Os produtores de leite do Espírito Santo entraram o ano no vermelho. O valor do produto sofreu queda brusca nos últimos meses e agora é cotado, em média, a R$ 0,60 o litro. Em meados de 2008 o preço pago ao pecuarista chegou a R$ 0,85/l, valor 30% superior ao comercializado atualmente. Apesar da queda, a diferença não chegou ao bolso do consumidor.
Segundo o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Espírito Santo (Faes), Júlio Rocha, a diferença se dá em decorrência do desequilíbrio entre oferta e procura. O pecuarista acreditou que a produção seria mais rentável em 2008 e investiu na atividade, porém as boas expectativas não se concretizaram. Como resultado, o preço pago ao pecuarista pelo litro de leite está abaixo dos custos de produção.
“O abastecimento, sempre protegido pelos Governos, é muito importante, mas a renda do produtor, essencial para manter a produção, sempre foi preterida, impondo dificuldades e sacrifícios intransponíveis à classe ruralista”, explica o presidente, reclamando da falta de apoio governamental.
VALORES
O produtor independente Sérgio Mareto, de Conceição do Castelo, conta que os prejuízos são muitos e os débitos já começaram a surgir. “Com o baixo valor que recebemos fica difícil pagar por todo o custo de produção, como os altos insumos e vacinas. No ano passado cheguei a vender meu leite ao máximo de R$ 0,85/l, hoje não chega a R$ 0,67”, afirma.
O excesso de produção é a explicação do assistente administrativo da Selita, Lucínio Matos, para a baixa dos valores. “Nós estamos pagando hoje em média R$ 0,65 o litro. Ano passado era em média R$ 0,78. Realmente houve queda significativa e o produtor é o maior prejudicado”, diz.
CONSUMIDOR
O consumo também afeta os valores praticados ao produtor. Um estudo realizado pelos pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) aponta que 90% dos brasileiros consomem alimentos básicos, como o leite e seus derivados, em quantidade abaixo do indicado pela OMS (Organização Mundial de Saúde).
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a média de consumo de leite e derivados per capita anual no Brasil é de 129 litros e a exigência mínima da OMS, de 210 litros. A conta é fácil: quanto menos gente consumindo e mais leite na praça, menor o valor pago pelo produto.
O presidente da Faes explica que é essencial que os Governos adotem medidas de incentivo ao consumo e, principalmente, de amparo ao pecuarista. “Não dá para pagar para produzir. Há muitos casos em que o preço de produção é mais alto do que o de venda. Qualquer negócio é movido a lucro. Ninguém consegue sobreviver sem lucro”, desabafa.
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