Criação de frangos é incentivada através de parceria entre produtores e indústria. Atividade surge como alternativa de nova renda no Espírito Santo
Há 20 anos, seu Walter Marim trabalhava somente com café e criação de gado. Durante esse mesmo período, o produtor Marcos João cultiva mamão, além do café conilon, tradicional na região norte capixaba. Além da ligação familiar, os dois têm em comum a aposta no setor avícola. Há um ano e meio, o produtor Walter resolveu ingressar na atividade de criação de frangos. Três meses depois, Marcos também acreditou na avicultura. Ambos foram incentivados pelo programa de Integração Avícola da Proteinorte Alimentos, indústria de abate de frangos, sediada em Linhares.
A parceria com os produtores permite uma nova oportunidade de geração de renda na propriedade com a utilização de uma pequena área, proporcionando a diversificação de atividades agrícolas com a produção de frangos e de adubo orgânico. A indústria linharense iniciou as atividades há 30 anos já com a ideia de produzir aves através de um programa de integração. “A indústria tem esta demanda. O que iríamos investir na área de criação, vamos investir no campo, no produtor”, afirma Hercules Marin, diretor de Produção Rural e Avícola da empresa.
A pouca tradição da região norte do Espírito Santo na avicultura ainda é um dos entraves do programa. Porém, aos poucos os produtores rurais da região começam a despertar o interesse pela atividade. Seu Walter implantou quatro aviários em uma área de dois hectares. Em cada um, possui 22 mil frangos. “O café é bom, mas se não der adubo fica complicado. Ele dá resultado, mas quer de volta. Por isso, apostei em outra atividade”, diz satisfeito com a avicultura. “Estou aguardando para implantar outros quatro aviários”, afirma Walter.

Hercules e Walter: integração na avicultura
O contrato do programa de integração estabelece que a indústria forneça ao produtor os pintinhos (de um dia), vacinas, medicamentos, ração, além de assistência técnica. Ao produtor integrado fica o compromisso de construir os galpões, adquirir os equipamentos necessários, a mão de obra e oferecer água de boa qualidade, entre outros critérios. O preço de venda do frango é estabelecido também em contrato, sendo pago o valor do mercado de São Paulo no momento da comercialização. “Essa é outra vantagem. Já temos a empresa certa para vender”, diz Walter.
O processo de produção dos frangos nos aviários requer atenção e cuidados. A temperatura é um fator extremamente importante para manter o bem estar dos animais. Na primeira semana, a temperatura nos aviários fica em torno de 30ºC. Já na fase final da produção, varia entre 18º e 22ºC. Os frangos seguem para abate com 43 dias, idade considerada ideal, quando eles pesam, na média, 2.350 quilos. Após a saída de cada lote de animais, o produtor deve realizar a retirada da ‘cama’ dos frangos, lavagem e desinfecção do aviário para recepção de novos pintinhos. “É necessário cuidado com a origem do cepilho de madeira, componente que forma essa chamada cama. O material deve ser renovado em cada ciclo”, explica Alexandre Rafael Lage Paixão, coordenador do Programa Integração Avícola.

Alexandre acredita na expansão da atividade no norte capixaba
Esse material retirado após a saída dos frangos para o abate é um valioso adubo orgânico. Com isso, os produtores podem aproveitá-lo nas lavouras ou comercializar, conseguindo mais uma fonte de renda. É o que faz o Marcos João nas suas duas propriedades que possuem 10 aviários no total. O adubo orgânico formado na cama dos aviários é aproveitado nas plantações de café, mamão e banana que possui. Com a adesão desta prática, ele conseguiu reduzir os custos na lavoura. “Diminui 20% do uso de adubos químicos no café, abaixei os custos e melhorei a qualidade do meu solo. Aliado a outros tratos culturais, aumentei em 10% a produção”, afirma Marcos.

Matéria orgânica é aproveitada no cafezal de Marcos
Além de aproveitar o adubo, na propriedade do Walter ele também comercializa. A cada lote de frango (57 dias), que sai dos seus quatro aviários, ele obtém 35 toneladas de esterco. O preço de venda fica em aproximadamente R$100,00 a tonelada. Segundo levantamentos da Associação dos Avicultores do Espírito Santo, a produção interna de adubo de aves é de cerca de 28.000 toneladas por mês.
Para implantar os aviários (uma estrutura fica em torno de R$ 300mil), o ingresso na avicultura pode ser facilitado através de linhas de financiamento oferecidas pelas instituições bancárias. Marcos e Walter fizeram isso. Buscaram o crédito e com o retorno financeiro da atividade poderão quitar aos poucos. “São dois anos de carência, dez para pagar, com juros de 6,75% ao ano”, diz Walter, explicando o modelo do seu financiamento. De acordo com dados da Proteinorte, a receita bruta obtida com um aviário chega a R$ 116,9 mil e a receita líquida é de R$45,2 mil por ano.
A demanda do mercado por carne de frango vem aumentando nos últimos anos devido ao crescimento do consumo. Atualmente, a capacidade de abate da Proteinorte é de 100.000 mil aves por dia. Porém, falta produto no mercado. A quantidade atual de frangos abatidos por dia na indústria é de 55.000 aves. “Compramos de fora para atender nossa capacidade. A intenção é suprir nossa demanda, e até aumentar, através do programa de integração com os produtores da região”, diz Hercules. A meta é abater, até o final de 2011, 85 mil aves diárias. O coordenador do Programa Integração Avícola, Alexandre Paixão, diz que a avicultura é um investimento de longo prazo. “Através de programas de integração, a atividade tem se mostrado como uma fonte de renda extremamente estável e por isto atrativa para o produtor que quer diversificar”.
Apostando na avicultura como uma nova alternativa de renda, o produtor rural Marcos João já está satisfeito com os resultados iniciais. “Não precisei investir dinheiro meu, através da possibilidade do financiamento, e ainda tem a garantia de compra com preço estipulado pelo mercado. Nos primeiro lotes já observei bons resultados”, diz. Em 2009, o consumo de frango por pessoa superou o de carne bovina. Com a crescente demanda por este tipo de carne e o espírito empreendedor do produtor capixaba, a avicultura desponta no cenário estadual como um importante agronegócio.
por Franco Fiorot

