Para Planalto, Minc foi arrogante e falou demais

por admin_ideale

 


Causou desconforto no Palácio do Planalto a primeira entrevista do novo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, que disse ter aceitado o convite, “em tese”, depois das garantias dadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Minc chegou a dizer que, se sua passagem por Brasília der errado, ele voltará para o Rio, já que tem mandato de deputado estadual.


Na avaliação de um assessor de Lula, houve um tom arrogante nas declarações de Minc.


A percepção no núcleo do governo é que Minc deveria ter sido mais cuidadoso na entrevista, dada antes mesmo da conversa pessoal com Lula, prevista para segunda-feira. Um interlocutor do presidente Lula chegou a atribuir as declarações de Minc “a seu jeito folclórico”.


Ontem, no Planalto, a entrevista chegou a ser comparada com a do ex-ministro de Ciência e Tecnologia Roberto Amaral, que, em sua primeira declaração à imprensa como integrante do primeiro escalão, defendeu que o Brasil tivesse o domínio da tecnologia da bomba atômica.


Mas a estratégia do governo foi a de minimizar as declarações de Minc para evitar nova polêmica na área ambiental.


– Cada um tem seu estilo.


Ele estava em Paris e deu uma declaração diferente. Mas não muda nada – disse ontem o ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro. – Fico feliz que esteja motivado.


Marina enfrentou dificuldades e foi superando-as uma a uma.


As declarações de Minc irritaram ruralistas e agradaram a ambientalistas. Para o Greenpeace, o novo ministro, ao seu estilo, tentou marcar posição e combater uma possível sensação de vitória do agronegócio com a saída de Marina.


– Ele tem o seu estilo, mas impôs condições publicamente ao presidente Lula. Ele emparedou o presidente. Se ele chegasse ao cargo sendo visto como uma alternativa do lado de lá, teria muita dificuldade de liderar o ministério, que tem como função principal defender o meio ambiente, e não devastá-lo – disse Paulo Adário, coordenador de Amazônia do Greenpeace.


“Ele ainda não é ministro para estar tão nervoso assim” Para ruralistas, Minc parece disposto à pirotecnia. Eles afirmam que o novo ministro não pode ter preconceito nem atuar de forma ideológica, acusação comum à ex-ministra. Na entrevista, Minc disse que “não abrirá as pernas para a Amazônia virar um quintal”. Os ruralistas criticaram principalmente “a falta de conhecimento” do ministro.


O deputado Abelardo Lupion (DEM-PR), da bancada ruralista, foi ácido com Minc: – Ele é um ecologista de Copacabana. O que se pode esperar de um sujeito que não conhece o Brasil? Na entrevista, Minc disse que Lula não o fará pagar um “Minc leão dourado” no governo e que, se sentir que as coisas não andam como esperava, voltará à Assembléia Legislativa. O presidente da Comissão de Leite da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Rodrigo Alvim, criticou: – Ele ainda não é ministro para estar tão nervoso assim.


Primeiro é preciso tomar posse, depois, ouvir os setores envolvidos, ter boa vontade em conhecer uma causa que não conhece a fundo – sugeriu.


 Golpe para futuro do planeta


Saída de Marina ainda repercute no exterior


O “The New York Times” continua dando destaque à saída de Marina Silva do Ministério do Meio Ambiente. O jornal registrou ontem a entrevista de Marina sobre sua saída, em que “ela reconhece que governadores da Amazônia estavam pressionando o presidente Lula a cancelar medidas que visam a conter o desmatamento”. O correspondente diz ainda que ONGs ficaram “claramente alarmadas” com a renúncia.


Segundo o “NYT”, “o retrospecto que Marina Silva estabeleceu para o Brasil deu ao país credibilidade internacional e permitiu a Lula se tornar um novo participante nas negociações globais sobre a mudança climática”.


A renúncia foi descrita pelo britânico “The Independent” como um “golpe para o futuro do planeta”. No editorial “Salvem os pulmões de nosso planeta”, publicado quinta-feira, destaca que Marina foi nomeada como o “anjo da guarda” da Amazônia, mas desde então vinha travando batalhas com fazendeiros e madeireiras.


Na Espanha, o “El País” disse que “quem ganha com Marina fora do jogo é sua rival no governo, a superministra Dilma Rousseff, braço-direito de Lula e encarregada de pôr em marcha o plano de crescimento econômico acelerado que se choca de frente com a proteção do meio ambiente”.


O Globo 

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