O café brasileiro entra em novo ciclo de desafios, retornando o tema da sustentação de preços minimamente aceitáveis para os produtores. Este é um momento de reflexão, para o que este artigo tem o propósito de contribuir.
A história das flutuações cíclicas de preços do café é sobejamente conhecida, e vem desde os primórdios da cafeicultura brasileira e capixaba. Dizia o futuro Barão do Rio Branco, em 1882, quando Cônsul em Liverpool, Inglaterra, sobre a valorização do café no exterior: “Não bastarão, entretanto, as exposições e a propaganda. Serão indispensáveis… providências a fim de que nos grandes centros de consumo se encontre à venda em alguns dos retaliadores (distribuidores) mais conhecidos, e debaixo de seu verdadeiro nome, o bom café do Brasil.”
História velha, mas atual e desafiante, eis que passados quase dois séculos, nossa condição de exportador de café verde pouco mudou, tingida desde sempre com interesses fiscalistas e arrecadatórios, distribuindo aos produtores, para atenuar a pressão, migalhas em subvenção e subsídios, sempre acenando com valorização interna do café, como estratégia para assegurar o market share brasileiro no mercado internacional de café verde. Os avanços observados no parque industrial e nas exportações de industrializados, embora importantes, são ainda muito pouco para firmar o maior produtor do mundo como grande exportador de solúveis e industrializados.
Os dados, também históricos, nos mostram que nenhuma política intervencionista do Estado logrou êxito permanente. Tivemos todas as experiências clássicas de políticas de sustentação de preços: estocagens, queima de café, confisco, erradicação, contingenciamentos, etc. Tanto é verdade que os movimentos cíclicos de preços continuam e os ganhos de produtividade acabam sendo transferidos para os países consumidores, em vista da demanda inelástica do café.
A tecnologia avança, os processos tecnológicos se aperfeiçoam e, cada vez mais, menor proporção do valor dos negócios mundiais do café fica com os países produtores (algo em torno de
Estamos vivenciando um período excepcional para o redesenho da política industrial do café brasileiro, visando reposicionar o País no contexto da indústria de torrefação e solúvel para atender aos mercados interno e externo.
O momento econômico é excepcional porque: (i) somos o maior produtor e maior exportador de café verde e seremos, também, nos próximos 2 ou 3 anos, o maior consumidor mundial de café; (ii) a tecnologia de produção se qualifica, cada vez mais, (ou assim será exigida) para a produção de cafés em diferentes ambientes, com cultivares específicos, ampliando o leque de qualidade de grãos e bebidas de café, o que, no médio prazo, limitará ou anulará as possíveis e temidas importações no regime drawback; (iii) os fundamentos econômicos e as condições para o financiamento de uma nova política industrial são favoráveis, permitindo incentivar o setor privado, inclusive com participação de grandes players internacionais da indústria do café, em associação com os empresários nacionais (há, inclusive, indicações consistentes de que o capital financeiro especulativo tende, por decorrência da atual crise econômica, a se deslocar, em parte, para as aplicações produtivas).
Naturalmente, os incentivos ao setor privado devem alcançar as exportações do industrializado, a formação de estoques internos visando ao fluxo de matérias primas para as indústrias, e, também, a garantia de preços mínimos compatíveis para os produtores, com o propósito de não perder a posição de liderança brasileira no mercado mundial do café, com expressão crescente dos solúveis e torrados, gerando empregos substanciais e de qualidade para a sociedade brasileira.
Seguramente, a questão do drawback, temido pelos produtores, para atender à indústria em momentos de eventual escassez interna, em vista da demanda de um parque industrial robusto, ficará menor, porque tudo deverá ser condicionado à proteção sanitária da lavoura e à remuneração razoável para todos os atores da cadeia produtiva do café, aí indispensavelmente incluído o cafeicultor brasileiro, elo historicamente mais fraco do setor.
Neste cenário, a flutuação dos preços não será tão exacerbada como tem sido historicamente e as transferências de renda para os países consumidores serão também suavizadas, porquanto parte crescente dela permanecerá
Wolmar Roque Loss
Engº Agrônomo, Mestre em Desenvolvimento Econômico
Luís Son,
Administrador de Empresa

