Cacau capixaba com certificação de origem
Com o incentivo governamental da época, as lavouras se expandiram e se tornaram referência econômica, social e política para Linhares. A pujança era tanta que o setor não se preocupou com possíveis percalços no caminho. E no ano de 2001, a doença da vassoura de bruxa chegou em solo linharense, causando prejuízos para os produtores. A produção local que era de cerca de 14 mil toneladas, hoje é de aproximadamente 4 mil. A força da atividade de tempos passados tornou-se em decadência. “Tínhamos uma receita com o cacau na ordem de R$60 milhões em 2001 e cinco mil empregos gerados. No ano passado, a receita foi de cerca de R$ 19 milhões com menos de dois mil empregos”, diz Maurício Buffon, presidente da Associação dos Cacauicultores de Linhares (Acal).
Mas o trabalho do setor produtivo e de entidades está tornando a recuperação da cultura mais rápida do que prevista. A mais recente conquista foi a Indicação Geográfica (IG) do Cacau de Linhares. Os proprietários que recebem esse registro, concedido pelo INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial), precisam ter, em seus produtos ou áreas de produção, a qualidade e as características que a tornam exclusivas.

Marca da Indicação Geográfica do ‘Cacau de Linhares’: selo pode valorizar produto no mercado
A Coordenadora de Incentivo à Indicação Geográfica de Produtos Agropecuários da Superintendência do Ministério da Agricultura no Espírito Santo, Sara Hope, diz que a certificação se deve ao fato de haverem nomes geográficos notórios e utilizados como referência para determinados produtos, como “Linhares” para o cacau, “Goiabeiras” para panelas de barro, “Cachoeiro do Itapemirim” para mármore, “Montanhas do Espírito Santo” para café. “A partir do momento que um produto consegue a indicação geográfica é possível, obter resultados positivos na organização dos produtores e da produção, na qualidade do produto, a rastreabilidade e o controle, a preservação da tradição, a agregação de valor, abertura de mercado, ampliação de renda e emprego em nível regional, entre outros fatores. Esses potenciais resultados positivos ocorrem em função da diferenciação qualitativa do produto no mercado com utilização do signo de origem”, destaca Hope.
Essa é a esperança do setor cacaueiro do município de Linhares, responsável por cerca de 90% da produção capixaba da fruta. A partir do registro do nome geográfico para o produto em questão, apenas os produtores estabelecidos na região delimitada e que cumprem as normas coletivas, ambos definidos na ocasião do registro, terão direito ao uso do nome geográfico para comercialização do produto. Isso dará um diferencial no cacau da região no mercado, tornando-se referência para compradores internacionais. “Essa diferenciação é reconhecida pelos consumidores que valorizam a qualidade do produto vinculada a sua origem, fortalecendo a demanda, além de promover a região de produção como um todo”, acrescenta Sara Hope.
O processo de registro é concedido para a região e não para o produto diretamente. Assim, os produtores terão o direito exclusivo de vincular o nome da região para o produto notório após o registro. Esse ponto será o próximo passo a ser trabalhado pelo setor, conscientizar os produtores sobre a condução da propriedade para seguir os critérios de produção definidos na certificação adquirida. Para Agostinho de Vasconcellos Netto, engenheiro agrônomo da indústria de chocolate Floresta Rio Doce, localizada em Linhares, somente a IG não vai fazer com que o produto fique mais valorizado. “Para que isto ocorra, terá que haver conscientização dos produtores para que produzam o cacau dentro dos parâmetros pré-estabelecidos na aprovação da IG, para que entendem a importância do trabalho em associação e, com isto, tenham volume para comercialização e saibam utilizar a certificação conquistada nesta comercialização”, afirma.

Engenheiro agrônomo destaca necessidade de produtor seguir padrões de produção para garantia de qualidade
O presidente da Acal, Maurício Buffon, vem trabalhando na articulação de parcerias que possibilitem a recuperação da produção e a permanência das lavouras cacaueiras. Para ele, a certificação de Indicação Geográfica é um selo de qualidade do cacau de Linhares e, com isso, terá um preço diferenciado. “As indústrias passarão a comprar preferencialmente de quem possui esse selo”, acredita Buffon. No entanto, o presidente da Acal avalia que o setor produtivo ainda não absorveu as possíveis mudanças com a conquista do selo. “Nesse momento, o produtor precisa voltar a produzir e depois estará avaliando a utilização do selo”, diz.

No comando da Acal, Buffon busca parcerias para revitalizar cultura cacaueira. Siqueira, da Ceplac, luta pela renovação das lavouras
A retomada da produção de uma região infestada pela doença da vassoura-de-bruxa passa pela renovação dos cacauais. A necessidade de substituição das plantas infectadas por clones produtivos e tolerantes a praga é evidente, porém falta capital para o produtor investir nesse processo de renovação. E é aí que entra o trabalho de instituição financeira no Plano de recuperação das lavouras capixabas. “Basicamente, trabalhamos em duas vertentes nesse processo: de desenvolvimento e de negócios. Na primeira, temos participado de todas as instâncias de organização da cadeia produtiva. Participamos das discussões para rever processos de tecnologia, de usos de variedade clonais e de capacitações de produtores”, diz Kleber Oliveira, agente de desenvolvimento do Banco do Nordeste do Brasil. Já na área negocial, a instituição três linhas de crédito para trabalhar com a cultura do cacau nesse momento. Duas delas direcionadas para agricultores não familiares: o FNE Inovação, para inovação tecnológica do pacote lançado pela Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac); e o FNE Verde, direcionado para sistema agroflorestais, com juros subsidiados e com prazo longo que pode chegar a 20 anos de prazo total e carência de sete ou oito anos. “Na agricultura familiar, temos o Pronaf Floresta para recuperação de áreas de reserva e sistema agroflorestais com as mesmas caraterísticas de prazos e juros”, afirma Oliveira.
O assessor técnico da Ceplac no Espírito Santo, Paulo Siqueira, afirma que a saída da lavoura é a renovação e a produção de qualidade poderá conquistar novos mercados agora com a certificação. “A oportunidade de produzir um cacau fino aumentou muito por ter alguns clones com características especiais. E ter o reconhecimento internacional de que o cacau de Linhares é produzido em condições socioambientais poderá remunerar o cacauicultor acima do preço de mercado”, destaca Siqueira. Adotando técnicas modernas de produção há vários anos em sua propriedade, o produtor Emir Filho acredita que, com dedicação e perseverança, é possível alcançar bons resultados na cultura do cacau, mesmo convivendo com ataque severo da vassoura-de-bruxa, doença que afeta gravemente a atividade. “Comecei o trabalho de renovação da lavoura em 1999, utilizando novos materiais genéticos. Aliado a isso, a colheita seletiva dos frutos maduros, a quebra e o transporte da fruta para o cocho no mesmo dia e a fermentação e secagem correta contribuem para a produção de um cacau com qualidade”, afirma Emir.

Emir (a direita), ao lado de Wilson, gerente da Fazenda São Luiz. Renovação da lavoura já começa a dar resultados.
Atualmente, a Fazenda São Luiz conta com 60 mil pés de cacau renovados, mais resistentes a doença e com bons índices de produtividade. A meta do produtor é chegar a 100 mil pés. “Vamos atingir essa meta alcançando a produção equivalente do passado, quando tínhamos 180 mil pés produzindo”, diz Emir. A demanda internacional por chocolates especiais, segundo o gerente regional da Ceplac, já existe. “Uma vez que se trata de um pequeno nicho de comercialização e por ter um público específico e especial no mundo, o produto fica mais valorizado no mercado”, finaliza Siqueira.

Delegação capixaba no Salão do Chocolate de Paris
E mesmo considerando que o trabalho está apenas começando, o setor já comemora alguns resultados. Em novembro, uma delegação do Espírito Santo participou do Salão do Chocolate de Paris 2012, após a amostra de cacau do produtor Emir ter sido selecionado entre as quatro melhores do Brasil. Reunindo expositores de diversas partes do mundo, o evento proporcionou opções aos milhares de consumidores que visitam o espaço. O estande do Cacau do Brasil teve visitação intensa nos cinco dias do evento, em especial o cacau do Espírito Santo. O grupo teve contato com chocolateiros europeus e estreitou laços comerciais para o futuro. “Mostramos a qualidade do nosso cacau e vimos que podemos alcançar ótimos mercados”, diz Emir Filho.
A
Indicação Geográfica do Cacau de Linhares também criou interesse dos visitantes. “O Estado entra
no mercado internacional com essa certificação de origem. Temos um conceito de
produção de cacau baseada em práticas de produção adequadas e respeitando
critérios socioambientais”, afirmou o Secretário da Agricultura do Espírito
Santo, Enio Bergoli, presente no Salão.

Assolate Mina aprova chocolate com cacau capixaba
Ao experimentar o chocolate produzido com cacau de Linhares, a francesa Assolate
Mina destacou o paladar do produto. “Tem um gosto apurado
que fica na boca”, afirmou Mina. E é isso que pretende o setor cacaueiro do Espírito Santo.
Franco Fiorot
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