Os governos latino-americanos, Brasil no meio, acabam de receber um forte puxão de orelhas da CEPAL, da FAO e do IICA sobre as estratégias e as formas de combate à forte volatilidade nos dos preços dos alimentos: “Os governos tendem a intervir em maior medida quando os preços sobem do que quando baixam, tendo sido dada relativamente mais importância à inflação e ao consumidor do que ao produtor e à estrutura produtiva agrícola”. O boletim divulgado pelas entidades referidas ainda destaca que: “… as medidas de política, em termos gerais, estão sendo centradas principalmente no curto prazo e em menor medida na atenção a problemas estruturais, sendo que a busca de soluções para esses problemas poderia reduzir significativamente a vulnerabilidade dos países à volatilidade preços”.
Para o caso brasileiro, surge naturalmente a pergunta: que conclusões podem ser extraídas do boletim conjunto da Cepal, FAO e IICA? Certamente, a primeira lição é que os gestores públicos não podem se colocar de fora do problema e culpar a produção de alimentos pelo aumento da inflação. A segunda é a de que eles devem promover o equilíbrio das políticas públicas de forma que tenhamos mais estímulos à produção, melhores infraestruturas de escoamento e mais estoques de alimentos para amortecer movimentos especulativos de preços.
Esta, na verdade, é uma recomendação que vem sendo posta com muita frequência e vigor às autoridades brasileiras, por técnicos e representantes de vários segmentos do agronegócio brasileiro.
Agora mesmo, em fevereiro último, depois de divulgarem várias pesquisas convergentes sobre as últimas safras brasileiras de grãos, a CONAB e o IBGE estão divergindo: A CONAB, vinculada ao Ministério da Agricultura, informa sua segunda estimativa de safra de grãos para 2011, da ordem de 153 milhões de toneladas e o IBGE, com vinculações ao Planejamento, projeta 146,8 milhões de toneladas. Soja e algodão, com as maiores taxas de crescimento, são os produtos que comportam maior diferença de estimativas entre as duas Instituições.
A que leva tais estimativas divergentes? Primeiro, estimula as especulações, eis que as previsões da CONAB, mais elevadas, facilitam os argumentos dos que afirmam que os preços vão cair, em plena safra, rebaixando ainda mais os preços para os produtores, comportamento típicos na época de colheita. Segundo, mais à frente, na entressafra, os dados do IBGE serão usados para reforçar os argumentos de que os preços tenderão a subir, pela escassez dos produtos, agora nas mãos dos especuladores. E pouco os Governos farão para formar estoques reguladores e estratégicos, assim permitindo que os movimentos especulativos tenham efeitos mais perversos do que poderiam ter.
Entre a safra e a entressafra, ora os produtores perdem, oram os consumidores pagam caro pelo alimento, impactando a inflação, e a culpa, como sempre, é da agricultura e dos produtores (ou das intempéries, o que para muitos dá no mesmo).
Se não bastassem os argumentos das instituições como a FAO, IICA e CEPAL, e dos técnicos “prata da casa”, muitas vezes menos creditados do que aqueles de fora, fica registrado que a agricultura sustentou os baixos preços dos alimentos no País, desde o início do Plano Real, e foi diretamente responsável pelos excelentes saldos na balança comercial brasileira, nas últimas décadas. Depois de tanto contribuir, ela não pode ser colocada no banco dos réus, como a vilã da inflação. Ao contrário, esta conta deve ser paga por quem de direito, em especial os responsáveis pelas políticas públicas de apoio à produção, à comercialização e ao abastecimento. Não basta dizer que a produção e a produtividade cresceram. É preciso que todos os atores das cadeias produtivas do agronegócio, do produtor ao consumidor final, incorporem os benefícios do crescimento e dos ganhos de produtividade agrícola. Se alguém perde, todos perdem. Só quem ganha são os especuladores, hoje virtualmente escondidos nas bolsas de mercadorias e nos fundos de investimentos. A sociedade recebe os piores reveses.
Wolmar Loss
Engenheiro Agrônomo, Mestre em Economia Rural e Desenvolvimento Econômico

