De há muito, as lideranças dos produtores e das cooperativas vinham sinalizando para os desequilíbrios competitivos no agronegócio capixaba. As operações fraudulentas de falsos empresários e laranjas interferiam no mercado, coisa que, por cultura, princípio ético e por controle interno, as cooperativas não praticavam.
Criava-se, por decorrência, um ambiente desigual de eficiência, levando a um verdadeiro complexo de inferioridade entre os gestores cooperativistas. Pior, nesta falsa eficiência, se avaliava que as cooperativas não apresentavam o mesmo dinamismo no mercado, o que levava à redução de seus quadros de associados ativos, porquanto o mercado podia pagar melhor preço para o mesmo café, mais bem remunerando muitos dos antigos associados das cooperativas. Mas a maior parte do leão ficava mesmo com os falsos comerciantes.
No transcurso do tempo, e no silêncio dos que não querem investigar, tampouco decidir, buscava-se justificações forjadas para explicar os viesses das estatísticas e os vazamentos das receitas públicas. Os laranjas e fantasmas se expandiram e avançaram no mercado capixaba, desbancando também muitos empresários privados idôneos do comércio local e regional de café, pela competição desigual.
Atingida em sua estrutura, e fragilizada a rede perversa, os produtores retornam às cooperativas, buscando um porto seguro para as operações de comercialização do café. Muitos deles associados que debandaram para as oportunidades de melhores preços ocasionais, deixando-se capturar pelos oportunistas.
Absolutamente não acredito em má fé desses produtores. |Mas poderão, como já aconteceu, ser eventualmente convocados a explicar relações comerciais com os pseudos comerciantes, especialmente se forem constatadas notas fiscais falsas em nome desses produtores com o uso desproporcional de “vendas” de café, para calçar transferências de créditos, especialmente de contribuições, sem recolhimento na origem, conforme noticiado.
De tudo o que já foi divulgado, e que certamente tem mais a aflorar, ficam algumas lições para os produtores. Não se deixem iludir com oportunidades imediatas. Associem-se às cooperativas e sejam ativos nas operações comerciais e nas Assembléias Gerais dos Associados. Quanto mais escala as cooperativas tiverem, melhor o preço pago aos produtores associados, por diluir os custos fixos.
Para as cooperativas que operam no mercado de café, as oportunidades são ótimas para expansão do quadro social e dos negócios, com a cautela de se estruturarem para prestar serviços diferenciados em qualidade e abrangência. Expandir sem estratégias e sem projetos diversificados, de novos negócios e de agregação de valor, pode dar em nada.
Criar novas cooperativas nessa hora deve ser descartado, a não ser como excepcionalidade e com projeto muito bem fundamentado, especialmente quanto à análise de riscos. Até por que os fracassos do cooperativismo redundam em custos sociais elevadíssimos. As perdas culturais e organizacionais perduram no tempo, criam resistências ao movimento cooperativista e alcançam uma geração de novos gestores cooperativistas, sacrificando, de conjunto, as oportunidades de novos negócios por duas ou três décadas. Sob esta ótica, constituem-se quase em tragédia coletiva.
Sobre o tema da “Operação broca”, tomo a liberdade de transcrever aqui minha mensagem ao Carlos André, Superintendente da OCB/ES- SESCOOP/ES, datada de 15/06/2010:
“Louvo sua iniciativa e a disposição de apoiar as cooperativas para capturar a oportunidade de expansão, deflagrada com a “Operação Broca”. Correlacionando seu e-mail com a mensagem do Wellington, parece que a operação broca desestruturou em algumas regiões do interior o mercado regional do café, particularmente onde se verifica a ausência das cooperativas do ramo café. Nessas circunstâncias, fortalecem-se movimentos em favor da criação de novas cooperativas, o que já vinha sendo constatado, com menos motivação, para o caso do leite, do café e de frutas, mesmo antes da “Operação Broca”. Acho muito prudente e correta a orientação da OCB/ES, para fortalecer as existentes, antes de incentivar a aventura de criação de novas cooperativas, com baixa escala operacional, sem viabilidade. Parabéns à OCB/ES por adotar essa postura.
Destaco que a operação broca é sim uma oportunidade para as cooperativas se posicionar de forma mais incisiva e abrangente no mercado do café, especialmente onde as operações de intermediários locais e regionais foram alcançadas pelas ações fiscais, paralisando ou interferindo na dinâmica local do mercado do café, o que parece ser o caso de Rio Bananal, conforme relato do Wellington.
Acho relevante as cooperativas do ramo avaliarem os efeitos da operação broca nas suas respectivas áreas de atuação e estabelecer estratégias de ação com foco em dois objetivos:
a) Atuação emergencial visando recuperar o dinamismo do mercado local/regional nos municípios/distritos onde as operações se fizeram presentes, e afetaram as aquisições e os preços locais do café. Neste caso, as ações emergenciais seriam centradas em estruturas provisórias (armazéns/ casas/escritórios para compras de café de associados novos, com ampla campanha de filiação. A SEAG/ES, A CONAB e o SICOOB/ES, poderiam viabilizar os meios, sendo o SICOOB/ES o “banco” preferencial para o capital de giro das cooperativas nas operações de aquisição de café. A SEAG/ES, via Incaper e CEASA, na divulgação, e a CONAB, nas operações de suporte à armazenagem( leilões de opção, PGPM). A SEAG/ES, poderia inclusive, subvencionar custos de transporte e de armazenagem transitória.
b) as medidas de prazos mais dilatados seriam aquelas de consolidação das estruturas, com sede de filiais, armazéns, assistência técnica, revendas de implementos e insumos etc., cuja decisão de implementar requer estudo prévio de viabilidade, inclusive de provimento de recursos para sua implementação, não dispensando o apoio dos governos locais e estadual na viabilização de meios e infra-estruturas para fortalecer a presença das cooperativas nesses municípios/distritos.
Como sempre, tais idéias estão na direção dos objetivos da OCB/ES e das cooperativas, para capturar as oportunidades e viabilizar o propósito de expansão e fortalecimento do Sistema, em território capixaba”.
Por fim, diria o cauteloso produtor, ao ouvir de oportunistas que o cavalo estava passando arreado: Mas quem falou que a cilha e a barrigueira estão devidamente apertadas?
Wolmar Roque Loss
Engº Agrº, Ms em economia rural

