
O Espírito Santo vive um momento estratégico na história da cafeicultura. Maior produtor brasileiro de conilon, o Estado vem consolidando uma combinação cada vez mais valorizada pelo mercado internacional: capacidade produtiva, regularidade de oferta e avanço na qualidade dos grãos. Em meio às incertezas globais sobre estoques, logística e produção mundial, especialistas de mercado cafeeiro da Itália, França e Espanha desembarcaram nos últimos dias no Estado para comprovar esse potencial.
Os importadores, compradores dos grãos que atendem demandas desde o comércio de café tradicional até as linhas padrão luxo, vieram conhecer as origens, provar os cafés e estabelecer padrões de qualidade durante as visitas realizadas em cafeeiras nos municípios de Nova Venécia, São Gabriel da Palha, Rio Bananal e Linhares.
Qualidade e produtividade impulsionam interesse internacional
A evolução em termos de qualidade e quantidade na produção de Conilon no Espírito Santo foi o grande motivador da visita, informou Joseph Reiner, consultor da empresa italiana Lavazza, uma das maiores torrefadoras europeias.
“Os produtores têm melhorado muito a atenção em aspectos de qualidade, como também os investimentos em novas variedades clonais que trazem diferenciação em termos de manejo, produtividade e qualidade. O potencial continua sendo muito grande, com a diferença que agora o Estado tem volume de produção suficiente não só para atender a demanda interna, mas para montar um fluxo competitivo de exportação frente a outras origens”, disse.
Cenário global pressiona mercado e amplia busca por alternativas
As visitas ocorrem em um momento desafiador para o mercado mundial. As tensões geopolíticas no Oriente Médio, especialmente a instabilidade no Estreito de Ormuz, após conflitos geopolíticos, aumentaram a preocupação global com logística e abastecimento. Paralelamente, o Vietnã – principal concorrente mundial – enfrenta mudanças em sua dinâmica agrícola, impulsionadas pela diversificação de culturas e pela crescente demanda chinesa.
Outra questão está relacionada à menor quebra de peso durante a torra. Os importadores têm buscado alternativas ao café do Vietnã, ao arábica, priorizando grãos com maior rendimento, a exemplo do café capixaba.
Conilon capixaba se aproxima do padrão internacional
Joseph Reiner ressalta que o principal concorrente do Brasil, em termos de robusta, continua sendo o Vietnã, pois as características de qualidade são um pouco diferentes do café brasileiro, porém o produtor capixaba vem se aproximando rapidamente em equivalência no quesito qualidade.
“A procura da indústria local por grãos de melhor qualidade tem ajudado bastante na melhoria dos cafés. Eu diria que o Conilon tem uma capacidade de produção – e consequente aumento -, que nenhuma outra origem possui. Em média tem uma produtividade superior e faltava, apenas, melhorar alguns aspectos de qualidade e manutenção do fluxo de exportação, níveis competitivos para que o importador volte a ‘aprender a usar o conilon’”, destacou o consultor da Lavazza.
Safras robustas e novos perfis de cafés ganham espaço
Na safra 25\26, segundo média das pesquisas de multinacionais, a produção no Brasil foi de 28 milhões de sacas (20 milhões foram no ES), volume próximo do Vietnã que somou 31 milhões de sacas.
Hoje, os importadores têm buscado, principalmente, cafés de perfil mais neutro, com maior uniformidade e estabilidade industrial. E é nesse ponto o café capixaba começa ganhar mais atenção, haja visto que os produtores passaram a investir mais em manejo, na colheita e pós-colheita, elevando a oferta de cafés mais limpos e padronizados, explicam especialistas.
Segundo representantes do setor, durante as provas de degustação, também houve quem demonstrasse interesse por cafés conilon cereja descascados e despolpados, perfil que até pouco tempo não eram considerados interessantes.
Valda Ravani, jornalista

