Na entrevista que concedeu ao jornal
americano The Washington Post, a presidente da Confederação da Agricultura e
Pecuária do Brasil, senadora Kátia Abreu, defendeu a produção sustentável do
Brasil, falou do trabalho a frente da CNA e de sua trajetória de vida.
Mas, enquanto cavalga uma égua castanha entre as áreas de sorgo e milho –
espalhadas por 5 mil hectares coberta por suaves colinas do centro-norte do
Brasil – Abreu insiste que o agricultor brasileiro deve ser elogiado, não
demonizado. A grande agricultura transformou este país em um celeiro para o
mundo, disse ela, e o Brasil está pronto para alimentar bilhões.
“Nós não temos vergonha de nada”,
disse Abreu. “O importante é o Brasil aumentar a produção.”
Estas não são palavras vazias, mas sim uma declaração que carrega um grande
peso, como bem sabem os ambientalistas — que Abreu vê como adversários.
Isto
não é apenas porque o Brasil tem o maior rebanho comercial do mundo de carne
bovina e é o 1 º exportador de soja, suco de laranja, café e frango. É também
porque Abreu, que é senadora e presidente da associação de agricultores e
pecuaristas mais importante do país, opera no mais alto escalão do poder no
Brasil.
E
sua mensagem é clara: Nós não vamos recuar.
O
agronegócio já responde por quase 40% das exportações do país e é reponsável
por 37% dos postos de trabalho no Brasil.
Abreu
quer ver esses números se expandirem. Mas ela acredita que isso pode ser feito
na mesma quantidade de terra agora dedicada a agricultura no Brasil, 28% do
território do país. Isso vai acontecer com o uso de tecnologias agrícolas para
melhorar a produtividade.
“O
que é importante é que o Brasil pode aumentar a produção com crescimento
vertical, não horizontal”, disse Abreu, que também salienta que o
monitoramento por satélite da Amazônia tem mostrado um declínio no desmatamento
desde 2004.
Muitos
no Brasil, porém, não estão convencidos de que projeções de sonoridade moderna
de Abreu para a produção agrícola estejam alinhadas com o que realmente querem
os grandes produtores. Ambientalistas e especialistas no uso da terra no Brasil
dizem que há uma ameaça latente, observando que o desmatamento subiu
rapidamente este ano em algumas regiões, incluindo o estado de origem de Abreu.
“Eles
estão colocando a melhor cara, mas é basicamente uma farsa”, disse
Christian Poirier,
ativista
para o Brasil da Amazon Watch, um grupo ambiental com sede na Califórnia.
“Isto não está de acordo com o que este bloco fundiário representa, que é
a expansão da fronteira”.
A
disputa pela terra no país foi particularmente realçada este ano, na luta entre
ambientalistas e os produtores em torno do que é conhecido como Código
Florestal, uma lei de proteção florestal, que foi promulgada em outubro.
Agricultores e pecuaristas lutaram arduamente para retirarem requisitos que
obrigavam agricultores a manterem uma larga cobertura florestal em fazendas na
Amazônia.
Esse
esforço falhou, disse Sergio Sauer, especialista em desenvolvimento rural da
Universidade de Brasília. Mas ele disse que houve alterações feitas no antigo
Código Florestal que poderiam levar a uma redução na quantidade de floresta que
fazendeiros precisariam preservar.
Os
críticos da lei também temem que a fiscalização ambiental pode ser mais fraca
do que antes – dando a agricultores, pecuaristas e madeireiros uma abertura
para destruir a floresta.
“Há
menor proteção ao meio ambiente”, disse Sauer. “Nosso problema não é
tanto a lei, mas a falta de um mecanismo para garantir que a lei seja
obedecida.”
Ao
ocupar vários papéis, Abreu, 50, exerce considerável influência.
Seu
grupo, a Confederação Nacional da Agricultura, representa 5 milhões de
agricultores e pecuaristas. Em visitas a Washington, China e Europa, ela
discute com estudantes universitários, grupos de pressão para a aceitação de
culturas geneticamente modificadas e apelos aos investidores do Brasil. Ela
também construiu uma estreita relação de trabalho com uma das mulheres mais
influentes do mundo, a popular presidente de centro-esquerda do Brasil, Dilma
Rousseff.
Senadora
desde 2006, Abreu reúne muito da força política do bloco que ela comanda no
Congresso Nacional, que é conhecido como ruralista. Uma aliança de fazendeiros
e seus apoiadores, que inclui quase metade dos 513 deputados na Câmara dos
Deputados, disse Sylvio Costa, que dirige o Congresso em Foco, uma organização
que publica um site de monitoramento dos congressistas.
“Eles
se tornaram um dos grupos mais poderosos do Congresso, até mais do que os
industriais”, disse Costa. “Eles têm o poder de aprovar o que
quiserem.”
Em
um livro sobre políticos proprietários de terras, “O Partido da
Terra,” o jornalista Alceu Castilho descreve como os legisladores em todos
os níveis, desde prefeitos a senadores, muitos a partir de cidades pequenas,
controlam grandes áreas das melhores terras agrícolas do país. Castilho disse
ainda que a influência que desfrutam os proprietários lhes permite escapar da
Justiça por crimes que vão desde grilagem de terra até o uso de trabalho escravo.
Para
Castilho, os políticos donos de terras permanecem retrógrados na maneira de
cuidar de seus interesses, a exemplo dos pioneiros que arrebataram áreas
gigantes na corrida pela terra no Brasil na década de 70. Ele disse que pouco
mudou sob a liderança de Abreu, que lidera a Confederação da Agricultura por
quatro anos.
“Há
uma nova fachada onde têm sido postas ideias antigas”, disse Castilho.
“É cosmético”.
Castilho
não é o único que vê os proprietários de terras com desconfiança.
Pesquisas
realizadas para a Confederação da Agricultura mostrou que os brasileiros vêm os
proprietários de terras como “truculentos, muito poderosos, perigosos,
produzindo apenas para exportação “, explicou Abreu.
Abreu
disse que seu trabalho tem sido o de acabar com esse ponto de vista, tanto no
Brasil quanto no exterior.
“Estamos
interessados em nossa imagem”, disse Abreu. “Somos brasileiros, como
todos os outros, felizes, às vezes tristes, às vezes ficamos nervosos. Nós
somos pessoas normais. “
Em
1987, Abreu tinha uma vida normal e tranquila. Ela estava criando os dois
filhos e tinha um terceiro a caminho quando seu marido veio a falecer,
pilotando o avião de pequeno porte que ele utilizava para chegar às suas
propriedades.
Parentes aconselharam Abreu a vender a fazenda da família. Ela rejeitou o
Conselho, embora não soubesse nada sobre agricultura.
“Eu decidi não ter um gerente para a fazenda”, lembrou Abreu ,
“para que eu pudesse aprender tudo sobre agricultura e como fazê-lo.”
Abreu agora quer que pessoas de fora visitem sua fazenda, e mais outras duas no
estado do Tocantins, que lhe dão controle de mais de 12 mil hectares.
Aqui, ela planta soja e eucalipto. As culturas são rotacionadas para o uso
eficiente do solo, e em breve o gado integrado. Sementes geneticamente
modificadas é a norma.
“Nós somos produtores modernos”, disse Abreu, explicando que inúmeras
fazendas como a dela são o motor da economia do Brasil.
Sobre seus críticos, Abreu classifica-os como inimigos “ideologicamente
comprometidos” dedicados a uma visão fundamentalista da agricultura brasileira.
“Quero falar com as pessoas que são bem intencionadas, mas talvez mal
informados”, disse ela.
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