Originária da África, onde foi referida como praga em 1901 no Congo, a broca do café chegou ao Brasil por volta de 1913, em sementes importadas da África. Somente a partir de 1924 foram sentidos os prejuízos causados pela praga, constando-se então a sua gravidade. O inseto, na sua forma adulta, é um pequeno besouro de coloração escura e brilhante.
No Estado do Espírito Santo, maior produtor nacional de café conilon, a praga também está presente nos cafezais da região, ocasionando prejuízos aos produtores.
Em entrevista ao Campo Vivo, a Doutora em Entomologia Agrícola e Pesquisadora do Incaper, Vera Lúcia Rodrigues Machado Benassi, explica como controlar de forma biológica a broca nas lavouras de café.
Campo Vivo – É possível controlar a broca do café somente com agentes biológicos?
Vera Benassi– São várias atividades que o produtor deve estar fazendo. Não exclusivamente o controle biológico, mas também algumas práticas, como por exemplo, o próprio repasse, que é a coleta de frutos depois da colheita, não deixar lavouras abandonadas. Outras práticas devem estar associadas, não apenas o controle biológico, mas ele também é bastante eficiente se integrado a essas práticas.
CV – E de que forma que deve ser feito esse controle biológico?
Vera – O controle biológico depende de uma criação dos inimigos naturais que devem ser utilizados. Já desenvolvemos uma tecnologia de multiplicação de alguns inimigos naturais, que são vespas muito pequenas que fazem o controle da broca. Repassamos já para alguns laboratórios de cooperativas, da secretaria municipal, apesar de atualmente não estarem funcionando. Não sei exatamente qual foi o motivo, mas os laboratórios acabaram sendo desativados. O Incaper está pensando em implantar um laboratório de criação na Fazenda Experimental de Marilândia. Vamos aguardar novas condições para que isso seja realmente efetivado.
CV – Qual época é mais indicada para realizar o controle da broca?
Vera – Podemos utilizar o controle biológico tanto no início da safra, quanto depois da colheita também. Nesse período depois da colheita praticamente nem todas as lavouras são colhidas 100% dos frutos, então aqueles grãos que ficam na planta, ou às vezes no solo, acabam também sendo utilizados por essas vespas para multiplicação, consequentemente vai diminuir a população do inseto para a nova safra. O controle biológico pode ser utilizado várias vezes.
CV – E como que o produtor tem acesso aos inimigos naturais, no caso, as vespas?
Vera – Ele pode fazer uma pequena criação na sua própria propriedade. Seria interessante também que fossem instalados alguns laboratórios, mas infelizmente não temos ainda aqui no Estado. Já tivemos em épocas passadas, porém hoje não temos disponível. Mas o produtor pode até fazer uma pequena criação e ele mesmo liberar na sua lavoura.
CV– O produtor que faz o controle químico da broca do café, ele pode, de uma hora para outra, tirar o químico e já entrar com o controle biológico na lavoura?
Vera – Sim, pode. Mesmo porque hoje indicamos a questão de manejo integrado que envolve várias técnicas diferentes, inclusive o controle químico também pode estar associado ao biológico. Logicamente que não exatamente na mesma data que esse for feito, mas pode sim ser feitos vários tipos de controle ao mesmo tempo.
CV – No início da colheita do café no Espírito Santo, qual manejo deve ser feito pelos produtores para tentar evitar o ataque da broca nesse momento?
Vera – Não seria exatamente nesse momento, mas sim pensando na próxima safra. È necessários realizar uma colheita bem feita, o melhor possível, de preferência utilizar lonas para que muitos frutos não caiam diretamente no solo. Além disso, depois da colheita, é preciso coletar o máximo que puder dos frutos que ficaram após a colheita.
CV – Muitos produtores já sentiram na pele o efeito, os prejuzios, da broca do café. Quantos por cento da produção pode ser afetada por um ataque de broca?
Vera – A média é em torno de 30%. Depende de produtor para produtor, mas a média é essa, porque os danos do ataque não se resumem apenas em termos de qualidade do café, mas também em termos de peso, quantidade, a questão de queda de frutos que ela provoca no início do ataque, etc.
Não é especificamente furar e perder a qualidade do grão, mas também peso e, principalmente, queda dos frutos que às vezes o produtor não consegue mensurar essa perda.
CV – O controle sem agentes químicos interfere no produto, melhora a qualidade do grão do café?
Vera – Sem dúvida. Hoje a própria exigência do mercado de forma geral é a não presença de resíduos que os produtos químicos podem deixar. Então, uma vez que a vespa vai matar as larvas, a broca, e, consequentemente, nós não vamos ter uma nova geração do inseto, o café ele vai, logicamente, ter um valor diferenciado, porque vai ter um índice menor de frutos brocados.

