ARTIGO – Nois não se conforma!

por admin_ideale

 


 


* A Abílio e Zilda que, mesmo com pouca leitura, investiram tudo na educação dos filhos.


 


Nois pescava os pexe de penera ou de anzor. Era mutcho pexe, nas primera chuva das agua. Era tanto pexe que nois via marola na agua. Mais o pobrema não era pega os pexe, e sim come os pexe, tanto que era. Dai que se dava pexe pra todo mundo. Pra vizinho, pros amigos da vila, pros gato e ainda sobrava pexe. Também nois salgava. Limpava e salgava e secava, pra conservá. Durava muito tempo depois de seco. As veis, seis mes depois da pesca ainda tinha pexe pra come. Tem mais, era divertido pesca os pexe. Animava todo mundo. Vinha inté os parente da cidade. Hoje em dia, as pescaria não acontece mais. Cabou-se os pexe dos rio.


Quem é da roça conhece muito bem essa forma de se expressar, com variâncias de sons e pronúncias, segundo regiões, estados, municípios e até mesmo comunidades não muito distantes. Também não se pode dizer que o cidadão “matuto da roça” não conseguia se comunicar.


Mas eu posso falar assim? Pode sim! Para a linguística, o resultado é o que importa. Mas daí apoiar, referendar e distribuir cerca de 500 mil livros da obra “Por uma Vida Melhor”, da coleção “Viver e Aprender”, que legitima e propaga erros de português, como fez o Ministério da Educação, vai uma longa distância. O próprio MEC e a autora da obra, Heloísa Ramos, defendem exatamente isto: o uso desse tipo de linguagem.


E ainda advertem seus leitores e estudantes sobre os riscos de “preconceito linguístico”, ou seja, o uso dessa linguagem, desconsiderando a norma culta, é mais comum no grupo de pessoas com menos instrução, portanto, hierarquicamente inferior na escala social. Daqui a pouco vão fazer uma lei que criminaliza quem se empenha em falar e escrever certo.


A autora e o MEC defendem o livro com o argumento de que reconhecem as variações da língua portuguesa e a linguagem dos diferentes grupos sociais. Até aí tudo bem. Mesmo porque, não há inconvenientes em mencionar a existência dos vários registros da língua portuguesa e apontar para o fato de que, mesmo falando com erros formais, as pessoas podem muito bem serem compreendidas, ou seja, se comunicar.


Mas patrocinar e legitimar a linguagem errada como presunção de discriminação é um exagero. Um erro de política pública que precisa ser apurado em toda sua extensão e profundidade. Ensinar português errado aos jovens que, independente de sua classe social, podem se apoiar justamente no uso da linguagem para conquistar melhores condições de vida é limitar suas oportunidades.


Ainda hoje, a maioria da população brasileira tem suas raízes no interior e no rural, ricos em regionalismos e expressões linguísticas que são úteis à comunicação verbal, mas não recomendáveis à comunicação escrita. Pois bem, muitos de nossos pais ou avós, lá da roça, mesmo reconhecendo seus limites estreitos ao uso da norma culta da língua, investiram na educação de filhos e netos, exatamente para lhes propiciar melhores oportunidades e, ainda, ajudá-los no entendimento da comunicação escrita e verbalizada dos mais instruídos. E, olha! Nossos pais e avós, lá na roça, tinham muito orgulho dos que estudavam e caprichavam na leitura e na escrita.


Sinceramente, investir em livros dessa natureza é jogar dinheiro fora num momento em que toda a sociedade clama por mais investimentos de qualidade em educação. Todos são unânimes, inclusive os Governos, em apontar a educação como a melhor saída avançar competitivamente na economia globalizada, no médio prazo. Não com essas medidas que patrocinam e estimulam o atraso.


Desculpem, mas aos estudantes devem ser oferecidas as melhores chances de aprendizagem, seja da língua, seja das ciências, para ampliar suas oportunidades e reduzir as desigualdades da competição que vão enfrentar vida afora.


 


 


 


Wolmar Loss


Engenheiro Agrônomo – Mestre em Economia Rural


                                                    e Desenvolvimento Econômico


 


 


 


 


* A referência aos peixes provem do texto do livro em que aparece:”Nós pega o peixe”, “Os menino pega o peixe”.


 


Dedicatória: A Abílio e Zilda, gente da roça que, mesmo com pouca leitura, investiram tudo na educação dos filhos.


 

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