Governo planeja 7 barragens para atender a siderúrgica

por admin_ideale

 


O governo do Estado planeja construir até sete barragens nos municípios de Alfredo Chaves e Anchieta. O represamento da água, segundo a Secretaria Estadual de Agricultura (Seag), é fundamental para atender à demanda do pólo industrial que será implantado na região – e que tem como principal empreendimento a siderúrgica chinesa Baosteel.

“As barragens vão garantir o abastecimento de água da região e do pólo industrial. Se não forem construídas, estaremos limitando o seu desenvolvimento”, observou Edmo Pires, gerente de infra-estrutura de obras e serviços rurais da Seag.

O barramento vai gerar uma área alagada total de dois mil hectares, o equivalente a dois mil campos de futebol, distribuída em sete lagos. Cinco deles vão ser construídos em Alfredo Chaves e outros dois em Anchieta. Por conta do alagamento, cerca de 200 famílias podem ter que deixar suas casas ou perder parte de suas propriedades rurais. Muitas delas estão contra as barragens.

A mais importante barragem, denominada Alfredo Chaves, vai acumular 83 bilhões de litros de água. Irá alagar uma região de 214 hectares, podendo atingir de 40 a 50 propriedades. “A maioria das famílias terá apenas uma pequena parte de sua área afetada”, diz Pires.

Vazão
Os estudos que identificaram os pontos onde podem ser construídas as barragens estão sendo desenvolvidos pela Acquatool. Segundo o engenheiro de recursos hídricos da empresa, Pedro Antônio Molinas, a vazão atual do Rio Beneventes é de 10 mil litros/segundo, suficiente para abastecer a região.

O abastecimento de Guarapari, por exemplo, demanda 250 litros/segundo, bem inferior à vazão. Mas após a construção do pólo, e devido à presença da siderúrgica, o consumo de água deverá ser superior a 5 mil litros/segundo.

As barragens, afirma Molinas, teriam a função de diminuir o impacto ecológico e de controlar a retirada de água do rio. “Imagine o impacto ecológico de se remover metade da vazão do rio. Você afetaria a pesca, causaria salinização, reduziria os níveis de água dos afluentes, além de outros problemas”, diz ele. Com o barramento, afirma, será possível gerar mais 9 mil litros de água por segundo.

Outro lado
A Baosteel foi procurada ontem, mas informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que não sabia das barragens. O secretário de Estado de Desenvolvimento Econômico, Guilherme Dias, também preferiu não comentar o assunto.

O detalhamento do que está sendo proposto para a região faz parte de um relatório que será entregue ao governo nas próximas semanas. O trabalho foi feito em conjunto com o Laboratório de Gestão de Recursos Hídricos da Ufes. Parte desse material foi apresentado para as comunidades, na semana passada. Pires afirma que as barragens não serão construídas ao mesmo tempo.

Barragens vão ser construídas no Rio Itaúnas
A bacia do Rio Beneventes não é a única onde vão ser construídas barragens. O mesmo trabalho vem sendo desenvolvido na região do Rio Itaúnas, no Norte do Estado. Os dois projetos foram encomendados pelo governo à empresa Acquatool. A proposta é encontrar soluções para os problemas de déficit hídrico ocasionados pela seca e obter formas de atender ao consumo humano e animal. É necessário também mais água para a agricultura e para o abastecimento industrial em todas as regiões. A Secretaria Estadual de Agricultura se prepara agora para lançar uma nova licitação e ampliar esses estudos para outras dez bacias.

Moradores de Alto Joeba rejeitam obra
O anúncio do projeto de construção de uma barragem que inundará boa parte da comunidade rural de Alto Joeba, em Anchieta, promessas de resistência das cerca de 70 famílias que por lá vivem.

Distante cerca de oito quilômetros da BR 101, o local escolhido é uma bacia em forma de anfiteatro rodeada por morros. O único ponto de drenagem é um estreito de algumas dezenas de metros de largura por onde corre o riacho Joeba.

Os estimados 300 moradores da localidade são pequenos produtores agrícolas. Destes, cerca de 200 vivem no vale que será atingido pela elevação das águas. No alto de um morrete, a igreja escaparia intacta, porém as residências dispostas ao longo do córrego, dificilmente. Calcula-se que a área atingida deverá ter cerca de 170 hectares.

Indenização
A notícia surgiu na semana passada, durante uma reunião na secretaria de Agricultura de Anchieta. “Achava que iam falar de proteção de nascentes”, afirmou Sabino Bernardi, que produz leite e colhe 400 sacas anuais de café. Se a barragem for concluída nos atuais moldes, ele terá sua casa e cerca de 10 hectares de suas terras submersos. Mas ele não quer sair nem devidamente indenizado.

“Meus pais e avós construíram isso tudo”, reclama. Em se tratando de propriedades rurais, o dinheiro não criaria relações de paridade, diz ele. “Nem se me derem mais que o dobro. Não é como na cidade, que se troca uma casa por um apartamento”, explica.

Indignados
Não nos consultaram. Do jeito que mostram a coisa, essas barragens vão ter dinheiro público. Então cadê as audiências públicas?”
Mateus Vetorazzi líder comunitário

Vamos protestar até em Brasília. Vem o sujeito e fica falando que em Sobradinho (represa na Bahia) foi assim. Nada disso”
Sabino Bernardi , produtor que terá sua propriedade inundada

Tanque menor reduziria impactos
No lugar de uma barragem grande, três reservatórios de menor capacidade espalhados por uma área maior da bacia do riacho. Essa é uma das opções que os moradores de Alto Joeba apontam como solução para minimizar os impactos inevitáveis da obra sobre a comunidade rural. Outra saída seria construir barragens mais acima do vale, nas regiões quase desabitadas de Alto Diamante e Lagoas Verdes.

“A capacidade seria menor, mas não faria o estrago que querem fazer aqui”, afirma o proprietário rural Sabino Bernardi. Uma terceira solução seria um reservatório mais baixo no mesmo local. “Até aceito perder uma parte das minhas terras, mas tem gente que vai perder tudo. Aqui é um vale. Vão plantar onde? Na cidade?”, diz.


 


Gazeta Online

Você também pode gostar

Reset password

Enter your email address and we will send you a link to change your password.

Powered by Estatik

Este site usa cookies para melhorar a sua experiência. Vamos supor que você está de acordo, mas você pode optar por sair, se desejar. Aceitar