
Parece que foi ontem, quando criança, eu ficava fascinado quando visitava minha avó, no sítio da família, numa pequenina cidade de MG. Gostava muito de passear pelo sítio e descobrir o que vinha por detrás dos morros, pomares fartos, leite ao pé da vaca, tanques e rios para refrescar, as pescarias… Mas, a realidade por trás era bem diferente, apenas nos meus passeios, não enxergava a vida sofrida pelo meu tio agricultor. Naquela época, mais do que nunca, agricultura se definia pelo suor do rosto e pela dependência cega dos ciclos da natureza. Hoje, ao cruzarmos o primeiro quarto do século XXI, o cenário que se desenha no interior do Brasil e do mundo é radicalmente diferente. O campo de hoje não é apenas um local de cultivo; é um centro de alta tecnologia onde a biologia encontra a inteligência artificial para responder ao maior desafio da nossa era: alimentar uma população crescente de forma sustentável. Hoje, minha fascinação continua sendo descobrir o que vem por detrás dos morros, uma agricultura de precisão e sustentável
Onde antes o produtor rural decidia o momento do plantio baseado apenas no calendário, agora ele utiliza sistemas de monitoramento climático em tempo real e sensores de solo que indicam a necessidade exata de nutrientes e água. A “Agricultura de Precisão” evoluiu para a “Agricultura da Decisão”, onde algoritmos analisam imagens de satélite e drones para identificar pragas antes mesmo que elas se tornem visíveis ao olho humano. Mas a tecnologia não é um fim em si mesma. O grande motor desta transformação continua sendo a sustentabilidade. As emissões de carbono, a preocupação social e a rastreabilidade deixaram de ser jargões corporativos para se tornarem moedas de troca essenciais. O consumidor moderno exige saber a origem do que consome, e o produtor tem respondido com a adoção em massa da Agricultura Regenerativa, para recuperar o solo, seu maior patrimônio, reduzir seus custos de produção e bater recordes em produtividade.
Entretanto, esse progresso traz desafios estruturais que a sociedade não pode ignorar. Apesar da agricultura atual provar que o desenvolvimento econômico e a preservação ambiental podem caminhar juntos, parece que a cidade vive em uma bolha de ilusões, pautadas nos infinitos influencers digitais que falam “verdades” baseadas em boatos e informações totalmente desconectadas da realidade da agricultura moderna. Às vezes fico a pensar como pode alguém surfar em ondas com o único objetivo de lucrar em cima de curtidas digitais. O estrago é grande!
O Brasil, como potência agroalimentar, lidera essa transição. Ao olharmos para os campos hoje, não vemos apenas plantações; vemos a aplicação prática da ciência garantindo a segurança alimentar do futuro. O campo nunca esteve tão vivo, tão inteligente e, acima de tudo, tão necessário.
Até que ponto, a cidade insistirá em não apenas tirar este mérito de nossos produtores rurais mas, ainda sim, tenta colocá-lo como o vilão do efeito estufa global? Até quando a cegueira persistirá?

Dr. José Roberto Fontes
Eng° Agrônomo, Doutor em Fitotecnia, Consultor Agrícola na área de Certificações Comerciais / Compulsórias e Gestão Integrada da Qualidade – Germinar Consultoria e Assessoria Ltda.
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