ARTIGO – Agricultura familiar, juventude rural e a sucessão no campo

por admin_ideale

 


A literatura sociológica sobre a sucessão no campo diz que a decisão do jovem em migrar para núcleos urbanos (próximos ou não das áreas rurais) estaria ligada a fatores de diversas ordens, dos quais destaco dois. O primeiro, mais subjetivo, refere-se a uma certa “crise de identidade” a partir de suas representações dos modos de vida rural e urbano. A juventude rural não mais se identificaria com a vida de seus pais, principalmente em pontos como o esforço físico do trabalho rural, a dificuldade de lazer, as perspectivas de ganhos financeiros, o conservadorismo. Realmente, os jovens são “bombardeados” com modelos prontos de juventude urbana transmitidos pelos meios de comunicação de massa, como o folhetim global Malhação, e também pela escola (em geral localizada e pensada para o espaço urbano). Por outro lado, é preciso ressaltar que diversas pesquisas mostram que a grande parte dos jovens que moram em áreas rurais não necessariamente deseja migrar, mas, antes, quer unir os benefícios destes dois universos – o urbano (lazer, empregabilidade, acesso a novas tecnologias, dinâmica, etc) e o rural (segurança, sociabilidade, patrimônio familiar).


A segunda abordagem refere-se a aspectos mais objetivos e materiais. Há barreiras concretas que dificultam a permanência do jovem no campo. As relações capitalistas de produção vão se apropriando cada vez das áreas rurais, o que em geral significa latifúndio, monocultura, mecanização e grande impacto ambiental. A conseqüência direta é a expropriação de camponeses e a redução de empregos no campo. A produção da agricultura familiar precisa competir com a produção em larga escala da agricultura corporativa; a assistência técnica é inadequada, há poucas atividades não agrícolas e pouco financiamento público. Assim, o acesso a terra é cada vez mais visto como algo impossível, a permanência na terra, com as demandas novas desta juventude, é difícil e a sucessão familiar vai dividindo o já pequeno patrimônio fundiário da família.


A mudança deste quadro exige esforços coletivos de diversas naturezas. É preciso construir alternativas que permitam ao jovem não migrar, ou seja, que ele perceba o campo como local que permita a potencialização de seus projetos de vida, também com atividades não agrícolas. Por que ele não pode ser advogado, mecânico, médico, professor, técnico em informática, filósofo, psicólogo, pedagogo e continuar na propriedade rural? Afinal, nem todos os jovens do campo são filhos de famílias proprietárias de terra.


Esta é uma discussão que possui grande importância. Mais do que a permanência de jovens no campo, estamos falando da reprodução social que é a chamada agricultura familiar. É dela que dependemos para produção saudável da maior parte de nossos alimentos, é ela que gera o maior número de empregos no campo e é ela que pode apoiar a reversão da crise ambiental e social que vivemos.


 


Kleber de Oliveira


Bacharel em Ciências Sociais; mestre em Psicologia; Agente de Desenvolvimento do Banco do Nordeste do Brasil e professor da Faculdade Pitágoras de Linhares.

Você também pode gostar

Reset password

Enter your email address and we will send you a link to change your password.

Get started with your account

to save your favourite homes and more

Sign up with email

Get started with your account

to save your favourite homes and more

Powered by Estatik

Este site usa cookies para melhorar a sua experiência. Vamos supor que você está de acordo, mas você pode optar por sair, se desejar. Aceitar