A informação da assessoria do MDA/INCRA foi passada com um sentido positivo, cuja manchete destacava, em matéria reproduzida pelo Portal “Campo Vivo”: PGPAF: 23 culturas da Agricultura familiar tem bônus em Setembro. O site cita a fonte, conferindo o devido crédito e reproduzindo com fidedignidade toda a matéria, como um exemplo digno de ética e compromisso com a notícia. Mas vale à pena perguntar: a notícia é boa ou ruim para a agricultura e os agricultores familiares. Na minha avaliação é péssima e explico as razões.
Primeiro, porque das 40 culturas do Programa de Garantia da produção agrícola familiar, 23 estão sendo contempladas com o bônus do governo, para quitar os débitos do crédito rural do PRONAF, sejam os empréstimos de custeio ou de investimentos. Ora, para quem tomou empréstimo, isto significa que a renda foi tão baixa que precisou do socorro do governo para pagar a conta.
Segundo, só tem direito ao bônus quem tomou emprestado no banco. Aqueles que usaram sua força de trabalho e recursos próprios não tem acesso ao bônus. Esses estão pagando duas vezes. Perderam seu dinheirinho utilizado no custeio ou investimento e ainda ficaram com o prejuízo do péssimo resultado da renda agrícola. Isto só vem a confirmar nossas análises anteriores, muitas delas publicadas neste site, por deferência dos gestores do Portal Campo Vivo: A renda agrícola não foi favorável aos produtores nesses últimos anos.
Do jeito que a coisa vai, daqui a pouco todas as categorias de produtores, independentemente de tamanho, estarão pleiteando um bônus para pagar suas dívidas. Os bancos, como sempre, agradecem. Estes bônus viabilizam a liquidação de parte dos empréstimos, senão a inadimplência estaria muito mais elevada. Renegocia-se num banco, recontrata-se em outro, recorre-se às bonificações, e a vida vai passando. Vamos patinado ou indo como caranguejo, fingindo que vamos de lado, mas o vetor é cruel; caminhamos para trás.
Mas as preocupações são mais profundas. É neste ambiente de meias verdades e inverdades que estamos mergulhados. Pior, a maioria dos produtores acredita e aqueles que não acreditam, porque sabem da verdade, fingem não saber, ou pior, entram no circuito da omissão ou do silêncio para se proteger, ou se beneficiar dos benefícios da representação, discursando o mesmo discurso inconsequente.
No jogo democrático da informação, da contra-informação e do contraditório, pouco se debate e muito menos se analisa, nos dias atuais. Assim não avançamos, tampouco consolidamos nosso futuro. Vive-se (e caminha-se) como caranguejo, até que a maioria seja apanhada por predadores. E nem saberemos mais distinguir quem é presa e quem é predador.
Wolmar Roque Loss
engenheiro agrônomo, mestre em desenvolvimento econômico

