ARTIGO – O furto da bezerra

por admin_ideale

 


Das histórias do Rural, conta-se que um pequeno criador de gado, de não mais de 30 reses, tinha paixão pelo que fazia. E vinha melhorando o rebanho, para aumentar a produção e a produtividade do leite, cujo resultado originou uma bezerrinha que era o xodó do sítio.


 


Eis que numa manhã sentiu falta da melhor bezerra do rebanho, aquela em que depositava as esperanças de um grande salto de produtividade. A vaca mãe, sentindo a ausência da filha, berrava em apelos profundos para vê-la de volta.


 


O pequeno produtor, coitado, andou para lá e para cá, foi aos vizinhos, buscou nas beiradas do rio e nada. À tardinha, arriou o cavalo e decidiu dar queixa ao delegado. Dormiu na cidade, pois não encontrou o homem da Lei. Pernoitou na casa de um velho amigo, também fazendeiro, gente boa e reconhecida na sociedade pela sua integridade e coragem para enfrentar injustiças e até muitos que se diziam valentões, nas lavras e fazendas da região.  Ele, o fazendeiro era o conselheiro, o “advogado”, o “delegado”, para dirimir pendências na região. Coisas do rural antigo.


 


Voltando no dia seguinte para sua terrinha, depois de boas conversas com o fazendeiro conselheiro, ainda triste com o desaparecimento da bezerra, passou próximo a um curral e viu sua bezerrinha presa, também berrando, clamando pela mãe. O susto foi grande. Logo o homem mais estranho da região, vindo de fora, que comprara a fazenda de terceiros, abocanhado áreas devolutas, expulsado alguns posseiros. Logo ele?


 


Ainda preocupado, retornou à cidade e procurou o fazendeiro honrado e lhe contou a história. O Conselheiro pensou um pouco e decidiu. Vamos lá conversar com o dono da fazenda em cujo curral sua bezerra está. Chegaram, viram a bezerra afastada das demais reses, meio inquieta, e lá apareceu o dono da fazenda.  A conversa começou pelo elogio ao rebanho e acabou chegando à bezerra furtada. O fazendeiro disse que era cria da fazenda, de inseminação artificial, coisa e tal…, até tinha dela o registro.


 


Mas o Conselheiro, astuto, disse que ela não tinha o mesmo sangue dos demais animais da fazenda, tipo nelore, para produção de carne e não de leite… . Até que a conversa chegou ao desaparecimento da bezerra. O homem se enfureceu, disse que não era de roubar gado, que tinha pessoas influentes no governo, negou, renegou, ameaçou o reclamante, ficou nervoso e não admitiu o furto.


 


Parece até coisa de político negando os fatos. Nega-se o mensalão, nega-se a corrupção, nega-se a quebra de sigilo, o tráfico de influência. E até admite: O povão não sabe dessas coisas, por isso vamos ganhar no primeiro turno as eleições e até começam o loteamento dos cargos públicos, para o próximo governo. E a imprensa informa: Perguntada, a autoridade envolvida negou. Outros ameaçam processar a imprensa; outros, mais autoritários, falam em extirpar partidos e acabar com a liberdade de imprensa.


 


Mas voltando à bezerra, o Conselheiro, de boa fé perguntou: Posso então trazer as vacas, com alguns outros animais do sítio do reclamante (animal sozinho é difícil de tanger), para fazer o reconhecimento da bezerra? O larápio, mesmo desconfiado, autorizou. O gado tangido se aproxima do curral e a bezerra berra. A vaca mãe responde e, assim que entram no curral, a bezerra corre para a mãe, e mama. A vaca cheira e lambe a cria.


 


Estamos vivendo momentos tumultuados em que se apela ao direito ao contraditório e à ampla defesa. Nas democracias, a informação, as proposta, os programas, e o contraditório se estabelecem nos debates, especialmente pelos meios de comunicação. Negar a liberdade de imprensa é matar o Conselheiro, o guardião da democracia.


 


Nestes tempos, tem muitas bezerras escondidas por aí. Uma ou outra aparece, mas nega-se sua origem, outras estão sepultas. Infelizmente, a esperteza, a dissimulação e a dialética da negação e da desinformação marcam esses dias tumultuados.


 


Ainda bem que há a imprensa e os juristas para alertar e defender a sociedade. Do contrário, não haveria como saber, tampouco reconhecer as bezerras.


 


 


                                                                                    Wolmar Loss


    Engº Agrônomo – Mestre em Economia Rural


                                                                    e Desenvolvimento Econômico


 


 


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* Uma homenagem a Antônio José Ribeiro, íntegro Conselheiro das Minas Gerais, cujo caso solucionou nos idos dos anos 60, e cuja história, adaptada e resumida, me inspirou este artigo.

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