O modo de criação
dos animais até o abate estaria relacionado com a qualidade do alimento que vai para a mesa. O
interesse pelo assunto cresce no Brasil e o bem-estar animal passa a ser uma
das exigências dos consumidores.
De acordo com o Conselho Federal de Medicina Veterinária, o mercado que dá
prioridade ao bem-estar animal
ainda é pequeno e desconhecido. Faltam produtores que sigam regras de bem-estar
animal, faltam normas que regulamentem o setor e falta conhecimento dos
consumidores. Mas uma pesquisa da veterinária Carla Molento, membro da Comissão de Ética, Bioética e Bem-Estar
Animal do Conselho Federal de Medicina Veterinária, mostra que quando
conhecem o sistema de produção intensivo os consumidores se tornam mais
exigentes.
Carla Molento consultou 481 pessoas que faziam
compras em supermercados em Curitiba, perguntando o que levavam em conta ao
comprar frango. Em um primeiro momento, apenas 3,7% disseram se preocupar com o
bem-estar animal. No entanto, quando viram fotos do sistema produtivo, o
percentual subiu para 24,1%. A pesquisa mostrou que 70,9% dos consumidores
pagariam mais por produtos com certificação de bem-estar animal, carne firme e
rosada.
“Intensifica-se a criação com o intuito de aumentar a produção, colocando mais
animais em uma área muito pequena. Isso cria animais com múltiplos problemas de
saúde. O objetivo é ter muita carne com o menor custo possível. Boa parte desse
custo está sendo paga pelo animal”, diz a pesquisadora.
Segundo ela, a produção intensiva, mais praticada no Brasil para aves e suínos,
tem mais de 40 anos e acaba se tornando mais competitiva no mercado. Um produto
que valoriza o bem-estar animal custa cerca de 30% a 70% mais caro e, em alguns
casos, o preço pode dobrar, comparado a produtos similares.
As normas que regem o setor também são falhas. A Instrução Normativa nº 3/2000 aprovou
o Regulamento Técnico de Métodos de
Insensibilização para Abate Humanitário de Animais de Açougue. Pelo
regulamento, todos os estabelecimentos industriais fornecedores de carne para
açougue devem sedar os animais antes do abate.
Além dessa norma, as demais tratam de aspectos sanitários, de vacinação, de
regras para o ambiente de criação. Não há na legislação brasileira normas
específicas que visem ao bem-estar, o que torna subjetiva a fiscalização e até
mesmo a certificação dos produtos que chegam ao consumidor.
No Brasil,
existe apenas uma certificadora, a filial da francesa Ecocert, que segue as
normas da Humane Farm Animal Care (Hfac),
certificadora norte americana. A empresa tem apenas cinco clientes na área
animal contra 5 mil produtores de orgânicos certificados. Segundo o
diretor-geral da empresa, Luiz Mazzon, o número de clientes não vem crescendo.
“Muita gente pergunta, mas não temos um aumento no pedido de certificações”. O
movimento é mais forte na Europa e nos Estados Unidos, países compradores de
carne brasileira.
Segundo o Ministério
de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, o Brasil lidera o ranking de
maior exportador de carne bovina
do mundo desde 2008, e as estatísticas mostram crescimento de 2,15% ao ano para
os próximos anos. O país também lidera a exportação de frango, com crescimento previsto de 4,22% ao ano. Em
carne suína, o país é o quarto maior exportador.
Para atender aos mercados mais exigentes, o país adotou o abate humanitário,
mas tanto Mazzon quanto Carla Molento acreditam que o bem-estar deve ter maior
destaque para que o país mantenha as exportações nos próximos anos.
Globo Rural
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