Pimenta-do-reino: uma nova história está sendo escrita no campo

*Erasmo Fernandes

por Portal Campo Vivo
Foto: Erasmo Fernandes

Durante muito tempo, a pimenta-do-reino foi vista por boa parte do agronegócio brasileiro como uma cultura de nicho. Importante em determinadas regiões, tradicional, rentável em alguns ciclos, mas distante dos grandes debates sobre tecnologia, produtividade e profissionalização do campo.

Essa realidade está mudando. E rápido.

Quem percorre hoje as principais regiões produtoras do Brasil encontra uma pimenta-do-reino muito diferente daquela de alguns anos atrás. Novos projetos estão surgindo, produtores estão investindo, sistemas estão sendo aprimorados e uma nova geração começa a enxergar a cultura não apenas como uma oportunidade, mas como um negócio que precisa ser planejado, medido e gerenciado.

Espírito Santo, Pará e Bahia possuem realidades distintas. Clima, solo, sistemas de cultivo, mão de obra e comportamento das lavouras mudam de uma região para outra. Mas existe algo em comum entre elas: há um enorme espaço para evoluirmos em produtividade, eficiência e profissionalização.

E talvez esse seja o ponto mais importante dessa nova fase.

Durante muito tempo, quando se falava em crescer na agricultura, pensava-se quase automaticamente em aumentar área. Para a pimenta-do-reino, acredito que o grande desafio dos próximos anos será outro: produzir mais e melhor na área que já temos.

Isso muda completamente a conversa.

Passamos a discutir preparo de solo, formação radicular, irrigação orientada por dados, nutrição equilibrada, manejo biológico, sanidade, qualidade das mudas, mecanização, gestão de custos e eficiência de colheita. Passamos, principalmente, a questionar práticas que foram repetidas durante décadas simplesmente porque “sempre foi feito assim”.

O campo não aceita mais esse argumento.

Uma lavoura pode estar bonita e não ser produtiva. Pode receber muito investimento e entregar pouco resultado. Pode produzir bem durante alguns anos e perder sustentabilidade econômica ou sanitária ao longo do tempo.

Por isso, a agricultura que vem pela frente exigirá menos achismo e mais conhecimento.

Tenho a oportunidade de acompanhar de perto diferentes regiões produtoras, conversando com produtores, técnicos, trabalhadores e empresas e, principalmente, colocando a botina dentro da lavoura. E uma coisa fica cada vez mais evidente: existe uma revolução silenciosa acontecendo na pimenta-do-reino brasileira.

Há produtores quebrando antigas barreiras de produtividade. Há tecnologia chegando onde antes predominava o manejo empírico. Há uma discussão crescente sobre microbiologia do solo, uso de bioinsumos, eficiência hídrica, mecanização e longevidade dos plantios.

Mas também existem erros sendo repetidos.

E talvez possamos aprender tanto com aquilo que está dando certo quanto com aquilo que está dando errado.

É justamente essa conversa que quero trazer para este espaço no Campo Vivo.

Nas próximas semanas, vamos falar sobre a pimenta-do-reino como ela realmente acontece: dentro da lavoura. Vamos discutir produtividade, mercado, clima, irrigação, implantação, nutrição, doenças, bioinsumos, mecanização, custos e os desafios que tenho encontrado percorrendo diferentes regiões produtoras do Brasil.

Sem receita pronta. Sem romantizar o campo.

Porque produzir pimenta-do-reino em alto nível não depende de uma única tecnologia ou de um produto milagroso. Depende de fazer uma sequência de decisões corretas, muitas delas antes mesmo de a primeira muda chegar à propriedade.

O Brasil já é protagonista mundial nessa cultura. Mas acredito que ainda estamos longe de descobrir todo o potencial da pimenta-do-reino brasileira.

A próxima fronteira talvez não esteja em plantar mais. Está em aprender a produzir melhor.

E essa é uma conversa que está apenas começando.



Erasmo Fernandes
Eng° Agrônomo, produtor rural, especialista em pimenta-do-reino e pós-graduado em bioinsumos


A Campo Vivo não se responsabiliza por conceitos emitidos nos artigos

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