CRÔNICA – Um pouco do mundo rural das populações negras

por admin_ideale

 


Vou me confiar aos lançamentos verbais (tradição oral) do afro-estudioso Luiz Mauro Pinheiro de Souza “Mestre Militão” para divagar um pouco sobre a saga histórica dos grupos quilombolas dos Vales do Cricaré e Itaúnas. Militão tem a magia dos historiadores autodidatas mergulhados na consciência local, sem os fetiches pedantes da academia, sem os prumos cartesianos desenvolvidos pela nossa Intelligentsia.


 


Os quilombolas estão intimamente ligados ao mundo da pequena propriedade com predominância da “cultura de subsistência”. Usualmente, entende-se como cultura de subsistência todo preceito de produção agrícola que visa à sobrevivência do lavrador e de sua família. É caracterizada pela utilização de recursos técnicos pouco desenvolvidos. Os utensílios agrícolas mais usados são os seguintes: enxada, foice e arado. A produção é baixa em comparação às grandes propriedades rurais mecanizadas.


 


Este sistema é geralmente aplicado em pequenas propriedades rurais, também conhecidas como sítios, de regiões pobres como quilombolas. A produção nestas propriedades é, na maioria das vezes, de verduras, arroz, feijão, batata, mandioca e milho. Quando sobra parte da produção, esta é vendida ou trocada por outros produtos que não são produzidos na propriedade. Isso é muito comum pelos mercados de São Mateus e Conceição da Barra.


 


Um dos aspectos mais intensos nos redutos de negros oriundos de quilombos é a gastronomia que passa por comida as mais diversas: mingaus, tapioca, beiju, bolinho de fubá, canjica, as mais diferentes cocadas, feijoada, além da tradicional aguardente de cana.


 


O processo civilizatório da população negra é dos mais pungentes. Tomando por base uma descrição de Eduardo Frieiro sobre a alimentação de escravos numa fazenda típica de Minas Gerais do século XIX, citado por Nei Lopes na gigantesca Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana (Selo Negro, 715 p.), é possível estabelecer a seguinte rotina alimentar diária para a média dos escravos de eito no Brasil: despertos antes do sol, recebiam a primeira ração do dia e partiam para a roça; às 8 horas, almoçavam, invariavelmente, feijão cozido com gordura, misturado com farinha, após o que descansavam meia hora; às 14 horas, eles jantavam feijão, angu e couve, ração à qual, duas vezes por semana, era adicionado um pedaço de carne; ao anoitecer, de volta à sede da fazenda, tomavam canjica adoçada com rapadura.


 


Andei visitando interessantíssimos quilombolas que margeiam São Mateus e Conceição da Barra, de onde pude conversar demoradamente com sábios negros filhos desses horizontes histórico-geográficos. Vi como em poucos lugares vastos espaços de adoração aos santos que denotam a presença claríssima de um sincretismo feito pela bela arrumação dos anos. Percebi um sentimento de cordialidade invadido por uma espécie de “africanidade perdida”. Repetindo Gilberto Freyre, narraria com condescendência: “Todo brasileiro traz na alma e no corpo a sombra do indígena ou do negro”, felizmente. O negro é pura liturgia no processo histórico desta nação (ainda) destroçada.


 


 


Antonio Bezerra Neto


Secretário de Cultura de Linhares

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