A recente disparada das cotações do café, que atingiram os maiores valores em 13 anos na bolsa de Nova York (ICE Futures), e preços recordes para a mercadoria de melhor qualidade negociada no mercado interno, não devem provocar expansão da área plantada, como ocorria em período de euforia nas décadas passadas. A tendência é que a área se mantenha estável, na faixa de 2,1 milhões de hectares, e que o cafeicultor aposte no aumento do rendimento dos cafezais.
Carvalhaes acredita que, em vez de aumentar a área, os cafeicultores devem se preocupar com o aumento da produtividade por hectare, redução de custos e melhora da qualidade do grão, aproveitando as sobras de caixa para investir em irrigação e mecanização nas regiões em que estas práticas sejam viáveis. Ele observa que atualmente o produtor tem muitas alternativas de exploração da propriedade, como a produção de grãos, o arrendamento para o cultivo de cana-de-açúcar e o plantio de eucalipto, atividades que dão menos trabalho e apresentam menos riscos que a cafeicultura.
Os números mostram que os cafeicultores brasileiros de fato amadureceram. Na segunda metade da década passada (2005 a 2009) os preços do café ficaram 60% acima dos registrados na primeira metade (2000 a 2004), mas mesmo assim a área permaneceu estável. Já a produção média saltou de 35,8 milhões sacas para 39,4 milhões de sacas, graças ao aumento de 11% na produtividade. Nos últimos anos vem aumentando a pratica da substituição de lavouras decadentes. A renovação de cafezais nesta safra representa 15,1% da área em produção, três vezes mais do que há seis anos.
Na opinião de Carvalhaes, a saca de café a R$ 500, o dobro dos preços registrados no mesmo período do ano passado, não é um fato extraordinário. Ele observa que a alta assusta porque os preços estavam comprimidos, além de sofrer o impacto da desvalorização do dólar dos últimos 20 anos. Além do mais, diz ele, as demais commodities agrícolas, como o milho e a soja, tiveram alta de preços, enquanto os do café permaneceram em patamares históricos. Outro fator observado por Carvalhaes é que somente os preços dos cafés finos dispararam, por causa da oferta escassa, enquanto as cotações dos grãos com bebida inferior (riados e rio) comuns continuam baixas.
A falta de café fino provocará uma disputa na BM&F/Bovespa tanto para o vencimento março como no maio, pois aos preços atuais compensa mais exportar do que certificar o produto para entregar na bolsa. Carvalhaes diz que até junho a disponibilidade de café diminuirá e deve impulsionar os preços dos produtos de qualidade inferior e reduzir as exportações, que no ano passado atingiram o recorde de 33 milhões de sacas. A tendência para os próximos meses é de redução nos embarques.
O consumo interno, que no ano passado atingiu o recorde de 19,13 milhões de sacas, neste ano deve crescer mais 5%, conforme as previsões da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic). Carvalhaes acredita que no fim de junho, quando começam a entrar os grãos de qualidade superior da safra nova no mercado, os estoques estarão “raspando o fundo do poço”.
Agência Estado

