Uma das etapas mais complicadas no setor agropecuário, a comercialização dos alimentos já não é motivo de tanta preocupação para alguns agricultores de base familiar. A regulamentação do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), em 2008, proporcionou melhorias na vida de algumas famílias rurais, que começaram a ter garantias na hora de vender os produtos cultivados na roça. É o caso do produtor Geraldo Nascimento, que tem 14,5 hectares no Assentamento Rio Quartel, em Linhares, norte capixaba. O café era a cultura predominante no local, antes do PAA. Agora, os produtores já diversificaram e plantam abóbora, couve, alface, tomate, banana, maracujá, coentro, salsa, aipim, e, principalmente, milho, principal produto vendido através do programa. O cultivo desses novos alimentos proporcionou melhorias na vida das famílias que moram no assentamento. “As mudanças foram extraordinárias, até nos hábitos alimentares. A gente quase não comia verduras, e agora quando falta até as crianças reclamam”, diz Geraldo, que preside a Aparq, associação dos produtores do assentamento.
Na comunidade do Guaxe, foi a criação de tilápias que ganhou força com a garantia de venda para a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), órgão que coordena o PAA em todo país. “Foi a salvação para comercializar. Deu mais segurança”, afirma Nilson Bremer, presidente da Associação dos Piscicultores do Guaxe (Apigua), que fornece por mês 690 quilos de peixe para o programa federal. Os alimentos produzidos pelos associados da Apigua e da Aparq vão parar na mesa de instituições de caridade, ajudando a combater a pobreza e distribuindo renda, um dos objetivos do programa. No Lar Batista, a cada entrega dos alimentos fica a certeza de que as crianças atendidas pela entidade vão poder se alimentar bem. “Melhorou muito. A alimentação agora é mais rica. A criança que chega desnutrida, com duas semanas está melhor”, diz Sueli Dias Wan der Mass Jardim, coordenadora da entidade ao lado do marido, Tales.

Sueli recebe coco da Associação
Os dois cuidam de 14 crianças e de outras famílias carentes. “Com esses alimentos, nós conseguimos manter o padrão alimentar nas casas das crianças após a reintegração delas. Quando a criança volta para casa, se a alimentação não estiver adequada, ela volta pra rua. O programa proporcionou isso, conseguir levar os alimentos às casas dessas crianças e manter esse padrão”, explica Tales. Toda semana eles recebem alimentos dos agricultores. A disciplina, limpeza e o carinho do local ganharam mais um aliado para alegrar as crianças: a boa alimentação. O peixe, que vem lá na comunidade do Nilson, é preparado no Lar com o tempero verde que vem do assentamento do Geraldo. O cardápio do Lar ficou diversificado e a renda dos produtores não ficou dependente de uma só atividade agrícola.
O plantio na propriedade do Geraldo é programado, de acordo com o cronograma de demanda das instituições que recebem os alimentos. Para participar do PAA é necessário que os produtores façam parte de uma associação ou cooperativa, não pode vender isolado. A operacionalização é simples, pois a compra é feita diretamente pela Conab, por preço de mercado, respeitando as peculiaridades e hábitos alimentares regionais e a situação do mercado local. O milho, por exemplo, é vendido por R$ 0,50 a espiga. Um maço de couves é vendido por R$ 0,60. “O preço é muito bom”, diz Geraldo. No contrato firmado entre a associação do assentamento e a Conab, sete famílias conseguiram participar do programa esse ano, recebendo cada uma R$4.322,30 durante doze meses. A medida que as vendas acontecem, seguindo o cronograma, o dinheiro é liberado na conta da associação que repassa aos produtores. “A associação voltou a funcionar. Tá todo mundo focado nisso lá. A venda é garantida e o dinheiro tá na conta”, diz o piscicultor Benedito dos Santos Aguiar. Os agricultores recebem assistência de técnicos do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), que articulam os procedimentos entre Conab e associações. “É uma grande oportunidade porque os agricultores familiares não passam pela concorrência desleal do mercado já que o programa é específico para eles.”, diz Renata Setubal, técnica agrícola do Incaper. De acordo com o regulamento do programa, cada família pode receber no máximo R$ 4.500,00 por ano através das vendas realizadas para a Conab.

No assentamento, Geraldo investiu em outros plantios após o Programa de Aquisição de Alimentos
Em 2010, foram 24 agricultores atendidos pelo PAA em Linhares. A expectativa é dobrar esse numero no próximo ano. “Alguns proprietários estão tirando café para plantar essas culturas atendidas pelo programa”, afirma Geraldo. A expansão do número de agricultores atendidos pode ajudar a diminuir um dos grandes problemas atuais no campo, a saída dos jovens para a cidade. “O interesse dos produtores rurais está aumentando. Temos casos de filhos que voltaram para roça para ajudar os pais na expectativa de participar do programa”, diz Benedito.
Revista Campo Vivo
Matéria publicada na edição 08
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