Antonio Elias Souza da Silva – “É preciso avançar mais”

por admin_ideale

 


A limitação da orientação técnica no interior de todo Brasil continua sendo um grande problema para a agropecuária nacional. Para muitos especialistas, um dos principais nos dias atuais. O Censo Agropecuário 2006, divulgado pelo IBGE, no final de setembro, revelou que a orientação técnica é praticada em 22% dos estabelecimentos, que ocupam 46% das terras. A área média do grupo que recebeu assistência é 228 hectares; enquanto a dos não assistidos é 42 hectares. Os números mostram que o serviço é mais comum em médias e grandes propriedades.


 


De acordo com a pesquisa, a orientação técnica de origem governamental atinge 43% dos estabelecimentos assistidos e está mais voltada para os estabelecimentos menores, com área média de 64 hectares.


 


Já o nível de instrução da pessoa que dirige o estabelecimento tem uma forte relação com o recebimento de orientação técnica. Dos produtores com instrução igual ou inferior ao ensino médio incompleto, apenas 16,8% receberam assistência técnica, enquanto que para os produtores com ensino fundamental completo este percentual sobe para 31,7%. Para os produtores com nível superior, excetuando-se aqueles com formação em ciências agrárias e veterinária, a assistência técnica alcança 44,7% dos estabelecimentos.


 


Um dado que chama a atenção no Censo é o baixo nível de escolaridade dos produtores agropecuários. A grande maioria deles são analfabetos ou sabem ler e escrever, mas não têm nenhum estudo (39%) ou têm ensino fundamental incompleto (43%), totalizando mais de 80% dos produtores rurais.


 


Com vasta experiência no setor agrícola, o engenheiro agrônomo e diretor-técnico do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper),  Antonio Elias Souza da Silva, concedeu entrevista a Revista Campo Vivo. Graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo, com mestrado em Extensão Rural pela Universidade Federal de Viçosa-MG e técnico agrícola formado pela Escola Agrotécnica Federal do Espírito Santo, Antonio Elias conhece os gargalos da agricultura capixaba.


 


Antes da entrevista, ele fez questão de explicar os conceitos de assistência técnica e extensão rural. Resumidamente, o agrônomo afirmou que o primeiro “é um conjunto de ações integradas que objetiva dar condições ao produtor usuário de adotar e utilizar técnicas recomendadas para o êxito de seu empreendimento. Extensão rural, por sua vez, utiliza métodos e procedimentos que tem caráter educativo que visam emancipar o agricultor. As palavras mágicas nesse serviço é ensinar e transformar”. Além de conceitos, Antonio Elias falou sobre as dificuldades e os desafios para melhorar a orientação técnica na agricultura.


 


 


 


Campo Vivo – De acordo com a pesquisa, na maioria das propriedades onde houve aplicação de agrotóxicos, o responsável pela direção dos trabalhos declarou ter ensino fundamental incompleto ou nível de instrução menor (77,6%). Até que ponto o nosso agricultor está preparado para o uso das tecnologias?


 


Antonio Elias – O grau de instrução do produtor rural e sua família é decisivo para a compreensão e posterior incorporação de tecnologias, conhecimentos e informações. No Espírito Santo, em passado recente, já registramos problemas sérios de uso incorreto de agrotóxicos, com consequências danosas ao aplicador (trabalhador rural) e à população (consumidor), seja pelo uso inadequado do produto, seja por erro na dosagem, seja pela não observância do período de carência do agroquímico. Embora tenha melhorado muito com a perseverança das orientações técnicas do Incaper e dos cursos de capacitações realizados pelo Idaf e pelo Senar, além do envolvimento e comprometimento das revendas desses produtos, é preciso avançar mais. Neste caso, paralelamente às ações de conscientizações com os produtores, envolvendo campanhas educativas competentes, é necessária a consolidação de ações já existentes e a ampliação das oportunidades de acesso à educação formal e informal para os jovens e adultos do espaço rural, em sintonia com a sua realidade. Isso, a partir de parcerias com outras instituições e o envolvimento maior da sociedade civil organizada.


A partir de 2003, com a implementação do Pedeag (Plano de Desenvolvimento da Agricultura Capixaba), a Secretaria de Estado da Agricultura tem coordenado programas que estão melhorando e vão melhorar ainda mais a educação rural. Só assim nossos agricultores estarão preparados de fato para compreender e adotar tecnologias de ponta, tão necessárias à sustentabilidade de sua atividade.


 


 


CV – Melhorar o entendimento das bulas dos defensivos agrícolas, com uma linguagem mais acessível ao produtor rural, seria uma alternativa eficiente?


 


Antonio Elias – Certamente é uma alternativa interessante para aqueles produtores rurais sem instrução, ou seja, os que não frequentaram a escola, e os analfabetos funcionais, que lêem, mas não entendem a bula. É sempre importante que a comunicação, ou melhor, a mensagem que se deseja passar, seja a mais adequada possível tanto no conteúdo quanto na forma. Mas o que faz a diferença mesmo no final é que ele esteja instruído ou como se diz na prática, capacitado ou ainda treinado para compreender e lidar com aquela tecnologia. Para isso, tem que haver orientação correta desde a recomendação do produto a ser usado, que se refere ao receituário agronômico, passando pela sua aplicação na dosagem recomendada e estipulada para a praga ou doença e até o período de carência exigido para o agrotóxico, visando a colocação do produto no mercado, com segurança para todos.


 


CV – O Censo Agropecuário mostra a limitação da orientação para o produtor rural. De que forma é possível melhorar a assistência técnica ao homem do campo?


Antonio Elias – Seguramente com exaustivo Programa de capacitação de técnicos e de produtores. Com um bom quantitativo de profissionais de ciências agrárias atuando no campo, seja do setor público, seja do setor privado, compatível e ajustado com a demanda dos produtores. Com programas e projetos que trazem no seu bojo o conceito das Boas Práticas Agrícolas (BPA), como aqueles que seguem o conceito da Produção Integrada. Já temos no Estado alguns projetos desses envolvendo o morango, o tomate, raízes (inhame cará e gengibre), mamão, que fomos pioneiros no Brasil, além de outros. Acredito que a assistência técnica possa evoluir através das boas parcerias com as várias instituições do complexo agropecuário, com a integração e interação das suas agendas. Incluem-se nesse caso os órgãos de pesquisa, assistência técnica e extensão rural, como Incaper e Senar, as revendas agrícolas, Secretarias Municipais de Agricultura e Meio Ambiente, órgãos de fiscalização (Idaf e Iema), e de representação dos produtores, como as associações, cooperativas e sindicatos. Todos trabalhando na mesma direção.


 


CV – O poder público não deveria investir mais neste setor para ampliar o acesso aos produtores rurais?


Antonio Elias – A demanda por investimentos maiores em serviços públicos de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) está sempre presente. O Governo Paulo Hartung, desde seu primeiro mandato, vem dando prioridade à agricultura e, particularmente, à reestruturação do Incaper. As capacitações internas no nosso Instituto tem sido a tônica da qualificação dos extensionistas. A instrumentalização dos meios para ampliar e agilizar o trabalho tem sido enfatizado, com aquisições de novos veículos, máquinas e equipamentos, necessários ao serviço de assistência técnica e extensão rural. Mas foi o ingresso de 135 novos servidores, através de concurso público, que tem proporcionado ampliar esses serviços. Estamos projetando nova proposta de concurso público para apresentarmos ao Governo do Estado em 2010, para podermos atingir maior percentual de produtores que ainda não tem acesso aos nossos serviços. Por outro lado, os Governos Municipais têm ampliado sua compreensão no sentido de investir em contratações de técnicos para suas Secretarias Municipais, seja de agricultura ou de meio ambiente, tendo em vista que a maioria dos municípios são essencialmente agrícolas, ou seja, a agricultura é a sua principal atividade econômica. Portanto, os investimentos têm acontecido.


 


CV – No Espírito Santo, dificilmente encontramos equipes de profissionais dos municípios que prestam assistência técnica com freqüência no campo. Falta vontade política e organização do poder municipal nesta questão?


Antonio Elias – Muitos municípios capixabas estão se estruturando para, em parceria com o Estado, fortalecer seus quadros de pessoal, com concursos públicos, para ampliar a abrangência e eficácia desses serviços. A grande saída para a universalização da assistência técnica e extensão rural, especialmente para os agricultores familiares, está na gestão compartilhada desses serviços no município. Muitos desses arranjos institucionais já estão acontecendo, principalmente naqueles municípios em que o Prefeito já percebeu que o desenvolvimento rural sustentável passa por uma agricultura forte, pois a vocação e o dinamismo econômico do seu município é determinado pela agricultura. Esse arranjo tem acontecido através da formalização de um convênio com o Incaper, cujo objeto principal é o desenvolvimento de um Plano Municipal de Desenvolvimento Rural Sustentável, discutido com o Conselho Municipal e executado, obedecendo os princípios da integração, da descentralização e da gestão compartilhada. Esse modelo tem estimulado as  Prefeituras a contratar técnicos e disponibilizá-los ao Incaper ou a formar sua equipe de técnicos. Em ambos os casos, o Estado entra ainda com capacitações técnicas, veículos e computadores. Nesses casos, que tem aumentado nos últimos anos, seguramente tem havido um elevado retorno econômico e social. Além disso, as empresas privadas de assistência técnica têm papéis importantes no atendimento a segmentos de produtores de maior escala de produção e de renda, o que confere a esse segmento maior autonomia e independência do Estado, nas decisões de produzir e gerir seus negócios.     


 


CV – Diante da falta de orientação técnica no campo, constatada na maioria das propriedades, podemos afirmar que temos muito potencial ainda para aumentar a produtividade na agricultura?


Antonio Elias – Nosso entendimento é o de que avançamos muito em ganhos de produtividade e qualidade na agricultura capixaba, nos últimos seis anos. Reconhecemos, contudo, que esses avanços não foram igualmente distribuídos entre todas as regiões e categorias de produtores. As diferenciações agroclimáticas, estabelecem aptidões e oportunidades diferenciadas que afetam a viabilidade das culturas, ou sua produtividade e renda. Este reconhecimento é hoje amplo, admitido no próprio Pedeag, que estabeleceu como uma das diretrizes de desenvolvimento a correção das desigualdades regionais e pessoais de renda, a partir da redução das diferenciações de produtividade entre as regiões e entre as diferentes categorias de produtores. Os investimentos em pesquisa e o reforço e melhoria qualitativa dos serviços de ATER, na lógica da integração e da gestão compartilhada, seguramente é o caminho mais sólido e duradouro para alcançar este propósito. Assim, continuaremos avançando em produtividade média na agricultura capixaba.   


 


        


 


 


Revista Campo Vivo


 


Entrevista publicada na edição 04 – dezembro/2009

Você também pode gostar

O Portal Campo Vivo é um veículo de mídia especializada no agro, da Campo Vivo – Inteligência em Agronegócios, empresa ligada diretamente ao setor dos agronegócios, interessada na valorização das cadeias produtivas da agropecuária capixaba e nacional.

Siga nossas redes sociais

Desenvolvido por ideale.dev

Este site usa cookies para melhorar a sua experiência. Vamos supor que você está de acordo, mas você pode optar por sair, se desejar. Aceitar