Com 90 % das lavouras de cacau arrasadas pela vassoura de bruxa e necessitando adotar medidas urgentes e excepcionais para salvar a cultura, Linhares deverá decretar Estado de Calamidade Pública para o setor. Solicitação nesse sentido foi feita pela Associação dos Cacauicultores de Linhares(Acal), que encaminhou uma carta à Câmara Municipal contendo informações sobre o cenário de destruição gerado pela doença.
O desafio, não é pequeno. Eliminar 15 milhões de plantas contaminadas e replantar as lavouras com mudas clonadas. Uma tarefa gigantesca, considerando, sobretudo, que os cacauicultores poderão contar muito pouco ou quase nada com a assistência da Comissão executiva do Plano da Lavoura Cacaueira(Ceplac), instituição vinculada ao Ministério da Agricultura, Agropecuária e Abastecimento, responsável pelo atendimento ao setor.
“ A Ceplac acabou, morreu. Há 28 anos não contrata um único funcionário”, lamentou Maurício Buffon, presidente da Acal, que trava uma luta quase solitária para tentar salvar a cacauicultura capixaba.
Decretar estado de calamidade pública se constitui apenas em uma das medidas que, no entender de Maurício, se fazem necessárias para tentar sensibilizar as autoridades para o problema. Ele relatou que a produção de cacau nas lavouras tradicionais já se aproxima do zero e que muitos produtores estão vendendo o que podem, como máquinas, ferramentas, etc, para poderem continuar sobrevivendo.
“O volume de dívida dos cacauicultores já se aproxima dos R$ 80 milhões e muitos já foram classificados como inadimplentes pelos bancos porque não saldaram o compromisso no prazo estipulado”, comentou.
Maurício está se referindo ao prazo de carência de três anos que foi instituído pelos bancos a partir de 2010, quando se acreditava que esse seria o tempo adequado para revitalização das novas lavouras.
“Hoje estamos trabalhando com uma proposta de carência de sete anos”, declarou.
O quadro foi apresentado na carta que Maurício encaminhou à Câmara Municipal e que foi lida pelos vereadores na sessão desta segunda- feira. Agora, para agilizar o processo, deverá ser formulado um laudo para dar respaldo técnico ao pedido que, após esta providência, será encaminhado para avaliação do prefeito do município, Nozinho Correia. Mas o presidente da Acal adiantou que o secretário municipal de Agricultura, José Roberto Macedo Fontes já se posicionou favorável à medida.
Além brusca queda de produção de frutos, Maurício Buffon chamou a atenção para a questão ambiental. Segundo ele, sem ter como produzir, os cerca de 1000 cacauicultores de Linhares estão sendo pressionados a retirar o sustento das áreas de Mata Atlântica onde as lauvouras estão localizadas.
“O que também está em risco são cerca de 22 mil hectares de mata”, alertou.
Saiba mais sobre o assunto
– Em 2010, a Acal enviou um ofício ao Governo do Estado solicitando a elaboração de um plano de recuperação da lavoura de cacau e que construísse um viveiro de produção de mudas clonais. Nada foi feito.
– A Ceplac está tão quebrada que em outubro último produtores que foram à Brasília discutir a situação da cacauicultura capixaba com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento tiveram que abastecer o veículo com dinheiro do próprio bolso.
– O parque cacaueiro de Linhares é formado por cerca de 20 mihões de plantas. Até o momento, foram plantadas um total aproximado de 5 milhões de plantas resistentes à vassoura de bruxa. Ocorre que algumas variedades, não são tão invulneráveis à doença e são justamente as mais produtivas. Se as 15 milhões de plantas restantes não forem eliminadas, a ameaça da contaminação persistirá.
– Uma Instrução Normativa(IN) já permite que o produtor elimine até 5 mil cacaueiros doentes. Basta ele comparecer ao escritório do Instituto de defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo(Idaf) e informar que executará a medida. Se o plantel a ser cortado for de mais de 5 mil plantas, exigirá uma visita técnica ao local.
– Uma lei que deverá ser publicada nos próximos dias, irá liberar o corte de até 10 metros quadrados de pau d’alho, espécie de árvore que predomina na maioria das lavouras da região de Linhares e que, por motivos ainda não devidamente conhecidos, impede o desenvolvimento das plantas ao seu redor.
– Os bancos hoje limitam o prazo de carência de empréstimos financeiros para cacauicultores em até três anos. Os produtores acham muito pouco. Querem sete anos.
O Botocudo

