ENTREVISTA ESPECIAL – Edivaldo Permanhane

por admin_ideale

 


Os problemas do campo estão causando dor de cabeça em muitos produtores rurais. Insegurança, legislações, falta de capacitação, pouca organização do setor, são algumas das preocupações do segmento agropecuário em todo país. No Espírito Santo, o Movimento Paz no Campo (MPC), criado em novembro de 2006, vem tentando trazer essas questões para a mesa de debates da população capixaba. Quem lidera o Movimento é Edivaldo Permanhane. Filho de produtor rural, o presidente do MPC nasceu em Cachoeiro de Itapemirim e migrou para o norte do Estado. Depois de trabalhar quatro anos como empregado no campo, conseguiu comprar uma propriedade e desenvolver seu trabalho na agricultura regional. Aos 47 anos, eleito também presidente do Sindicato Rural de São Mateus, Permanhane acredita que o homem tem que lutar pelo benefício do seu semelhante. “Se meu filho puder ter um bom brinquedo e o colega dele não, amanhã esse colega pode ir para outro caminho e fazer mal para meu filho. Temos que fazer algo para melhorar as condições de vida de todos”, afirma.


 


Preocupado com o rumo da agricultura, Permanhane concedeu entrevista à Revista Campo Vivo.


 


Campo Vivo:  O que deve ser feito para tentar conseguir a paz no campo?


Permanhane: Só em ficar na roça e produzir alimento, o homem do campo, o produtor rural, de modo geral, já é uma resposta a criação divina, que é produzir alimento, o combustível da vida. A gente planta e não sabe se colhe, se o sol ou a chuva atrapalham. Se você colhe não sabe se vai vender, se vai tirar o dinheiro investido. O homem do campo é uma classe abençoada por Deus, porque, apesar de não saber o quanto vai colher e ganhar, está garantindo o alimento para o mundo todo. Eu acho que o principal ponto é que o produtor tem que se organizar. Ele ficou muito dentro da porteira até hoje. Agora, ele tem que vestir o paletó para aparecer, deixar de ser o homem de braços cruzados escondidinho lá no canto das reuniões. O produtor precisa falar as suas necessidades. É preciso se organizar para poder reivindicar nossos direitos. O produtor sempre foi mansinho, aceitou tudo o que o governo fez. Só que agora não podemos deixar isso continuar, como, por exemplo, essa questão do Código Florestal. O governo acha que só o produtor rural é culpado por esse aquecimento global.


Nós que estamos lá no campo não somos revoltados com nada. Simplesmente nós concordamos que é necessário nos unirmos e falar para o governo: ‘Não, desse jeito não dá’ ou ‘Tem que ser desse jeito’. Os direitos têm que ser respeitados. Para ter paz tem que ter respeito e cada um tem que ter seu dever e sua obrigação.


 


Campo Vivo: A segurança no campo hoje é uma preocupação não só aqui no Estado, mas em todo o país. O que precisa ser feito para tentar melhorar essa questão da segurança na zona rural?


Permanhane: É uma coisa muito complicada falar de segurança. Você ter segurança no bairro, numa rua, é uma coisa. Já no meio rural tem gente que tem mais de 3km, 5km de distância uma casa da outra. A principal coisa que tem que ter é a punição. O bandido hoje está tranquilo. O governo precisa olhar mais para a zona rural, valorizar a agricultura. Se parar a agricultura, para o Brasil. A sociedade de modo geral, está enganada que Petrobrás é importante, móveis é importante, carro é importante. Claro que tudo tem sua importância, mas do petróleo não se alimenta, móvel e carro não enchem barriga. Tem que ter barriga cheia. Uma criança bem nutrida aprende fácil. Então, toda a sociedade, não só o governo, todo homem tem que valorizar o produtor rural. O escravo no Brasil hoje é o trabalhador rural. Hoje eu não tenho coragem de morar na roça. Com uma faca de serra um ladrão chega lá e rende sua família toda, te amarra e rouba tudo o que você tem. É preciso gastar dinheiro com a segurança no campo e punir mais os bandidos.


 


Campo Vivo: Em relação ao código florestal que está em debate no Brasil. Qual o impacto da lei florestal na agricultura capixaba?


Permanhane: Se eu pudesse dar uma risada na revista, eu iria rir um milhão de anos. Isso porque aqui no Brasil quem fazem as leis são pessoas que não tem conhecimento de nada, de cada setor. Às vezes, quem elabora as leis do setor agrícola na conhece um pé de feijão. Mas estão ali por causa de cargos políticos, favores de campanhas políticas. É preciso entender para fazer a lei. A lei ambiental em vigor está defasada, é de 1965. Tem coisas ali que é uma vergonha. Se for seguir aquele código florestal ali, não vai mais se produzir alimentos no Brasil. Vai ser mata pura e ninguém come pau. Não concordo em desmatar, nós precisamos ter a reserva, mas é preciso saber também que o produtor rural não desperdiça água, ele transforma. Um pouco da nossa água vai para irrigação, e ela evapora. A outra parte filtra, vai para o solo para alimentar o lençol, e uma outra parte vai no alimento. A nossa água não é perdida , pelo contrário, o pessoal fala que agricultura consome água, mas não consome. Nossa água só muda de lugar, depois ela volta para o ciclo outra vez. É preciso que o governo ouça o produtor. Outra questão importante é que o governo multa o produtor, mas nunca veio nenhum órgão ambiental orientar uma comunidade, como que tem que ser feito o procedimento de uma barragem. A multa do governo não teria que ser tirar dinheiro do produtor, não. Teria que punir o produtor com pena alternativa. Se você derrubou uma árvore, você tem que reflorestar 100 ou 1000 árvores.  O governo tem que fazer a parte dele, não tem que só punir o produtor.


 


Campo Vivo: A questão da profissionalização está cada dia mais presente no campo. Você acredita que o produtor rural está preparado para se profissionalizar e  continuar nesse mercado cada vez mais competitivo?


Permanhane: Falando em termos gerais, o nosso produtor está ainda andando num ‘modo tartaruga’ e a economia está voando. O produtor precisa buscar mais conhecimento. O produtor do Norte do Estado está até bem, produzindo muito por hectare. Mas é preciso profissionalizar mais ainda na questão ambiental, que não adianta destruir, tem que procurar um cantinho lá e preservar. É preciso pulverizar os agrotóxicos com mais responsabilidade, tem gente que não tem muito conhecimento. Inclusive tem lojas que comercializam produtos agropecuários que é preciso esclarecer mais. Hoje nós temos a devolução de embalagens vazias que é obrigatória. O produtor daqui do ES está bem, mas num modo geral ainda estão um pouco tartarugas e a economia está como um disco voador, bem na frente.


 


Campo Vivo: E as leis trabalhistas para o trabalhador rural…


Permanhane: A lei trabalhista, como a lei ambiental, ela está defasada. Se você for analisar, a lei trabalhista desestimula novo empregador, é muito pesada, muita cobrança, diante da nossa realidade. A nossa mão-de-obra vem de outros Estados e não tem grande qualificação. O custo de você, empregador, seguir a lei é muito alto e o retorno da produtividade de cada funcionário é pequeno. Se colocar na balança, o que o mercado exige em termos de qualidade, e o que a lei exige de você (técnico em segurança, engenheiro de trabalho, médico de trabalho, exame médico etc), a produtividade individual é muito pequena. O retorno dessas exigências e desse investimento acaba sendo inviável para você gerar emprego. Aí, às vezes, a pessoa pensa: “Ah, vou plantar eucalipto, vou plantar capim, que uma pessoa cuida de 5 mil cabeças de boi”. Então, a lei trabalhista desestimula novo empregador.


 


Campo Vivo: A união dos produtores, como você já citou, ainda é muito fraca. Na sua opinião, o que motiva essa pouca união da classe dos agricultores aqui no país?


Permanhane: O grande problema é que o Brasil não valoriza a agricultura. Vive dela e não valoriza. Vou explicar: o produtor rural é obrigado a fazer o projeto, ser o engenheiro, secretário, vendedor, comprador, gerente, trabalhador, entre outras funções na propriedade. Ele tem que ser mil e uma utilidades porque se ele for pagar essas tarefas, como a Petrobrás paga o motorista que é só motorista, o engenheiro que é só engenheiro, a cozinheira que é só cozinheira, ele não consegue pagar nem o primeiro mês desses trabalhadores.  Então, o produtor tem que fazer tudo e acaba não sobrando tempo de participar de reuniões de cooperativas, sindicatos, associações. Porém, hoje ele está sendo obrigado a sair da porteira e participar da política, porque o governo está achando que nós produtores que estamos acabando com o Brasil. Tem muitos movimentos ligados a órgãos do governo que acham que o produtor está acabando com tudo. O produtor vai ter que sair de dentro da propriedade pra vir aqui fora brigar. Eu sonho muito em mudar essa realidade, até porque já mudou bastante. A CNA (Confederação Nacional da Agricultura) está trabalhando muito isso, as Federações de Agricultura, os nossos sindicatos. E eu sonho com a agricultura forte no Brasil. Já é forte lá dentro da porteira, mas temos que ser forte fora da propriedade também. Nós vamos ter que vestir o paletó pra ser bem visto. Se chegar na sua casa de mendigo você não abre a porta, mas se chegar de terno você abre. É o mesmo mendigo e você pensa que é um doutor. O produtor rural precisa vestir o paletó e partir para cima para reivindicar seus direitos.


 


Campo Vivo: Você acredita em vivenciar a paz no campo, mesmo que não seja por completo, mas a paz que você idealiza?


Permanhane: Cada passo, cada pensamento, cada ação sua, temos que pensar o que você está estamos fazendo para deixar para a futura geração. Nós temos que trabalhar melhor a distribuição de renda para o nosso próximo. Quando o ser humano, não só o produtor rural, começar a pensar se fosse ele lá passando fome, sem saúde, sem trabalho, sem casa, o que ele ia gostar que alguém articulasse? Quero que as pessoas pensem sobre isso. “Quando eu morrer irei deixar uma história de cidadão brasileiro e um ser humano comprometido ou vou morrer um ‘Zé Ruela’?”. Tem que morrer um homem honesto, trabalhador, que articulou para que o próximo tenha vez e voz. Cada um deve fazer sua parte, como pai, como filho, como vizinho, como amigo, como empregador, como trabalhador. O dia que cada um fizer a sua parte, o mundo vai estar melhor. Os produtores se organizando, acredito que vamos encontrar essa paz e mostrar para o governo que ele não pode perseguir o produtor de alimento como ele vem perseguindo. O dia que respeitarem mais a gente nós vamos ter essa paz.


 


 


Revista Campo Vivo


entrevista publicada na edição 06

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