Quando o agrônomo Ricardo Victoria Filho formou-se, há 40 anos, pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), assuntos como sustentabilidade e segurança alimentar não faziam parte do currículo, muito menos do vocabulário comumente empregado nas universidades de agronomia. Mas a globalização e a busca dos consumidores por alimentos saudáveis e produzidos de forma ambientalmente sustentável chegaram às salas de aula e começaram, há alguns anos, a mudar o perfil do ensino de agronomia.
“Na época em que eu era aluno, o mercado pedia um profissional que ajudasse a aumentar a área plantada e a produtividade das principais lavouras. Esse era o foco da agricultura”, lembra Victoria Filho, que hoje é coordenador do curso de Agronomia da Esalq.
Há 40 anos, não se falava em práticas conservacionistas do solo, por exemplo. “Aprendíamos a arar e gradear a terra, a usar agroquímicos. Plantio direto nem existia. Hoje, temos uma disciplina no currículo aqui na Esalq que só trata dessa prática”, compara.
Outro exemplo é o conteúdo da disciplina de entomologia, que estuda os insetos. Há alguns anos o foco da matéria era basicamente o controle químico de pragas e doenças. “Não deixamos de falar sobre agroquímicos, mas hoje o assunto principal é o controle biológico. Tanto que a maioria dos trabalhos e pesquisas do departamento de entomologia é em controle biológico de pragas”, diz o professor do Departamento de Economia, Administração e Sociologia da Esalq, Ricardo Shirota.
“Antigamente, falar em produção orgânica e meio ambiente era coisa de hippie. Agrônomo mesmo usava defensivos”, recorda Shirota. “Eram outros tempos, quando a agricultura precisava crescer, aumentar produção e a produtividade, porque havia uma grande preocupação com o crescimento da população e o risco de faltar alimentos.”
Hoje em dia essa não é mais uma grande preocupação. “Ainda há países que enfrentam problema com a fome, mas a causa não é a oferta de alimentos, mas o acesso restrito à comida”, diz Shirota.
PRODUÇÃO SUSTENTÁVEL
Foi então que o cenário mudou e os consumidores passaram a demandar não só alimentos em quantidade, mas também a exigir qualidade nutricional e a impor barreiras não-tarifárias, como certificados de produção sustentável. “Tudo isso afeta o perfil do profissional que vai atender a esse mercado.”
O coordenador do curso de Agronomia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), João Sebastião de Araújo, concorda que o perfil do agrônomo vem sofrendo profundas alterações nos últimos 40 anos, principalmente em função da globalização.
Primeiro, diz, o agrônomo tinha uma formação muito voltada para atividades agropecuária, dentro da porteira. Depois, veio a fase de especializações em engenharia agrícola, zootecnia, tecnologia dos alimentos e fitotecnia. “Temas como globalização, ecologia, questões ambientais e responsabilidade social são mais recentes e deram à profissão novas perspectivas”, completa.
Estadão

