Pescando esperança

por admin_ideale

  


Criação de tilápia motiva pescadores da comunidade do Guaxe, em Linhares


 


O barulho do motor começa cedo na Lagoa Juparanã, em Linhares, norte capixaba. Ainda de madrugada, o barco da Associação dos Piscicultores do Guaxe (Apigua) está pronto para começar os trabalhos nos tanques rede. “Começamos cedo a tratar os peixes”, diz Romário Antonio Santos Aguiar, no comando do barco.  A beleza da paisagem é apenas um detalhe na rotina do piscicultor. A comunidade do Guaxe sempre teve a pesca como uma fonte de renda das famílias. Em 2001, eles começaram a trabalhar com a criação da tilápia em tanques rede e se uniram através de uma associação para buscar dias melhores.


Além dele, outros 13 pescadores participam ativamente da associação atualmente. Eram pescadores que agora alternam o trabalho com a tilapicultura, como Francisco Souza Silva. Pescador há 25 anos, entrou na atividade da piscicultura na época de criação da Apigua. “A pesca é mais pesada, já a criação de tilápias é um pouco mais leve. Mas tem que lutar muito”, diz Francisco, aos 58 anos. A produção é acompanhada de perto por profissionais da área. Gilberto Castor Marques é engenheiro agrônomo, contratado pela associação, para monitorar a criação de tilápias. Há 11 anos trabalhando com piscicultura, ele acredita que o projeto vai além da questão econômica. “O objetivo é crescer, gerando emprego e renda para toda comunidade. Esse projeto pode se tornar referência no setor”, diz Marques.


 



Pescador há 25 anos, Francisco agora trabalha com a criação de tilápia


 


Para fortalecer o projeto, foi criado um grupo gestor composto por representantes da Apigua, Prefeitura de Linhares, Secretaria Estadual de Agricultura, Fibria, Banco do Nordeste do Brasil, Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) e do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Cada um tem sua função no projeto. Após algumas dificuldades enfrentadas no início, a entidade ficou inativa por alguns anos e retomou as atividades em 2009 com o apoio de algumas instituições. “Tá melhorando agora. É bem melhor do que pescar na lagoa. Ela não agüenta todo mundo pescando nela. A criação de tilápia é uma atividade que você tem certeza do que está fazendo. É mais segura”, diz Romário, enquanto cuida dos peixes nas gaiolas, como chamam os tanques dos peixes.


O agente de desenvolvimento do Banco do Nordeste, Kleber Oliveira, diz que, após identificar a lacuna de gestão organizacional e financeira existente na comunidade, o grupo gestor foi criado para dar suporte as ações da Apigua. “Fizemos um diagnóstico da situação e foi possível verificar a necessidade e possibilidade de atuação de cada envolvido no grupo. Depois, definimos, de maneira participativa, um planejamento estratégico para a entidade, que é seguido pelos associados e acompanhado pelo grupo”, explica Oliveira.


A adoção de uma gestão mais organizada e participativa é um dos grandes segredos do sucesso inicial da Apigua. Para a gestora de aqüicultura do Sebrae do Espírito Santo, Silvia Anchieta de Paula, o planejamento das entidades e a participação da associação foram fundamentais para os bons resultados. “Por esse acompanhamento e comprometimento dos parceiros, os resultados são bastante interessantes. Hoje, eles têm uma noção de quanto eles gastam, de quanto faturam, da quantidade e qualidade da produção”, afirma Silvia, destacando a importância do trabalho em conjunto. “Ninguém faz nada sozinho. Cada um com sua competência e comprometimento no trabalho, é isso que faz a diferença. Essa união é que traz os resultados”, salienta a gestora.



 



Ouça a entrevista com a gestora de aqüicultura do Sebrae/ES, Silvia Anchieta de Paula


 



Após viabilizar o mercado através das parcerias, a Apigua tem, atualmente, uma produção de 30 mil peixes mensais e a despesca, saída do peixe para o abate, de 15 toneladas por mês. “Nos últimos dois anos, tivemos um acréscimo de cinco toneladas por mês na produção”, diz Gilberto, destacando o avanço na produção. Toda a produção é informatizada. Através de um programa de computador é possível controlar o que entra e sai das gaiolas. O total da produção, 25% é destinado para o frigorifico e o restante vai para o mercado de varejo nos municípios capixabas e da Bahia. Hoje, o preço da tilápia vendida pela Apigua varia de R$4,00 a R$5,00. Já o filé da tilápia, mais valorizado, é entregue a R$18,50. “Cada quilo do peixe faz cerca de 320 gramas de filé”, explica o agrônomo.


A associação do Guaxe ganhou no ano passado um aliado para o desenvolvimento da atividade. O Programa Aquisições de Alimentos (PAA), do Governo Federal, possibilitou a venda dos peixes para instituições de caridade. Quem compra, na verdade, é a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), vinculada ao Ministério da Agricultura, que doa os alimentos para as entidades. Em 2010, oito piscicultores da Apigua conseguiram participar do programa, comercializando seis toneladas de tilápia para quatro entidades do município. “Esse mecanismo beneficia a gente. Quando vende para terceiros é complicado. Com a venda direta para as entidades temos uma renda melhor”, diz o piscicultor Romário. A expectativa para esse ano é de dobrar os números, com 15 pessoas vendendo cerca de 12 toneladas para oito instituições”, diz Glaucia Praxedes, zootecnista do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), que auxilia os associados nos procedimentos do PAA.  


 



Romário, Gláucia e Gilberto na balsa no meio da lagoa


 


De volta a sede da associação, Romário sabe que o planejamento e dedicação dos pescadores irão resultar em dias melhores para a comunidade. “Ah, vai sim. Expectativa é boa. Vamos ter melhores resultados no futuro”, diz. A esperança voltou a refletir nas águas da lagoa. “Resgatou a auto estima deles. Hoje, batalham pelo crescimento da associação e da atividade. Acreditam”, resume o agrônomo Gilberto Marques. Para o piscicultor Francisco, a atividade é essencial para as famílias locais. “Se acabar a piscicultura fica complicado. A comunidade vive com isso. É um futuro”, diz.



 


Franco Fiorot 


 


Dê uma volta de barco pela Lagoa Juparanã com o pescador Romário


 

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