Irrigação e dualidade tecnológica na agricultura
A recente divulgação dos dados do Censo Agropecuário 2006, de responsabilidade do IBGE, embora exiba algumas inconsistências de informações na comparação de séries censitárias, traz para a atualidade muitas questões relevantes da agricultura capixaba que ficaram submersas por mais de uma década, em vista do decênio que separa os anos censitários, aí incluído o uso da irrigação.
O plano estratégico de desenvolvimento da agricultura capixaba – Novo Pedeag, mesmo no obscurantismo dos dados, destacava como condicionante do crescimento da agricultura, por auscultação dos vários segmentos dos produtores, a “restrição à expansão da agricultura irrigada, em vista da escassez de água, e a ampliação das desigualdades sociais…, nas regiões de maior déficit hídrico” (Novo Pedeag, pg. 35).
Vamos aos dados: saltamos de 14.764 estabelecimentos rurais que usavam irrigação em 1995/96 para 24.984, em 2006, ou seja, mais 10.220 propriedades rurais que passaram a usar a irrigação. A área total irrigada que era de
Deriva dos dados do Censo Agropecuário, também, a distribuição dessas áreas entre os vários segmentos da agricultura irrigada, para os agrupamentos estratificados de áreas de lavouras, as quais são os maiores consumidores de água para irrigação. Assim, dos 24.984 estabelecimentos que usam irrigação, apenas 156 não apresentavam áreas de lavoura, o que se presume ser criadores pecuaristas ou produtores cujas áreas de lavoura estavam sendo preparadas para novos plantios.
Portanto, 24.828 estabelecimentos declararam possuir áreas irrigadas com lavouras, cuja dispersão varia da seguinte forma, em termos de área média irrigada por estrato de área de lavoura (tabela I):
TABELA I – Estabelecimentos, área total e área média de lavouras irrigadas 2006
GGrupos de área de lavouras ((ha) | Estabelecimentos | Área Total (ha) | Área Média (ha) |
| | | |
MMaior de | 864 | 496 | 0,57 |
DDe | 2.040 | 2.649 | 1,30 |
DDe | 7.453 | 18.718 | 2,51 |
DDe 5 menos de 10 | 6.794 | 31.824 | 4,68 |
DDe | 4.545 | 40.298 | 8,87 |
DDe | 2.365 | 43.746 | 18,45 |
DDe | 486 | 21.450 | 44,13 |
DDe | 192 | 17.022 | 88,66 |
DDe | 64 | 10.557 | 164,85 |
DDe | 25 | 18.845 | 753,80 |
TTOTAL | 24.928 | 205.606 | 8,25 |
Fonte: Censo Agropecuário 2006.
A tabela mostra que 68,80% dos estabelecimentos têm áreas de lavoura irrigada de até
Os métodos de irrigação com mais freqüência de uso variam segundo os vários estratos de tamanho da área irrigada, destacando-se que a aspersão com pivô central é mais utilizada em áreas irrigadas superiores a
A análise sobre o uso da irrigação na agricultura capixaba revela, portanto, um crescimento significativo na utilização desse recurso, tanto em número de estabelecimento como em área irrigada, comparativamente ao censo agropecuário 1995/96, além da concentração da área irrigada, conforme já evidenciado.
Assim, as informações do Censo Agropecuário não só confirmam as ameaças, como traz mais luzes ao problema do uso d’água na irrigação e o viés de desigualdade que poderá se amplificar na agricultura capixaba, conforme identificado no Novo Pedeag.
De outro lado, ao compulsar os mesmos dados do IBGE, aflora as lacunas cujo escopo foge aos objetivos dos Censos, mas é essencial para o processo de construção do futuro, ou seja, até onde poderemos ir com a irrigação e como ir, em vista dos limites físicos e ambientais dos recursos hídricos de que dispomos. Enfim, a questão é definir quanto podemos crescer em uso de água para irrigação.
Ademais, ao considerar os limites ao crescimento da área irrigada para o futuro, duas linhas de ação surgem para o futuro: (i) Como aumentar a disponibilidade de água através da reservação e sua utilização mais eficiente na agricultura, de maneira mais acessível e distributiva? (ii) Como gerar e adaptar tecnologia para aqueles produtores que tem acesso restrito, ou não contam com recursos hídricos suficientes em suas propriedades?
Afinal, para os padrões tecnológicos hoje existentes, e considerando os elevados déficits hídricos no Espírito Santo e as crescentes demandas dos outros setores, incluindo o abastecimento humano, o desafio será buscar soluções para a gestão dos problemas de demanda para os diferentes usos de água.
A tecnologia, no futuro próximo, e muito próximo, terá que responder a essas questões. Na agricultura, a dualidade já é real, entre os que usam e os que não usam a irrigação. Se não dermos alternativas aos vários segmentos dos produtores, podemos ampliar o fosso entre esses produtores, por ausência de opções tecnológicas. Seguramente este é o grande desafio para a agricultura continuar crescendo, gerando empregos e distribuindo renda.
Wolmar R. Loss
Engº Agrº, MS
Artigo publicado na Revista Campo Vivo – edição 04 – dezembro/2009

