Crise, Desenvolvimento Urbano e Agricultura
A notícia de que o Espírito Santo pode apresentar crescimento negativo neste ano não surpreende. Já em outubro do ano passado, a boca miúda, se comentava, em vista da crise, sobre os riscos da elevada dependência do Estado ao mercado externo, antevendo-se tendência de declínio do PIB. Pior, uma dependência centrada em produtos de baixo valor agregado como minério de ferro e pelotas, café verde, celulose branqueada e de rochas ornamentais. Não é de hoje que, em âmbito acadêmico e mesmo em discussões técnicas, se discute as vulnerabilidades do modelo de desenvolvimento do Espírito Santo, e sua dependência de decisões exógenas, e não raro refratárias às iniciativas e estímulos do poder local.
Grosso modo, nas últimas três décadas, além das recentes e promissoras novidades do petróleo e do Gás natural, este ainda mais novo, a iniciativa mais relevante se deu com os laminados da CST, que ao de agregar valor ao minério, voltou-se também para o mercado interno, ampliando as oportunidades de geração de empregos e contribuindo para aumentar as receitas de ICMS.
A recente crise econômica de âmbito mundial reforça as evidências de fragilidades deste modelo e ao mesmo tempo lança desafios para toda a sociedade e, em especial, para aqueles que têm responsabilidades políticas quanto ao futuro deste Estado.
Ainda que se enalteçam a localização privilegiada e a infra-estrutura logística de que dispomos, não há como negar as carências nas estradas federais, nos gargalos da estrutura ferroviária, nos portos e aeroporto, cujas iniciativas de investimentos, especialmente da União, foram reconhecidamente tímidas, se não obstaculadas no processo de concessão, caso da BR 101, ou de execução, a exemplo do aeroporto.
Uma política industrial para o Espírito Santo deve ter como diretriz básica o adensamento das cadeias produtivas, com agregação de valor e, preferencialmente, fortes laços e integração com o mercado interno. Não podemos pensar projetos na lógica dos semi-elaborados, exclusivos para exportação, caracterizando o “mais do mesmo”, ou seja, reproduzindo as iniciativas do passado.
Os grandes projetos não foram, tampouco serão, as prioridades primeiras para o desenvolvimento mais bem equilibrado do Estado. Tampouco devem ser intensificados para a macrorregião conurbada da Grande Vitória, sob pena de estrangular o desenvolvimento urbano, imprimindo mais desigualdade regional.
O interior capixaba vem alcançando agora níveis de desenvolvimento e estabilidade de renda menos perversos do que no passado. Mas estamos ainda muito dependentes do café, que amplia sua participação na renda do setor, malgrado os esforços de diversificação, especialmente com a silvicultura e a fruticultura.
Na silvicultura, os revezes da Aracruz Celulose colocam em dúvidas a expansão das
Florestas tendo como foco exclusivo a produção de celulose para exportação. Certamente, a produção florestal para outros fins, ampliando as opções de mercado para os produtores, como MDF, papel e papelão e indústria moveleira e artesanal ensejaria futuro mais promissor para as florestas econômicas capixabas.
No café, longe de desconsiderar sua relevância para o desenvolvimento capixaba, devemos avaliar as possibilidades de agregação de valor, não se resumindo apenas na melhoria de qualidade, mas também na ampliação da indústria local de torrefação e de solúvel, visando aos mercados interno e externo. Este tema não pode ser esquecido.
Na pecuária leiteira, depois de muito tempo patinando, os indicadores são positivos em ganhos de produtividade, apesar da redução conjuntural de preços, sacrificando momentaneamente os produtores. Neste particular, ao lado da expansão do parque industrial, as adequações tributárias devem estar redirecionadas para valorizar o produto industrial; e a garantia de preços, via leilões oficiais, já que teremos estrutura de secagem do leite, possibilitará às cooperativas assegurar melhor remuneração aos produtores, especialmente em períodos gravosos como agora.
Na fruticultura, os plantios seguem, mas permanece o dilema, para várias frutas e situações, entre vender para a indústria de polpa, processar em pequenas agroindústrias ou vender “in natura”. Convém lembrar aos fruticultores que estas alternativas não são mutuamente exclusivas.
Estas são as cadeias produtivas mais relevantes para a agricultura capixaba, mas não podemos nos limitar a elas, porquanto, sob a ótica regional, várias atividades integram a composição do produto, e complementam a formação da renda dos produtores, desde a olericultura, os cereais, a avicultura, a seringueira, a pimenta do reino, a cana de açúcar etc.
Não é de se surpreender que, nesta grave crise internacional, a agricultura capixaba vem apresentando tolerância invejável. Os preços agrícolas atuais não são favoráveis, até mesmo por decorrência da própria crise, depois de enfrentar preços de insumos estratosféricos, no início da safra; mas o produtor capixaba aprendeu a viver de crises e com as crises. A percepção de eficiência, competitividade e parcimônia nos seus gastos, familiares e nos custos de produção, certamente lhe deixa a esperança de que superará mais uma vez este momento, como já o fez em outras oportunidades. Seguramente, esta crise tem efeitos urbanos muito mais do que rurais. Nem por isso devemos nos conformar. O consumidor urbano é nosso grande cliente, e não vamos deixá-los com fome, nesta hora de dificuldades.
Wolmar Roque Loss
Engenheiro agrônomo, mestre em Desenvolvimento Econômico e membro do ITV-ES
Artigo publicado na Revista Campo Vivo – edição 01 – jan / fev / mar – 2009

