
O uso de recipientes de papel biodegradável na produção de mudas, conhecidos como paper pots, tem ganhado espaço na cafeicultura e o tempo de decomposição de alguns tipos de papel disponíveis no mercado tem chamado a atenção. Para trazer respostas sobre o uso da tecnologia, três pesquisas científicas ganham destaque no Espírito Santo: uma refere-se à caracterização física, química e mecânica dos papéis; outra à identificação de danos pós plantio; e outra sobre caracterização fisiológica e morfológica do crescimento radicular do cafeeiro.
Os estudos são conduzidos com orientação da pesquisadora do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), Sara Dousseau Arantes, que é professora no curso de graduação em Agronomia do Centro Universitário Faesa e dos programas de pós graduação em Agricultura Tropical (PPGAT) e Biologia Vegetal (PPGBV) da Ufes.
Uma dissertação de Mestrado do Ceunes/Ufes, em São Mateus, caracterizará os papéis utilizados no Estado para identificar seus componentes, correlacionando o diagnóstico à qualidade e resistência das plantas. O estudo busca compreender seus efeitos na morfologia e fisiologia radicular para apresentação de um indicador ao viveirista e, também, ao agricultor no ato da aquisição das mudas.
“Existe hoje no mercado a entrada de papéis que não são produzidos com 100% de fibras de celulose, mas a partir de fibras sintéticas e, da forma que estão entrelaçadas causam um emaranhamento intenso das fibras, de modo que o sistema radicular não consegue ter força suficiente para romper aquela camada. Algumas raízes até conseguem fazer isso, mas depende do genótipo que precisa ter força maior do que a resistência imposta pela trama de fibras sintéticas que envolvem a estrutura”, informou a pesquisadora.
A pesquisadora explica: “Quando a tecnologia chega para o café canéfora, usa-se em um primeiro momento um tipo de papel de uma empresa consolidada no mercado que não causa nenhum tipo de impedimento à rizogênese (formação e desenvolvimento da raiz). Como esse papel se degrada em cerca de três meses, ainda no viveiro, tem-se perda de estrutura do substrato e maior mortalidade das mudas na aclimatação. Com o aumento da demanda, algumas empresas colocam no mercado papéis que não degradam no tempo correto em campo. É exatamente por este motivo que faremos os estudos, para caracterizar as marcas e modelos disponíveis no mercado. Já detectamos que existem papéis de marcas/modelos compostos por fibras sintéticas, um dos grandes causadores da resistência. Alguns papéis formam uma trama resistente na qual as raízes que estão em contato direto ficam escurecidas, mais lignificadas e suberizadas, causando dificuldade na emissão de raízes secundárias e terciárias”, detalhou.
Sara destacou que o café é uma planta que depende do momento estrutural vegetativo inicial para formar uma boa arquitetura para ser produtiva. “A degradação lenta do papel causa um problema estrutural na planta, que vai desde o anelamento do coleto, onde a planta morre, até limitações no desenvolvimento das raízes na área envolvida pelo papel. O dano estrutural se torna permanente à medida que o papel limita às raízes e a planta demanda água e nutrientes com a progressão do ciclo produtivo do cafeeiro”, frisou.
A pesquisadora reforça que a partir do primeiro ano de produção do café o tempo para recuperar o crescimento radicular é curto, pois a cultura faz dois ciclos combinados: o reprodutivo e o vegetativo.
Outras frentes de pesquisas
O TCC do curso de Agronomia da Faesa vai trazer em sua linha de pesquisa a identificação de danos causados pelo uso de papéis que sua composição não seja 100% de fibras de celulose. A busca é por um indicativo para que o agricultor conduza sua lavoura da melhor forma.
Outro estudo refere-se à caracterização da fisiologia e a morfologia do crescimento radicular do cafeeiro. A proposta, da pesquisa de doutorado do Ceunes/Ufes, é consolidar informações para modular essas questões referentes ao uso do papel biodegradável na produção de mudas.
A tecnologia já mostrou que veio para ficar. Além dos benefícios agronômicos e de logística com o uso do paper pot está a preservação do meio ambiente, com a redução do uso de resíduos plásticos.
Valda Ravani, jornalista

