Produtor rural de Linhares é preso acusado de escravidão

por admin_ideale

 


Um produtor rural de Linhares foi preso ontem em flagrante pela Polícia Civil acusado de manter funcionários e crianças de uma fazenda em regime de escravidão. Segundo as vítimas, eles eram proibidos de deixar a propriedade sob ameaça de serem espancados ou até mortos. A situação só foi descoberta pois um dos funcionários conseguiu escapar da fazenda escondido em um carro de leite e avisou a polícia.

A Fazenda Santo Antônio, situada em Barro Novo, região de Pontal do Ipiranga, pertence a Fernandino Fernandes de Souza Júnior, 47 anos. Ele foi interrogado ontem pela manhã no Departamento de Polícia Judiciária (DPJ) de Linhares e autuado em flagrante por manter funcionários em regime de escravidão.

“As condições das moradias dos trabalhadores da fazenda são críticas. As pessoas dormem no chão, reclamam que não se alimentam direito e que são obrigadas a trabalhar em troca das refeições. Estou autuando o proprietário da fazenda por trabalho escravo, pelo não recolhimento de impostos e também pelo não pagamento de salário e fundo de garantia dos funcionários”, afirmou o delegado Fabrício Lucindo, do DPJ de Linhares.

Na fazenda, o que mais se via nos alojamentos era sujeira e mau cheiro. Em um dos banheiros, a privada estava completamente entupida. A comida, preparada em um fogão a lenha, também era muito criticada pelos trabalhadores. Os mantimentos, segundo as vítimas, eram fornecidos por Fernandino, mas ele se limitava a comprar arroz, açúcar, farinha e carne de segunda.

“Fui contratada como faxineira, mas era obrigada a capinar, cuidar de porcos e fazer uma série de serviços sem os equipamentos necessários. Peguei uma doença de pele e fui impedida de procurar um médico. Meus filhos chegaram a ficar dez dias sem comer pois o que o dono da fazenda manda pra gente não é o suficiente”, afirmou Raimunda da Conceição, 27.

Quem também reclama das condições de trabalho é o braçal Deilson Marcolino dos Santos, 18. Ele afirmou que está no local há cinco anos e era proibido de deixar a propriedade.

“Vim pra cá adolescente e fui mantido aqui como escravo. Não podia sair pois era ameaçado de morte. Somos obrigados a trabalhar com botas furadas, beber água barrenta e dormir em cômodos sujos com fezes de morcego. E quem não trabalhasse direito era espancado”, desabafou o braçal.

O dono da fazenda negou todas as acusações e afirmou que pagava o salário dos funcionários em dia e que tinha os recibos para provar. Ele afirmou ainda que os trabalhadores estavam na propriedade há apenas duas semanas e que tudo não passa de uma armação.



“A gente trabalhava sem direito a fim de semana, feriado, folga, nada. Vim da Bahia para cá com promessa de trabalho e tudo que encontrei foi a escravidão. Éramos agredidos se tentássemos fugir. O dono colocava arma e cachorros atrás da gente. Meus sobrinhos, que são crianças, nunca tiveram remédios ou calçados. Graças a Deus que consegui fugir em um caminhão de leite e pedir ajuda na delegacia”.



Renato da Conceição, 25 anos, braçal.

“Eu já fui agredido, apanhei bastante, tenho até uma cicatriz no pé por causa de uma surra que levei na fazenda. Além disso, a gente era pago com comida. Em nove meses que estou lá, só vi R$ 200,00. No fim do mês o dono dizia que não ia pagar nada e que a gente ainda devia pra ele pois ele cobrava uma diária na fazenda. Fora que nunca recebi roupas ou equipamentos de trabalho”.

Aderaldo Santos Valazoela, 32 anos, braçal.


 


A Gazeta

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