O Governo Federal acaba de anunciar a venda de estoques oficiais de café, da ordem de 480.000 sacas. Sabidamente, estes estoques não são dos melhores cafés, até porque o mercado privilegiou, nesses últimos anos, a qualidade, pagando preços mais elevados. De outra parte, só existe café arábica tipo 6, porquanto é sabido que o Governo nunca comprou e estocou café conilon. Os produtores capixabas que o digam. Essa luta dos capixabas é árdua, mas não acabou.
Sinceramente, ou a idade está afetando os meus poucos neurônios, ou não está havendo uma convergência de posições dentro do próprio Governo. Cada um fala o que quer, propõe o que não deve e gera apreensão e desconfiança dos agentes da cadeia.
Quem acompanha o mercado do café e as decisões da política cafeeira do Governo Federal é testemunha, senão vítima, das divergências entre os atores da cadeia produtiva dos cafés, seja do arábica ou do conilon. Apenas para recordar, ainda paira no ar as discussões sobre a liberação de importação no regime “draw back”, aguardando acalmar o clima eleitoral para voltar ao caldeirão.
Outro tema conflitante é a questão do preço de sustentação do café. Os dados da própria CONAB, de preços e de custos, mostram o desequilíbrio que sangra a renda dos produtores.
Estamos acabando a colheita da safra comercial 2010/2011 (do café arábica, pois a do conilon acabou em julho), de cerca de 50 milhões de sacas, os preços estão num ciclo de baixa e o Governo informa que vai colocar no mercado os estoques oficiais? Que Deus nos proteja!
Pior ainda, as primeiras notícias sobre a colheita do próximo ano geram até certo alívio para os produtores: A produção vai ser baixa, dentre várias razões, por conta da bienalidade na produção, anormalidades climáticas e desestímulos nos tratos culturais, por influência dos preços baixos e descapitalização dos produtores. E aí, paradoxalmente, surge a esperança dos produtores: Perder em produtividade e produção para ganhar preços. É o mesmo que os pecuaristas torcerem para o boi não engordar para o preço da arroba subir.
Estrategicamente, o Governo Federal, sob todos os pontos de vista, não pode vender café agora. É preciso esperar, ao menos, pela safra do ano que vem. Se, de fato ela for fraca ao ponto de recuperar os preços, estão o Governo poderá gradualmente desfazer-se de seus estoques, aplicar o dinheiro para apoio à renovação dos cafezais e construir uma política cafeeira mais consentânea com os anseios dos cafeicultores. Sempre insisto, os produtores são o elo mais fraco do negócio café. Mas não precisam de esmolas. Apenas querem e insistem que os Governos façam a parte deles e não atrapalhem os produtores.
Wolmar Loss
Engº Agrº – s Economia Rural e
Desenvolvimento Econômico

