A mesma conjuntura que eleva os preços dos grãos, favorecendo os produtores poupados pelas quebras climáticas, é motivo de preocupação. Após quebras de safra sucessivas ao redor do globo – primeiro na América do Sul e agora na América do Norte, Europa e Ásia –, o mundo está comendo os seus estoques. E em um ritmo alarmante.
A oferta mundial de grãos não consegue acompanhar o aumento da demanda. A diferença entre produção e consumo de soja, que na safra 2010/11 era de 13,4 milhões de toneladas, deve cair a apenas 3,5 milhões no ciclo 2012/13. No milho, a situação é ainda mais dramática. De um ano para o outro, o mundo passou de uma sobra de 8,5 milhões de toneladas para um déficit de 12,6 milhões de toneladas. Esse déficit obriga o mercado a usar suas reservas.
Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, o Usda, no final da safra 2012/13 (julho de 2013), o mundo terá soja suficiente para 76 dias de consumo e milho para passar apenas 52 dias. Esses volumes são considerados críticos no próprio setor.
Para devolver os estoques de soja e milho a níveis minimamente confortáveis, o mundo precisará de ao menos três safras cheias consecutivas, o que, a considerar o histórico recente, parece difícil de acontecer. Nos últimos três anos, a América do Sul teve duas safras ruins e os Estados Unidos amargaram três quebras.
Se a conjuntura atual do mercado de grãos é grave, tende a se intensificar no longo prazo. Segundo a FAO, braço das Nações Unidas para alimentação e agricultura, a produção mundial precisará aumentar 60% nas próximas quatro décadas para poder cobrir a demanda crescente por alimentos e energia.
Nas últimas décadas, a produção agrícola mundial avançou a taxas médias de 2,6% ao ano. Com risco de queda nesse índice, o temor é de uma crise de segurança alimentar em um momento de crescimento populacional e urbanização.
A crise alimentar coloca em xeque não apenas a qualidade de vida nas cidades, mas também a sustentabilidade da própria atividade agrícola. A escalada das cotações dos grãos e, junto com elas, as do petróleo, inflaciona os custos de produção. Estudo da FAO mostra que uma alta de 25% nas cotações do petróleo resultaria em uma elevação de 14% no preço dos fertilizantes, item de maior peso na ‘cesta básica’ do campo. E, se a conta não fecha no campo, fica difícil aumentar a produção.
Gazeta do Povo
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