Economia solidária

por admin_ideale

 


Unindo geração de renda e maior humanização, cooperativismo cresce na agricultura capixaba


 


“Desde novo, percebi que sozinho não chegaria muito longe”. Passado alguns anos, ainda é com este pensamento que o economista e produtor rural João Calmon Soeiro planeja sua vida. Foi no campo que ele começou a perceber a importância do trabalho em conjunto. Depois de terminar o curso superior e trabalhando na capital capixaba, Soeiro perdeu o pai e teve que voltar para Linhares, sua cidade natal, para assumir a propriedade da família que produzia cacau e leite. No final dos anos 70, ele começou a vender a produção leiteira para uma cooperativa de laticínios linharense, a Camil, e passou a participar ativamente da entidade. De lá pra cá, o pensamento da juventude foi se tornando em ações concretas de união.


O então pecuarista assumiu o conselho fiscal e a presidência administrativa da Camil, mas, na década de 90, se desligou da cooperativa para fundar uma unidade do Sistema de Cooperativas de Crédito do Brasil (Sicoob), no município de Linhares. Em 1993, Soeiro assumiu a presidência do Sicoob Norte Litorâneo, que recentemente se uniu ao Sicoob Centro-Norte, formando o Sicoob Leste Capixaba, com mais de 20 mil cooperados. “Na época, os bancos estavam saindo da área agrícola e atuando mais em outros setores. Então, surgiu a ideia da cooperativa de crédito”, lembra. Durante este tempo, o Sicoob se tornou um dos principais bancos do Espírito Santo e do Brasil. Hoje, é a segunda instituição financeira em operações rurais no Estado capixaba e a primeira em operações do Fundo de Defesa da Economia Cafeeira (Funcafé), com mais de R$ 300 milhões em operações de créditos, em geral, liberadas. “Dirigir uma cooperativa é uma responsabilidade muito grande, principalmente na área de crédito. Os lucros são dos cooperados e o dinheiro de outra pessoa é algo muito sagrado”, afirma Soeiro.


 



Soeiro atua há mais de 20 anos no cooperativismo


 


O espírito coletivo necessário para o sucesso do modelo cooperativista está ligado ao relacionamento humano. O crescente sistema capitalista, que ganhou força nas últimas décadas, começa a ser questionado sobre sua capacidade de sustentação. Preocupada com a direção que a economia está guiando as relações entre as pessoas, a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em parceria com o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, realiza este ano a Campanha da Fraternidade ‘Economia e Vida’, com o lema “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro”. Para o bispo da Diocese de Colatina (ES), Dom Décio Sossai Zandonade, o cooperativismo é o caminho que dá resposta a chamada solidariedade humana. “Deus nos fez para trabalharmos em comunidade, fazer crescer o relacionamento e a solidariedade entre nós. Somos uma grande família. Todas as iniciativas que fortaleçam a solidariedade, o sair do egoísmo, é uma fonte de alegria e de paz”, diz. 


De acordo com o bispo, o individualismo exagerado, tanto de nações, como das pessoas, faz com que a economia seja uma disputa forte entre indivíduos que querem se enriquecer a qualquer custo. “Mas o que Deus quer de nós é uma situação de partilha de bens, uns ajudando os outros. Isso a cooperativa dá uma resposta melhor”.


 



Historiador diz que cooperativismo proporciona paz social


 


Quem também acredita nesta premissa é o historiador Antonio Bezerra Neto. Para ele, a perspectiva da solidariedade está muito presente no cooperativismo “Aqui no Espírito Santo, onde há cooperativismo existe uma certa paz social. Ele tem uma missão política impressionante. Aonde há a média e pequena propriedade, a população vive de uma forma mais intensa. O nível de solidariedade é muito maior, de reciprocidade também”, afirma Bezerra. “Você trabalhar sozinho é muito triste. A união com outras pessoas gera aprendizado e nessa troca de informações é que está a grande oportunidade para o desenvolvimento das pessoas”, completa João Soeiro.


Na agricultura capixaba, o número de cooperativas cresceu cerca de 38% nos últimos quatro anos. A representatividade da classe, aliada a forma de condução das entidades, incentivou muitos agricultores a ingressarem neste sistema. “O ganho é de todos. Na questão do crédito, é possível visualizar isso bem fácil. Tem o grande, o médio e o pequeno cooperativista. Todos ganham proporcional ao seu negócio e o desenvolvimento é geral. Todos têm a mesma qualidade da prestação de serviços e usufruem do lucro de acordo com seu movimento”, exemplifica Soeiro.


Como a cooperativa pertence aos seus associados, a preocupação com o rumo da entidade deve ser de todos. “Quem participa de uma cooperativa não pode apenas colocar o seu produto ou seu dinheiro, mas ele também tem que conhecer as regras, participar das assembléias. Enfim, deve participar ativamente de tal maneira que esta cultura cooperativista não seja cultura de poucos, mas seja cultura de todos”, destaca Dom Décio.


 



Dom Décio: apoio ao cooperativismo


 


Quem representa o sistema cooperativista no Espírito Santo é o Sindicato e Organização das Cooperativas Brasileiras do Estado (OCB/ES). Para o superintendente estadual da OCB, Carlos André de Oliveira, a participação da Igreja Católica com a atual campanha da fraternidade é importante para ajudar a disseminar o cooperativismo. “A Campanha alerta a sociedade para a importância da implementação do espírito da solidariedade, da cultura da cooperação nos negócios com o espírito realmente solidário”, diz. Oliveira afirma não ter dúvida que este modelo econômico é muito mais justo do que o capitalismo e do que o comunismo. De acordo com ele, o cooperativismo não visa lucro e os resultados positivos, que são as chamadas sobras operacionais, são destinadas, única e exclusivamente, para o incremento dos negócios dos cooperados. “Com isso, eles têm uma atividade econômica, com trabalho, renda e cidadania”, diz o superintendente.


Apesar da evolução do cooperativismo no Estado, o Brasil ainda caminha neste quesito. Apenas 6% do produto interno bruto brasileiro estão nas mãos do cooperativismo. Já em países mais avançados, esse percentual é bem maior. “No Canadá, por exemplo, esse percentual chega a 45%”, diz Carlos André. Para o bispo Dom Décio, o cooperativismo ainda tem um grande espaço para crescer no Brasil. “Sobretudo se ele for purificado de tudo aquilo que possa assemelhar a uma espécie de atividade gananciosa”, ressalta.


Com a experiência de quem milita no trabalho cooperado há mais de 30 anos, o produtor rural João Soeiro afirma que o futuro caminha com a união. “O produtor isolado não chega muito longe. Estamos vendo isso em grandes empresas que estão se unindo pra ter maior lucro. É a mesma coisa na área rural, os produtores têm que se unir. Eu vejo no cooperativismo a grande solução para o nosso país”, diz o líder cooperativista.


A coletividade tem sido uma tendência do ser humano através dos tempos. As relações humanas, pautadas em valores que dão as diretrizes ao cooperativismo, serão sempre as principais forças para o sucesso deste modelo. “É uma atividade fantástica dentro dessa perspectiva de distribuir renda e humanização”, finaliza Bezerra Neto.


 


 


Franco Fiorot

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