CRÔNICA – Por quem os sinos dobram?

por admin_ideale

 


Já faz tempo quando recebi um alerta de que a história é um movimento em que não se pode por um ponto final. É na dialética (a arte do diálogo) que aos poucos o homem vai construindo sua trajetória histórica. Na verdade não há andamento histórico sem a boa dinâmica do mundo. Linhares não foge a essa regra universalizante. Gente, toda região necessita nutrir dentro de si, sua direção. Por quem os sinos dobram? Por Linhares, haverá de dizer alguém afinado com a história. E é verdade. Assusta-me a condição de conservação dos bens históricos situados pelas muitas vertentes rurais. Lembro-me do desabafo do poeta inglês quando viu sua gleba abandonada: “Nós somos os homens ocos, os homens empalhados, uns nos outros amparados”. Belo verso!


 


Vou mensurando os muitos solavancos da belíssima estrada Linhares – Povoação. É uma terça-feira da Semana Santa; cumpro missão pela Secretaria de Cultura e vou absorvendo, como um pintassilgo, a chuvarada da véspera. Não faz calor. Pelos aceiros vastas roças de cacau e algumas fazendas esplendorosas. Algumas faces baianas surgem com muitas estrovengas em mãos. Parecem dizer: “Olha nós fomos os mentores de tudo isso!”. Sim, eu sei.


 


Tenho meu prumo depois dos muitos anos de convivência com Linhares, foi difícil, mas consegui. É fácil perceber que os cacaueiros iniciaram a formação clássica e linda de seus bilros. As garças muito alvas se espalham pelos pântanos. O que tanto bicam? “Piabas!”, é o que diz laconicamente Jean, meu companheiro de viagem e empreitada, que, adiante, explica com paciência de um monge tibetano: “Bezerra, a falta de chuvas retardou a floração… só agora os bilros surgem para o contentamento dos proprietários destas bandas férteis”. Jean se orgulha de dispor de terras pelo universo lúdico de Povoação; tem os pés atados à tradição e, por consequência, à terra. Foi viramundo quando criança em meio às muitas roças de seu avô.


        


Um sol tímido vai lambendo as poucas sombras da estrada de barro. As libélulas adornam a estrada, plantam belezas. E as fazendas passam: Relíquia, Samará, Paco, Paraíso, Santa Terezinha, Caparaó, Califórnia, Boa Esperança, Império, onde híbridos e parazinhos sobrevivem majestosamente sob copas maravilhosas da Mata Atlântica. E assim caminham essas quase centenárias fazendas: roçagem, poda, desbrota, correção do solo, adubação, controle de praga e doenças. Os mais aquinhoados irrigam suas lavouras; os refratários continuam com suas práticas assentadas nas tradições. Pergunto ao Jean:


 


— E a mão de obra?


— Paga-se uma diária de R$ 25,00… Ou assina-se a Carteira de Trabalho.


— Que preço se paga por uma saca de cacau na Praça de Linhares? Pergunto.


— Andei vendendo cacau a R$ 380,00… O ideal seria que a saca chegasse a R$ 500,00.


 


Dou-me por satisfeito. É bom não chafurdar a conversa com muitas perguntas. O tempo segue pelas fazendas. Quando da safra: colheita, bandeira, quebra, transporte, cocho, secagem, estufa e, por fim, o ensacamento. Feito isso, o cacauicultor sai à procura de compradores pela cidade. “É dinheiro na certa!”, exclama novamente Jean, companheiro desta saga pelas estradas de Povoação.


 


Povoação é um mosaico de tradições. Ali, canários da terra voejam sobre velhas cercas de braúnas. Tenho lido que os canários estão de volta depois das muitas coerções. Sou beato de escutar a prosa dos pássaros. Ah, a lebre atrevida atravessa diante do carro. Por pouco não foi ceifada. Essa mística ajuda. Absorvo o silêncio do meio-dia.


 


Na volta, um olhar de vergonha diante da casa de “Paco”, ilusionista espanhol (visivelmente de origem Basca), que legitimou parte do progresso cacaueiro nestas terras de muito massapé.  Sua casa (em ruínas) é uma embaraço sem tamanho. Parece um grito de dor a soar inconfessável; lembra passadas ibéricas perdidas em meio ao verde da Mata Atlântica. Nem só de cidades e monumentos é formado o patrimônio histórico: as velhas fazendas de cacau espalhadas pelos baixios exigem um olhar mais contemporâneo e iluminista. É vasto o elenco de bens introduzidos na vastidão do ciclo do cacau de Linhares. Dei andamento ao meu espírito.


 


Espiando a casa, pus a lembrar-me de uma ranhura de Manoel de Barros: “Eu continuo a ser o menino que recebeu o privilégio do abandono”. Linhares (e aqui fica a palavra do secretário) necessita atar a sangria absurda de sua história. Que diacho!


 


 


 


 


Antonio Bezerra Neto


Secretário de Cultura de Linhares

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