonas. Nela se mostra
que a conservação ambiental deve servir às pessoas, ajudando, e não
atrapalhando, a promoção humana. Programa exemplar.

Comandado pela Fundação
Amazonas Sustentável (FAS), organização não governamental criada em 2007, ele
conta com o endosso do governo estadual e o apoio financeiro de grandes
empresas. Sua área de atuação foca as comunidades tradicionais que vivem dentro
das reservas de desenvolvimento sustentável (RDSs), unidades de conservação
idealizadas pelo biólogo amazônida Márcio Ayres, posteriormente incluídas na
legislação ambiental brasileira. Grande ideia.

As RDSs configuram-se como
locais de natureza protegida, mas, ao contrário dos parques e reservas
florestais, que se pretendem intactos, nelas se pode manter atividade humana
produtiva. As áreas são escolhidas em função de sua valiosa biodiversidade, ou
da fragilidade de seu belo ecossistema. Nas RDSs não há necessidade de
desapropriação ou remoção dos ocupantes históricos. A regra principal é
condicionar a exploração do território às regras de sustentabilidade.

Com ajuda financeira
distribuída em quatro componentes – renda, social, familiar e associação -, a
Bolsa Floresta trabalha sob o conceito da corresponsabilidade, procurando
desenvolver o espírito empreendedor nas pessoas. A ordem é inserir as
populações locais nas cadeias produtivas florestais, “empoderando” as
comunidades. Cursos e oficinas pedagógicas promovem o aprendizado profissional,
direcionado para os negócios sustentáveis.

Atualmente o programa
beneficia 8.090 famílias, distribuídas em 15 regiões do Estado do Amazonas.
Grupos comunitários e famílias individuais, apoiados pela fundação, descobrem
como produzir e preservar ao mesmo tempo, buscando oportunidades na pesca e na
piscicultura, no turismo ecológico e de aventura, na exploração madeireira e no
artesanato. Novas tecnologias.

Quem me levou para
conhecer alguns desses projetos foi o engenheiro florestal Virgílio Viana,
superintendente da FAS. Doutor em Biologia da Evolução por Harvard (EUA), esse
criativo pesquisador impulsiona na prática, porque na teoria tudo é fácil, o
conceito básico da economia verde: no abrigo da floresta amazônica, gerar
emprego e renda, para melhorar a qualidade de vida das comunidades ribeirinhas.
Dá gosto de ver.

A RDS do Rio Negro, criada
em 2008, estende-se por três municípios – Novo Airão, Iranduba e Manacapuru -,
ocupando um território protegido de 103 mil hectares. Em seu interior vivem 526
famílias, distribuídas por 20 comunidades. Nelas se destaca a Tumbiras, que
funciona como uma espécie de polo empreendedor das demais. Lá, a 70 km de
Manaus, estão instalados os principais equipamentos públicos que funcionam como
alicerce do Programa Bolsa Floresta: salas de aula, módulo para o ensino a
distância, alojamento dos professores, computadores com internet, refeitório,
marcenaria, horta doméstica. Tudo bem arrumado.

Roberto, ex-madeireiro,
líder da comunidade, aguardava-nos na escadaria às margens do igarapé. Logo
desatou a falar, orgulhoso, sobre o recente progresso do seu chão, destacando o
ensino das crianças, as novas perspectivas para os jovens, a energia solar –
que exigiu um acerto na comunidade sobre o nível do consumo doméstico de
eletricidade, resultando na proibição, vejam só, do uso da “chapinha”
de cabelo. Na saúde, tudo mudou quando entraram em funcionamento as três
ambulanchas – isso mesmo, ambulanchas – que socorrem a saúde das pessoas
naquelas estradas d’água.

Roberto destaca o valor do
conhecimento, utilizando o seu próprio caso: “Antes eu não sabia o que
significava manejo florestal, agora sei como cortar madeira sem destruir”.
Vai além. Defende a tese de que sem alternativas para a ocupação das pessoas,
sem botar dinheiro no bolso, de nada adianta a fiscalização ambiental, muito
menos o belo discurso preservacionista. Encerra a conversa sobre o manejo
sustentável da floresta com uma curiosa frase: “As pessoas que moram na comunidade
também são árvores”. Lapidar.

A Pousada do Garrido,
administrada por sua esposa, Nádia, recebeu cerca de cem turistas em 2012, a
maioria de estrangeiros. Ligado na internet, o rústico hotelzinho oferece
diária completa por R$ 60, incluídos no pacote turístico três refeições, trilha
pela mata, passeio de barco e muita conversa mole recheada com
“causos” sobre os botos-cor-de-rosa e a curupira, divindade maior da
floresta. Encanta qualquer citadino.

Das 28 famílias que moram
em Tumbiras, três acabaram de regressar de Manaus. Fugiram da violência urbana,
escaparam das drogas, esqueceram o trânsito barulhento. Somente retornaram,
porém, porque vislumbraram oportunidades, ter ocupação e ganhar dinheiro no
berço da sua origem. Voltaram, também, porque agora podem assistir à televisão
e ligar uma geladeira. Mínimo conforto.

Ali perto, dona Raimunda,
veterana da comunidade do Saracá, tenciona dedicar-se à piscicultura, criando
tambaquis e matrinchãs em tanques-rede. Já o Nelson, da comunidade Santa Helena
do Inglês, quer montar uma pousada utilizando a moradia que o Incra teima em
lhe construir após finalizar a regularização fundiária do local. Inexiste
alternativa: todo mundo ganha casa nova, mesmo que não necessite. Incrível, até
nas barrancas do Rio Negro se joga fora o dinheiro da reforma agrária.

Virgílio Viana está
convicto de que os antigos paradigmas, ecológico ou militarista, sobre a
Amazônia impedem seu desenvolvimento sustentável. A Bolsa Floresta aponta para
o futuro.

Xico Graziano,
ex-Secretário de Agricultura e atual Secretário do Meio Ambiente do estado de
S. Paulo

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