CRÔNICA – Dr. Lastenio e as velhas fazendas de Linhares

por admin_ideale

 


 


Dr. Lastenio e as velhas fazendas de Linhares


 


 


 


Venho do mundo rural. O tipo étnico que permeou minha meninice foi a do vaqueiro que nasceu brilhantemente do contato do branco conquistador com o índio, durante a penetração do gado nos sertões do Nordeste brasileiro. O vaqueiro ainda é a figura essencial de uma fazenda sertaneja. Seus afazeres são penosos. Atravessa grande parte do tempo montado a cavalo fiscalizando a pastaria, as cercas e as nascentes.


 


Sou assumidamente filho das lições deixadas por Gilberto Freyre (1900—1987), inspirador das grandes análises encantadoras e graúdo analista da nossa têmpera culturalista sobrevinda dos muitos segredos da miscigenação. Freyre foi um observador atento das muitas expressões do mundo rural, notadamente da estrutura colonial dos grandes engenhos implantados em Pernambuco.


 


Afoitamente (veja o termo) asseguro que o processo de ocupação de Linhares guarda sutil analogia com os conceitos de Freyre — claro que estou relativizando. A presença da grande propriedade em Linhares guarda discretíssima relação com os conceitos gilbertianos. Em nome do rigor historiográfico, é bom resguardar os conceitos severos da história.


 


Tenho lido preciosidades sobre a Linhares rural. Com ares antropológicos, o historiador Lastenio Calmon Junior, em “Vultos, Fatos e Lendas Linharenses”, relata com sensibilidade o cotidiano das antigas fazendas de Linhares: “Não raro, era encontrada, em cima da mesa grande da sala de jantar, uma tigela avantajada de leite, coberta com alva toalha, e em latas, cuidadosamente guardadas, viam-se tapiocas feitas com esmero nos alguidares de farinha”. E segue o impressionante historiador do coloquial: “Banana da terra cozida ou frita na gordura, aipim, batata-doce, bolinhos, papas de milho, beijus de folha; essas e outras guloseimas eram comuns por essas fazendas”. E o melhor: “Era um prazer aos fazendeiros ter alguém estranho à mesa para almoçar ou jantar. E que fartura”, finaliza.


 


Dr. Gilberto Freyre é espaçoso quando fala da gastronomia que imperava na casa-grande. O sociólogo pernambucano, autor do clássico “Casa-grande e senzala”, garante que, nos tempos coloniais, no lugar do pão, o beiju de tapioca, ao almoço, e, ao jantar, a farofa ou pirão escaldado feito no caldo de peixe ou carne. Não nega que a influência africana na alimentação necessitasse de restrições no seu exagero de condimentos. Mas um fato é básico: muitos costumes se enraizaram e predominam até os dias atuais até mesmo em Linhares.


 


Freyre e Lastenio são filhos indiscutíveis da Escola dos Annales tida como a “Nova História” em que a atividade humana é considerada história de grande valor. Falo da força do cotidiano. Em Lastenio, surge o linharense cordial, generoso com as portas da fazenda abertas para abrigar amigos e conhecidos. E deixa claro que era de costume as trocas de visitas entre os fazendeiros. As casas já eram construídas para receber hóspedes. Espécie de mundo idílico feliz, chuvoso, cheiroso, coaxado por sapos admiráveis e vaga-lumes na boca da noite — que governava as velhas fazendas.


 


A história é puro encanto por estas terras de massapé. Fica a lição de outro gigante do pensamento historiográfico que dizia com pompa que a histórica é um movimento em que não se pode colocar um ponto final. Falo de Sérgio Buarque de Holanda que teceu parte de nossa historiografia. Linhares caminha por essas picadas. Que bom!


 


 


 


Antonio Bezerra Neto


Secretário de Cultura de Linhares, ES

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