A partir de hoje, em Genebra, os 31 ministros reunidos na Organização Mundial do Comércio (OMC) sentam-se à mesa tendo pela frente um dos maiores desafios de suas carreiras: viabilizar uma proposta de acordo – inalcançável há sete anos – para a mais ousada liberalização do comércio entre as 152 nações vinculadas à OMC, a Rodada Doha.
Permeada por inúmeras divergências, a conquista de um consenso histórico é praticamente descartada por especialistas que apontam, na melhor das hipóteses, um acordo modesto, resultado bem distante da missão de Doha, que é a implementação do livre comércio global.
Diante da falta de resultados depois de sete anos, raros especialistas se mantêm otimistas. No reduzido grupo, o diretor geral da OMC, Pascal Lamy, aposta em mais de 50% de chance de encontro ser vitorioso. Mais entusiasmado está o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No programa semanal de rádio Café com o presidente, Lula disse acreditar na possibilidade de um “final feliz” para as negociações em Doha.
Já a delegação brasileira – capitaneada pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, desembarca na cidade suíça admitindo que o principal entrave da pauta é a agricultura, marcada por indefinições nos documentos preparatórios do encontro.
“Sou realista. Entro achando que é possível, mas sabendo que não é fácil”, disse o chanceler.
A desconfiança é a mesma do setor agrícola nacional.
“Sem Doha, perdemos US$ 10 bilhões a cada ano. Na OMC, o Brasil é o maior prejudicado pela falta de acordo”, diz ao Gilman Viana Rodrigues, coordenador do Fórum Empresarial Permanente de Negociações Agrícolas Internacionais e presidente da Comissão Nacional de Comércio Exterior da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). O Fórum encaminhou uma carta para o Itamaraty cobrando postura mais ambiciosa nas rodadas.
“Não tem sido trabalhada a convergência de interesses, mas sim a costura de concessões”, diz Rodrigues, antes de frisar que o setor mais competitivo da economia nacional “não pode ser prejudicado pela resistência à maior abertura comercial de setores de menor competitividade”. “A questão em Doha não é um acordo. A mágica da solução é o conteúdo deste acordo, cujo desenho deveria ser mais agressivo.” Entre as concessões a serem evitadas em Genebra, Rodrigues defende que os negociadores brasileiros se afastem das propostas indianas e chinesas. “No setor agrícola não são países agressivos porque, apesar do volume gigantesco produzido, ambos são importadores”, diz Rodrigues.
Outro ponto lembrado pelo coordenador do Fórum é o pico tarifário, a diferença de tarifas cobradas de um mesmo produto ao longo de suas diversas versões industrializadas. No caso da soja em grão, por exemplo, a tarifa é 0% contra 17,5% cobrado do óleo em soja. O café em grão segue o mesmo ritmo, com 31% do grão moído e 60% para o produto solúvel. No leite, a diferença alcança 190% e no tabaco, vai a 340%.
“O desejado é que o produto com valor agregado tenha o mesmo valor na origem”, explica o coordenador do Fórum.
No cenário da crise de alimentos, Guimarães acha que os negociadores brasileiros devem defender cortes mais significativos nas tarifas de importação como forma de ampliar o acesso dos produtos agrícolas, mas é cético sobre a reunião. “Não acredito em acordo nesta reunião de Doha”, resume.
Gazeta Mercantil

